Memória como um lugar bem situado - Ponto SJ

Memória como um lugar bem situado

«Tarântula», de Eduardo Halfon, coloca uma questão subtil: quando a memória é construída exclusivamente a partir do medo, pode transformar-se num lugar difícil de habitar. A memória não é apenas um dever histórico, mas uma tarefa ética.

Tarântula (Dom Quixote, 2026) de Eduardo Halfon, escritor guatemalteco que hoje vive numa residência literária em Berlim, chegou às livrarias a 27 de Janeiro.

O livro segue dois irmãos, que depois de emigrados com a família para os Estados Unidos da América regressam à Guatemala para o que eles acham ser um campo de férias judaico. No entanto, o que a personagem principal, que partilha o nome com o autor, percebe é que a memória da segunda guerra mundial paira sobre este campo. Nestas semanas Eduardo encontra-se num país que não considera seu, obrigado a falar um espanhol mau e a tentar sobreviver ao que parece ser uma simulação “para crianças” de um campo de concentração – onde experienciam uma extrema violência psicológica.

Ao longo de várias décadas Eduardo vai tentando interpretar o que realmente ali se passou, questionando-se até que ponto a reconstituição do trauma pode transmitir conhecimento sem reproduzir, em escala reduzida, a violência que procura denunciar.

O romance sugere que a memória herdada nunca é neutra. Ao encenar o trauma histórico através do pânico, os animadores do campo pretendem garantir que as novas gerações não se esquecem da violência do século xx. O argumento, justificado anos depois num encontro entre Eduardo e um dos animadores, Samuel, é simples: se o horror não for sentido de forma quase física, corre-se o risco de o repetir.

Olhado como um lugar de medo, o presente e talvez o futuro podem tornar-se lugares mal situados.

Mas Tarântula coloca uma questão mais subtil. Quando a memória é construída exclusivamente a partir do medo, pode, então, transformar-se num lugar difícil de habitar. O poder da memória vai-se construindo subtilmente ao longo deste pequeno romance como algo que deve ser constantemente olhado e vivenciado. Olhado como um lugar de medo, o presente e talvez o futuro podem tornar-se lugares mal situados. Pensar o romance a partir desta tensão permite encarar a memória como um espaço que exige cuidado. Recordar não é apenas expor-se ao horror do passado, mas integrá-lo numa narrativa que torne o futuro habitável, tal como José Frazão Correia diz: «A memória será, assim, tanto mais fecunda quanto mais cultivar a gratidão – a má memória gera desconfiança, ressentimento, paralisia, desistência, venenos que infectam o corpo e o espírito e inibem a implicação de um futuro promissor. Pelo contrário, reconciliar-se com o património herdado favorecerá a honestidade, a criatividade, a rectidão de vida.» (Quem Quiser Ganhar Há de Perder, Paulinas, p. 28).

É este o ponto de fricção de Tarântula. O romance mostra que a memória não é apenas um dever histórico, mas uma tarefa ética: a forma como recordamos molda a possibilidade de futuro. Entre o risco do esquecimento e a tentação de educar pelo medo, Eduardo Halfon sugere a necessidade de uma memória como um lugar bem situado – capaz de reconhecer o trauma sem ficar prisioneira dele. A meu ver é esse o verdadeiro desafio colocado pelo livro: transformar a herança do passado num espaço de lucidez e responsabilidade, onde recordar não paralisa, mas abre caminho a uma vida mais consciente.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.