Kit S.O.S. contra a narrativa da catástrofe do mundo - Ponto SJ

Kit S.O.S. contra a narrativa da catástrofe do mundo

O silêncio. O cheiro bom da primeira chuvada do Outono a encharcar a terra seca. A ternura, mil vezes, a ternura e o espanto.

Cafuné, não só porque é bom, mas porque a palavra em si mesma nos faz sorrir. A sombra de uma árvore que dança de manhã na parede da sala. Aquele instante no meio de uma discussão em que percebemos que o outro aterrou por segundos na pista da empatia e substituiu a palavra afiada que tinha na ponta da língua, por outra mais justa e suave, capaz de mudar o rumo da conversa. Uma gargalhada genuína, solta e viva que contagia todos à sua volta. Aquele filme que já vimos três vezes, mas que vamos ver só mais uma, porque as outras ainda não chegaram. A gentileza subtil de um gesto de atenção que nos faz sentir vistos ou reconhecidos. Aquela memória de quando éramos miúdos que nos desenha um sorriso do lado de dentro. A voz cujo timbre nos enleva e na qual confiamos. Um jantar de amigos que se atropelam em conversas cruzadas porque é essa a dinâmica caótica e viva da amizade. A voz única de uma Igreja a rezar o Pai Nosso. Aquele livro que lemos este ano e que é mesmo o melhor de sempre, até que outro lhe tire o pódio no ano que vem. O balanço do corpo que conhecemos e reconhecemos no meio de qualquer multidão. Fotografias impressas nas quais podemos agarrar. Aquele momento em que a oração nos surpreende com uma esquina escondida e nunca iluminada. Quando ligamos o rádio e está a dar aquela música. O Enlace perfeito nas cinco linhas do poema de António Barahona da Fonseca. O silêncio. O cheiro bom da primeira chuvada do Outono a encharcar a terra seca. A ternura, mil vezes, a ternura e o espanto. O rumorejo das árvores. O cheirinho a café acabado de fazer. Uma noite bem dormida. A calma das manhãs de domingo. O consolo de um abraço. O descanso desprendido da nossa casa. O primeiro mergulho do verão. Os nossos que são ninho e rede. A beleza comovente das nossas imperfeições e, melhor ainda, aqueles que as amam, insistindo em navegá-las. A inocência desarmante das perguntas das crianças e a infância dos velhinhos. Os lugares bons da nossa história. O segundo de arrebatamento em que os nossos olhos veem o agir de Deus na nossa aflição e compreendemos, até à última célula do que somos, que o Seu amor é uma vigília ininterrupta e atenta que nos encaminha nos passos do filho pródigo, uma vez e outra e mais outra …

Na esperança de que esta lista permaneça inacabada, queira retomá-la, ali, onde estão reticências.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.