Sempre me impressionou o texto de Mateus alusivo às Bem-Aventuranças, integrado no longo “Sermão da Montanha” (Mt 5, 1-48). Sabemos como o evangelista se preocupa, escrevendo para cristãos oriundos do judaísmo, em mostrar que, em Jesus, se cumpriam todas as promessas feitas ao povo de Israel e as expectativas messiânicas alimentadas pelos profetas.
Não é por um acaso que Jesus surge no cimo de um monte quando proclama as Bem-Aventuranças e a este mesmo lugar é associado todo o conjunto de ensinamentos que se lhe sucedem. Tal como Moisés, que recebera de Deus, na montanha, os mandamentos que consubstanciavam a aliança feita com o Seu povo, também Jesus sobe ao cimo de um monte para ensinar os seus. Mas a sua autoridade é maior que a de Moisés, como nova e maior é a nova aliança que Ele propõe e que n’Ele se realiza, na sua entrega até ao fim.
O Deus de Jesus é um Deus que chama à plena liberdade, a um alargar dos horizontes a partir de dentro, de um coração convertido, sincero, simples, despojado, disposto a viver o amor como norma de vida, em todas as suas implicações. Por isso, a estreiteza da antiga Lei e sobretudo das leituras legalistas feitas pelos fariseus e outros grupos zelosos do judaísmo do seu tempo dá lugar a uma relação com Deus vivida na verdade e no concreto do humano: “foi-vos dito… eu, porém, digo-vos…”.
Os caminhos para esta vida em plenitude que é a santidade passam pela vida despojada e aberta aos outros (e ao Outro).
Passamos da religião para a comunhão, aberta a todos e todas, dando a primazia a Deus e ao seu amor pelos Homens, que não conhece fronteiras sociais, étnicas ou de género. A humanidade, o humano, torna-se o lugar onde se joga a verdade desta relação e desta comunhão. A nova lei subordina-se ao projeto de salvação, à novidade da relação, das relações, proposta por Jesus. É o sábado que é feito para o Homem, e não o Homem para o sábado. O cuidado por cada homem e por cada mulher suplanta qualquer quadro legalista ou as fronteiras impostas pelo religioso.
É neste sentido que leio também as Bem-Aventuranças. Elas recordam-nos, face a visões da santidade que se tornaram por vezes excessivamente clericalizadas ou “eclesiásticas”, conformadas com modelos pré-estabelecidos, como o essencial se joga a um outro nível. Os caminhos para esta vida em plenitude que é a santidade passam pela vida despojada e aberta aos outros (e ao Outro), pela consciência da nossa incompletude, pela limpidez do coração, indiviso e autêntico, longe de qualquer duplicidade; pela capacidade de se compadecer, de se fazer próximo, acolhendo as dores e as lágrimas do mundo, escutando os seus clamores, optando pela misericórdia e não pela severidade; pela procura incessante da paz e da justiça. A sua leitura na solenidade de Todos os Santos obriga-nos a voltar ao essencial, a confrontarmo-nos com esta proposta que desarma e desafia, que inverte critérios, propondo um caminho de simplicidade e de serviço em oposição às lógicas de poder, de sucesso a todo o custo, de dominação. O mesmo texto relembra-nos como esta santidade é, por isso, vivida tanto na notoriedade e nas existências excecionais como no escondido de uma vida de todos os dias.
Maria de Lourdes Belchior captou-o muito bem num poema que escreveu a propósito desta solenidade, celebrando a multiplicidade de caminhos e de procuras que levam a uma vida plena, cheia de sentido. Uma vida que se torna efetivamente um reflexo do Deus vivo, do Deus revelado em Jesus Cristo, desse Amor que se plasma nos pequenos gestos de cuidado, de bondade, de compaixão. Nessa vida onde a paz, a simplicidade e a misericórdia tornam concreta a novidade do Evangelho.
Não prendamos a força transformadora das palavras de Jesus, que nos impele, não a uma vida “perfeita”, mas a uma vida plena, na verdadeira liberdade de filhos e filhas de Deus.
Também por isso celebramos, tanto neste dia como no dos Fiéis Defuntos que se lhe segue, a força da esperança, fundada na fé em Jesus, que na sua morte venceu a morte e abriu para a nossa humanidade um caminho de eternidade. Celebramos, mais do que tudo, essa sede de sentido, esse desejo de uma vida plena. Como nos relembra o salmo 23, celebramos a geração dos que procuram a face de Deus, os que aceitaram fazê-lo mesmo na fragilidade e na contingência das circunstâncias concretas da sua existência. E essa geração é incontável, como nos recorda o livro do Apocalipse. É a geração, numa imagem bela mas paradoxal utilizada pelo seu autor, dos que lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro. Dos que levaram a sério as palavras e o exemplo de Jesus. Dos que entenderam que só perdendo a vida esta pode ser verdadeiramente ganha. Dos que, com Jesus, vivem no dinamismo da sua Páscoa, na verdade do batismo. E como nos recordou o Concílio Vaticano II, é no batismo que radica toda a santidade, consagrando todos e todas e convocando-os para o imenso desafio de transformação do mundo.
Não prendamos, pois, a força transformadora das palavras de Jesus, que nos impele, a todos e todas, não a uma vida “perfeita”, associada muitas vezes ao cumprimento de preceitos e normas ou a lógicas de submissão ou subordinação, mas a uma vida plena, na verdadeira liberdade de filhos e filhas de Deus. Para uma vida que torne visível esse amor com que somos amados, com que todos são amados. E as Bem-Aventuranças recordam-nos como o Deus revelado em Jesus é o Deus que nos quer dar a terra em herança, nos reveste de misericórdia e de ternura, nos oferece o seu Reino. O excesso do seu dom, da sua graça, antecede-nos e é verdadeiramente o caminho da nossa liberdade.
Assim o aceitemos. Assim queiramos essa liberdade que nos lança na construção de um mundo mais justo e fraterno, atento ao clamor dos pobres e ao clamor da terra. Para que este mundo seja efetivamente uma casa para todos, onde todos têm lugar e são importantes. Para que se realize a promessa de Deus de novos céus e nova terra, de um mundo plenamente redimido e conduzido à sua plenitude.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
