Famílias em missão - Ponto SJ

Famílias em missão

Não somos o centro. O centro é Jesus, sempre trazido pela disponibilidade e ternura de Maria. E é uma honra estar ao serviço da Rainha do Céu.

Nesta Páscoa aconteceu uma missão muito especial. Partimos para Alcanena seis casais, com os respetivos filhos, amigos dos filhos e um padre. Éramos 66.

Fomos muito bem recebidos pela paróquia local, neste primeiro de três anos de Missões Familiares naquela terra entre Santarém e Fátima. O nosso lema: “Sementes de Esperança”. Em cada dia, íamos às casas, ao lar, ao centro dia, ao ATL, a uma escola e a todos os lugares onde nos abriam portas. E foram muitos. Partíamos em pequenos grupos de dez ou onze, liderados por um casal e com juventude muito animada, entre os 6 e os 22 anos: uma ‘família missionária’ com a sua diversidade, diferentes personalidades e carismas, com todos a contribuir. Nem sempre nos abriam a porta: o terreno era incerto. A “Semente” é a melhor de todas e os frutos de Esperança acabarão por brotar, quando e como Deus quiser. Por estarmos nas vésperas da Páscoa, foi muito importante participar e convidar a participar nas celebrações pascais, incluindo uma belíssima Via Sacra organizada por uma das famílias missionárias, com e para a comunidade. Não longe de Alcanena, em Ponte de Sôr, acontecia na mesma Semana uma missão semelhante. No verão, acontecerá em Almeirim o segundo ano das missões familiares naquela terra ribatejana. Cada missão familiar tem objetivos e ritmos parecidos e tem também o cunho e a identidade própria das famílias que a concretizam.

“A família cristã ou é missionária ou não é cristã.”
São João Paulo II

Missões Familiares Católicas

Começaram no Chile, em 1977. Ao longo dos anos, estenderam-se por outros países da América do Sul, como a Argentina, o Paraguai e o Brasil, e pela Europa, incluindo Portugal. Na origem deste projeto missionário esteve a busca de uma vivência concreta de fé entre pais e filhos para além do ambiente exclusivamente familiar e a vontade de dar testemunho da alegria da família cristã. As Missões Familiares Católicas são preparadas e vividas por várias famílias (foram largos meses a preparar esta em Alcanena!), numa experiência de Igreja entendida como “família de famílias”, slogan talvez fácil de escrever mas difícil de levar à prática. Foi do seio destas missões que nasceu, também no Chile, a Missão País, já muito disseminada no nosso país. As missões familiares são a missão país em modo família. E têm alguma coisa dos Campos de Férias Católicos, outro fenómeno crescente entre nós.

 

Uma Missão, três objetivos

Gostei logo dos objetivos deste tipo de missão quando me foram apresentados no ano passado. Não são propósitos meramente conceptuais. São realidades bem pensadas e equilibradas que se foram harmonizando ao longo da Semana: Missão externa, Missão interna e Missão pessoal.

1. Missão externa: Consiste no trabalho que fazemos com a população local. A visita às casas e a outros lugares de cuidado é uma parte central da missão e uma experiência muito enriquecedora para quem a realiza. Conhecem-se pessoas muito diferentes, histórias de vida difíceis, outras que podiam ser as nossas – criam-se relações. Mais do que recomendações e dicas, importa entender que somos instrumentos de Deus e que devemos partilhar, escutar e aprender com as pessoas que visitamos, com a maior simplicidade possível. Procuramos levar esperança e alegria especialmente a quem está mais frágil e sozinho. E, com muito tato e empatia, convidar as pessoas a (re)aproximarem-se da Igreja, porque sabemos que é bom e faz bem.

2. Missão interna: É a vivência dentro do grupo das famílias de missionários. As orações, as refeições, os jogos, servem para criar um espírito de família cristã, forte e unida, onde cada missionário se possa sentir apoiado e com a coragem necessária para a missão. Criam-se vínculos fortes, partilham-se momentos e vivências sentidas. No último dia, o “coração aberto” é um tempo fortíssimo de partilha sobre o que se viveu.

3. Missão pessoal: Consiste na aprendizagem que cada um faz durante a semana de missões e que leva consigo para o dia-a-dia. Todas as experiências que se vivem, principalmente a experiência de ser instrumento nas mãos de Deus, as pessoas que se vão conhecendo, provocam pequenas transformações interiores, que vão sendo assimiladas por cada um. Uma missão vivida de dentro para fora! Na missão em Alcanena, o padre esteve sempre conosco e à disposição durante toda a missão: muitas confissões e conversas aconteceram naqueles dias. Os momentos de oração pessoal e de partilha em comum foram vitais para cultivar a missão pessoal. A Missa e as celebrações pascais permitiram um encontro mais profundo com Jesus.

“O nosso objetivo é formar autênticas famílias católicas, pequenos `santuários vivos´ de fé e de amor, com vínculos fortes e verdadeiros, num mundo marcado pela dissolução destes vínculos que são queridos por Deus”
P. Joseph Kentenich

Mãe Peregrina

Durante toda a Semana, fomos acompanhados pela conhecida imagem de Nossa Senhora com a forma do Santuário de Schoenstatt, onde foi abençoada e enviada no início da nossa missão. Ela é sinal e presença de Maria, a “grande missionária” por excelência! Sermos instrumentos missionários de Maria dá-nos simultaneamente a responsabilidade de servir a Mãe de Deus e de nos descentrarmos de nós próprios. Não somos o centro. O centro é Jesus, sempre trazido pela disponibilidade e ternura de Maria. E é uma honra estar ao serviço da Rainha do Céu. Através desta imagem, Maria vai concretamente ao encontro de quem a recebe, com as suas graças próprias: acolhimento de todos, convite à transformação interior de cada um e envio missionário para levar Jesus aos lugares onde Ele quer ir. A linguagem quer-se simples: as crianças ajudam-nos muito nisso. Certamente muitas portas se abriram por causa das crianças. Alguma subtileza é necessária: perceber quando avançar, propor, recuar, calar, falar. Houve quem lhe chamasse “ginga” missionária! Não é preciso complicar. Noutros lugares e contextos, a missão talvez tenha de ser mais sofisticada. Nas missões familiares o estilo é direto e simples.

Quase no final do bestseller do momento, «O Louco de Deus no Fim do Mundo» o autor, o jornalista Javier Cercas, conclui que encontrou a solução para todos os problemas da Igreja: “Todos missionários!”. Assino por baixo. A missão alegra e anima, questiona e liberta-nos de um certo espírito tacanho em que a vida eclesial também se pode tornar, e dá novo fôlego à vida com Cristo.

Agora é tempo de gratidão: de agradecer a todos os que tornaram possível esta missão, sobretudo o apoio e confiança dos casais, dos padres, dos filhos, amigos dos filhos e das famílias próximas e alargadas de todos. Segue-se o grande desafio destas “boas aventuras”: a continuidade. Que esta não tenha sido uma semana isolada, uma “bolha especial” no ano. Que seja uma semana que contagie positivamente todo o ano. Que consigamos continuar a ser “Sementes de Esperança”, noutros ambientes e porventura doutras formas, mas que o fogo se mantenha vivo! E para o ano, se Deus quiser, voltaremos a Alcanena, para o segundo ano de missão naquela bela terra. Voltem connosco!

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.