Agora que se aproximam as eleições autárquicas de outubro de 2025, começam a surgir, como sempre, as conversas entre famílias e amigos: “Vais votar em quem?” O que partilho neste texto não é mais do que a minha sensibilidade — e vale o que vale. Não pretendo ferir suscetibilidades, mas contribuir para um olhar mais amplo sobre o que verdadeiramente forma uma sociedade.
É comum ouvirmos, nos nossos círculos, opiniões sobre o candidato X ou o candidato Y, o apoio ou descontentamento em relação à lei A ou à lei Z. E também há aqueles que preferem o silêncio, já cansados do dissabor político. As minhas preocupações, talvez por natureza, recaem quase sempre sobre as propostas educativas dos vários partidos. Não apenas por ter um background familiar ligado à Educação, mas porque tive o privilégio de viver na pele dois modelos educativos diferentes — o formal e o informal — e de perceber o quanto ambos transformam, de maneiras distintas.
Todos nós passámos pelo modelo de educação formal: as escolas, as universidades, com horários fixos, os toques da campainha, os blocos de disciplinas, a estrutura hierárquica e padronizada, a avaliação quantitativa. É o modelo que ainda domina em Portugal, um modelo herdado do século XIX, desenhado no contexto da Revolução Industrial, para preparar cidadãos para fábricas e escritórios. Era uma educação orientada para a disciplina, a repetição e a produtividade, onde o aluno devia encaixar num molde. Hoje, vale a pena, num exercício honesto e realista, perguntar se esse modelo responde aos desafios humanos, sociais e espirituais do século XXI.
Era uma educação orientada para a disciplina, a repetição e a produtividade, onde o aluno devia encaixar num molde. Hoje, vale a pena, num exercício honesto e realista, perguntar se esse modelo responde aos desafios humanos, sociais e espirituais do século XXI.
Mas a minha vida também me deu o privilégio de conhecer a educação informal — essa que nasce fora da escola e das universidades, mas educa de forma mais profunda. Falo de experiências como o voluntariado, os escuteiros, os campos de férias, os cursos artísticos ou desportivos. Lugares onde se aprende com o corpo, com a relação, com a experiência.
É neste contexto, que trago à memória as comemorações, também agora em outubro, dos centros universitários — como o Centro Universitário Padre António Vieira (CUPAV), em Lisboa, e o Centro Universitário Manuel da Nóbrega (CUMN) em Coimbra — verdadeiros laboratórios de educação informal e contracorrente.
Quando olho para trás, percebo que aquilo que vivi, no meu caso no CUPAV, não foi uma formação académica, mas uma formação humana e espiritual. Lá, a educação acontece pela vida partilhada da “casa”, pelo estar à mesa, pela escuta e pelo discernimento. A aprendizagem nasce das conversas, das propostas, do encontro e do testemunho. A oração e a espiritualidade dão sentido ao que se vive. A motivação interior nasce de nos sabermos amados por Deus, com vontade de crescer, servir e amar. O ritmo é pessoal, mas orientado e sustentado pela comunidade e pelos variados grupos. Aprendemos a integração entre fé, razão e a vida quotidiana, a colaborar, discernir, rezar e servir — competências humanas e espirituais que formam pessoas, porque tocam e trabalham a dimensão do ser.
Por isso, escrevo também em gratidão — especialmente aos jesuítas e às comunidades que, há 41 e 50 anos, respetivamente, sustentam o CUPAV e o CUMN. O seu investimento educativo é contracorrente num mundo que mede valor apenas em produtividade. E, no entanto, é isso que verdadeiramente nos forma.
O que é único ali não é apenas o “ambiente formativo”, mas a maneira como se forma — a liberdade com que se propõe, a profundidade interior que se cultiva, e o enraizamento na oração que orienta a vida. Os Centros não nos dão apenas critérios, ajudam-nos a discerni-los: com os pés na terra, o coração disponível e o olhar em Deus.
A cada um de nós, que a mobilidade e a motivação ao voto sejam expressão de quem também é responsável por tanto que recebeu. E que a consciência e a honestidade intelectual sejam o alimento que devolvemos à nossa democracia.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
