A inteligência artificial e a fragilidade da liberdade - Ponto SJ

A inteligência artificial e a fragilidade da liberdade

Discernir implica dosear. E dosear tornou-se uma das tarefas difíceis da nossa era digital. Vivemos cercados de possibilidades, mas em défice de consciência, pois a consciência precisa de interioridade. E a interioridade tornou-se um luxo.

Ao explicar a escolha do nome Leão XIV, o novo Papa estabeleceu uma ponte entre a Revolução Industrial enfrentada por Leão XIII e a revolução tecnológica provocada pela inteligência artificial. Não se trata apenas de uma comparação histórica feliz. É uma intuição profundamente antropológica: também hoje a questão central não é apenas saber o que as máquinas conseguem fazer, mas perceber o que acontece ao ser humano quando a técnica começa a moldar a própria experiência da liberdade.

Durante grande parte da minha vida, vivi na ausência da inteligência artificial. Treinei a memória, atravessei o tédio, procurei nos livros respostas que não vinham senão depois de muita procura. Esse trabalho interior – aprender a estar a sós consigo próprio – fazia parte de um mundo ritmado apenas pelo curso dos dias.

Relacionei-me primariamente com a realidade circundante: cores, sabores, rostos, conversas, histórias, continuidades. Ser livre não era apenas dispor de escolhas. Era também encontrar, nessas interações concretas, um limite para as próprias escolhas – como se o mundo próximo, sensorial e humano, ajudasse a ordenar os desejos e a orientar os acontecimentos.

Entretanto, irrompeu a inteligência artificial: auxiliar poderoso, fascinante, cheio de possibilidades. Com um dispositivo na mão, foi-nos dado conhecer uma espécie de novo “melhor amigo”: moldado à nossa medida, sempre disponível, sem exigência aparente, capaz de responder aos nossos gostos, antecipar expectativas e até adivinhar desejos.

Fartos e distraídos, vamos adiando o momento de digerir, sintetizar, metabolizar e discernir.

A rapidez da informação substitui a procura demorada; a pergunta transforma-se num lampejo; o lampejo, rapidamente, em saciedade.

A curiosidade torna-se apenas um aperitivo: pequenas doses de estímulo em regime contínuo, onde tudo nos é dado antes de ser verdadeiramente procurado. Fartos e distraídos, vamos adiando o momento de digerir, sintetizar, metabolizar e discernir.

Discernir implica dosear. E dosear tornou-se uma das tarefas mais difíceis da nossa era de abundância digital. Vivemos cercados de possibilidades, mas com défice de consciência. Porque a consciência precisa de interioridade. E a interioridade tornou-se um luxo: exige tempo, silêncio, atenção, renúncia. Exige suportar a sensação terrível de estar a perder alguma coisa enquanto todos os outros parecem aceder a tudo.

Fechar. Desligar. Ficar para trás. Em troca de quê? Em troca de ficarmos a sós connosco mesmos – e descobrir que já não sabemos bem como fazê-lo.

O nosso “melhor amigo” digital torna-nos paulatinamente mais isolados, mais impacientes, mais estreitos. Habitua-nos a um mundo feito à medida do imediato e reduz a nossa capacidade de procurar o belo, o bom e o verdadeiro.

Isso põe em evidência a fragilidade da nossa liberdade.

Sem interioridade, a liberdade torna-se facilmente programável.

Podemos fazer múltiplas escolhas e sermos pouco livres. A liberdade não é mera disponibilidade ou escolha. Não é ausência de limites, bem pelo contrário; é a capacidade de os colocarmos a nós mesmos, de discernir, responder, assumir, amar e permanecer.

Sem interioridade, a liberdade torna-se facilmente programável.

Faltam-nos heróis da liberdade. Não da liberdade entendida como satisfação imediata de todos os desejos, mas da liberdade que se reconhece dentro das circunstâncias e age em direção a um bem maior. A liberdade que aceita limites não como mutilação, mas como forma. A liberdade que permanece humana porque continua capaz de consciência, responsabilidade e relação.

A inteligência artificial pode ajudar-nos muito. Mas não pode viver por nós. Não pode discernir por nós. Não pode amar por nós. Não pode substituir essa bendita liberdade com que somos chamados a ser co-criadores de nós mesmos.

Faltam heróis da liberdade. Talvez esteja na hora de cada um de nós tentar sê-lo

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.