No texto A esperança lá de casa escrevi a partir de casa, da experiência íntima de viver a deficiência em família. Mas este é um tema que não fica à porta de casa. O que fazemos com ela quando passamos para a escola, a universidade, as organizações, o espaço público? O que significa levar a sério a deficiência fora do círculo dos afetos?
Nas últimas décadas, a linguagem da diversidade e inclusão ganhou proeminência. Discutimos e decidimos políticas, programas, quotas, indicadores. E, até certo ponto, nas diferentes dimensões da identidade humana, alguns destes passos foram e são importantes. Mas quando tratamos a deficiência como mais uma vertente da diversidade, algo se perde pelo caminho.
A deficiência não é apenas uma identidade entre as outras. É uma possibilidade humana universal. Todos nós, mais cedo ou mais tarde, por envelhecimento, doença ou acidente, podemos vir a experimentar algum tipo de limitação. Além disso, a deficiência cruza-se com todas as outras dimensões da identidade. E, ao contrário das restantes, exige ajustes significativos – de espaços, de tempo e de práticas – por parte das organizações, seja um empregador ou uma instituição educativa, de saúde, entre outras.
Talvez por isso tantos programas bem-intencionados em diferentes contextos, falhem. A inclusão transforma-se num exercício administrativo no qual é preciso cumprir requisitos, preencher quotas, ajustar relatórios. As pessoas com deficiência são integradas em sistemas pensados para outros corpos, outros ritmos e outras capacidades. A fronteira entre quem inclui e quem é incluído mantém-se rígida.
O que transforma verdadeiramente mentalidades não são ações pontuais, mas condições.
Há, no entanto, experiências que mostram outro caminho.
Num programa desenvolvido numa universidade onde jovens com e sem deficiência trabalham em pares de forma regular, com tempo e espaço para criar uma relação, algo diferente acontece. O objetivo inicial pode ser apoiar ambos os grupos na transição para o mercado de trabalho. Mas o resultado vai muito além disso. As aprendizagens tornam-se mútuas. As fronteiras entre ensinar e aprender, entre ajudar e ser ajudado deixam de ser tão fixas. O próprio conceito de inclusão muda, porque os limites naturalmente estabelecidos entre os dois grupos tornam-se fluidos, a noção de quem é capaz e incapaz altera-se consoante a situação.
Durante o programa, a visão binária da deficiência, ou seja, alguém “ter ou não ter” uma deficiência, perdeu força, dando lugar a um reconhecimento de todos os participantes como indivíduos completos, cada uma com diferentes capacidades e desafios. Nesses contextos, a inclusão deixa de ser um gesto unilateral e passa a ser um processo relacional. Todos são chamados a rever a forma como se veem a si próprios e aos outros. A deficiência deixa de ser o foco de atenção e passa a fazer parte de um ecossistema de relações, competências e fragilidades partilhadas.
O que transforma verdadeiramente mentalidades não são ações pontuais, mas condições. Tempo partilhado. Espaços seguros. Relações reais. Contextos onde é possível errar, ajustar e recomeçar. Onde a eficiência não é o critério supremo e onde a pessoa não é reduzida à sua utilidade.
Isto tem implicações exigentes. Às instituições educativas, mais do que serviços de apoio, exige-se uma revisão das práticas pedagógicas e das expectativas de sucesso. Às organizações, mais do que cumprir obrigações legais, exige-se disponibilidade para repensar modos de trabalho, avaliação e progressão. À sociedade, exige-se a coragem de aceitar que a inclusão verdadeira nos transforma a todos.
Incluir pessoas com deficiência não é “fazer o bem”. É aceitar que a forma como organizamos a vida em comum revela quem somos e o que valorizamos. Talvez a pergunta decisiva não seja como os incluímos, mas que tipo de sociedade estamos dispostos a construir com eles, aceitando também as fragilidades que partilhamos.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
