Eco-delegados e Casa Velha, um encontro feliz - Ponto SJ

Eco-delegados e Casa Velha, um encontro feliz

Quando um grupo de Eco-delegados Europeus, provenientes de várias províncias da Companhia de Jesus, se reúnem neste “lugar profético” que é a Casa Velha - para falar de conversão ecológica - o resultado só podia ser feliz.

Foi em 2019 que os Jesuítas definiram um conjunto de quatro “Preferências Apostólicas Universais”, de forma a servirem de linhas orientadoras para a missão apostólica da Companhia de Jesus a nível mundial. Enquanto as três primeiras não foram propriamente surpresa e se encaixam na já longa tradição inaciana (“Mostrar o caminho para Deus”, “Caminhar com os excluídos”, “Acompanhar os jovens”), a quarta veio trazer o elemento de novidade de “Cuidar a Casa Comum”, inserindo-se na linha aberta pela encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco em 2015, em resposta à “tripla crise planetária” de mudança climática, perda de biodiversidade e poluição.

Como acontece na organização de outros sectores apostólicos, as Províncias foram a partir daí criando a figura do “Eco-delegado”, o jesuíta ou leigo encarregado em cada Província de coordenar e animar a “conversão ecológica” de pessoas, comunidades e instituições. O continente europeu não foi exceção, e existe desde 2022 um grupo de Eco-delegados Europeus, composto por 14 elementos (cobrindo assim quase todas as 16 Províncias da Conferência europeia), que se vai reunindo regularmente para partilhar novidades e trabalhar temas comuns. Estas reuniões são coordenadas pelo Secretário Europeu para a Justiça Social e Ecologia (missão que me toca atualmente exercer a partir de Bruxelas), acontecem online duas vezes por trimestre, e uma vez por ano de forma presencial, o que permite ao grupo não só crescer no conhecimento e partilha mútuos, mas também visitar in loco um projeto ecológico localmente estabelecido.

Foi neste contexto que, depois de termos reunido em 2024 no Eco-Centro Espiritual Le Chatelard (em Lyon, França) e em 2025 no Centro Ukama para a Transformação Socioambiental (em Nuremberg, Alemanha), decidimos fazer a reunião de 2026 na Casa Velha projeto de ecologia e espiritualidade instalado em Vale Travesso (perto de Ourém), na quinta de uma família local, gerido por uma associação de voluntários comprometidos, e da qual também os Jesuítas fazem parte. Alguns dos eco-delegados já tinham visitado a Casa Velha por diferentes circunstâncias, e os demais tinham curiosidade em conhecer este lugar do qual se vai falando pela Europa fora.

Estivemos então, de 17 a 21 de março, um grupo de doze delegados reunidos na Casa Velha, com mais dois acompanhando os trabalhos online. Como habitualmente, o grupo partilhou as últimas novidades de cada Província, sendo de destacar que várias delas (nomeadamente a Província Francófona da Europa Ocidental, a Centro-Europeia, a Euro-Mediterrânica e a Espanhola) contam já com equipas de Jesuítas e colaboradores dedicados à “transição ecológica”, trabalhando em dimensões como a consciencialização e formação, a renovação energética dos edifícios e a implementação de mudanças concretas em comunidades e instituições (por exemplo, na adoção de práticas sustentáveis de alimentação e viagens). Como quase sempre, as mudanças não se fazem “de um dia para o outro” e só se enraízam se forem internamente assumidas por todos. Mas os exemplos partilhados vão mostrando que uma mudança gradual é benéfica e possível, e que muitas vezes as (naturais) primeiras resistências se tornam, com o passar do tempo, adesões convictas de quem reconhece que a questão climática é, de facto, séria e urgente.

Estar na Casa Velha foi, para este efeito, ideal. Acolhidos de forma ímpar pela Margarida Alvim (membro da família e coordenadora do projeto) e um pequeno grupo da comunidade Casa Velha, pudemos desde o primeiro instante experimentar a simplicidade de vida e a comunhão com a natureza propostas pela Laudato Si’. Na Casa Velha, as refeições são simples e confecionadas quase na totalidade com produtos locais. Muitas das atividades do programa anual pretendem despertar a “atenção dos sentidos”, e foi-nos oferecido um breve “workshop de desenho na natureza”, onde vários talentos se revelaram de forma inesperada (outros nem tanto).

Os dias começavam e terminavam com uma liturgia simples e adaptada (com orações e textos poéticos nas várias línguas presentes) na Capela do Bom Pastor, espaço construído a partir de uma antiga garagem. Como alguém escreveu na avaliação final do encontro, “estar estes dias na Casa Velha foi, mais do que visitar um projeto, fazer durante três dias a experiência do que ali se está a testar e desenvolver, e estou muito grata por isso”.

Se até há pouco a “conversão ecológica” a estilos de vida mais simples (menos consumistas, mais em contacto com a natureza e os seus ritmos) era vista sobretudo como uma questão de opção e virtude individuais, hoje ela é um “imperativo de justiça”, pela degradação acelerada dos ecossistemas e as consequências vividas já por muitos milhões de pessoas, em particular no Sul Global. Por exemplo, na Índia são cada vez mais os dias em que o calor impede todo o trabalho a quem não tem acesso a ar condicionado; na África Austral, a crescente irregularidade das chuvas e o aumento das secas têm agravado as dificuldades de quem depende da agricultura de subsistência; e, um pouco por todo o mundo – incluindo a recente passagem do Kirstin por Portugal – multiplicam-se os fenómenos climáticos extremos.

Este foi também um dos temas que, como grupo, trabalhámos no encontro: como, nas nossas Províncias e comunidades, sermos agentes (em colaboração com tantos outros, entre crentes e não crentes, decisores políticos, peritos científicos e ativistas) de uma progressiva e necessária transformação socioeconómico-ambiental, promotora de estilos de vida sustentáveis (no sentido técnico de “não esgotamento dos recursos planetários”, que são finitos) e que “não deixam ninguém para trás”. Como também escrevia o Papa Francisco: “ou nos salvamos juntos, ou perecemos todos”.

A Casa Velha revelou-se, assim, um bom “lugar profético” para fazer a experiência de que essa mudança é possível, benéfica e também feliz.


O P. Filipe Martins sj é atualmente Secretário Europeu para a Justiça Social e Ecologia.

O programa de atividades da Casa Velha, assim como mais informação sobre o projeto, podem ser consultados no website.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.