Criminalidade e racismo: realidade ou sensação? - Ponto SJ

Criminalidade e racismo: realidade ou sensação?

Somos mais racistas do que éramos há sessenta anos? Ou nunca fomos racistas? Não podemos alterar o passado, mas também não podemos olhar o passado com o que somos hoje.

Nos últimos tempos, a nossa comunicação social enche os telejornais de notícias com episódios de crimes e com cenas de violência ou manifestações antirracismo. A maioria das notícias chegam-nos através das redes sociais. É por aí que vejo muitas destas notícias que, sucessivamente repetidas, acabam por se tornar realidade para quem as lê.  Na verdade, ao “passar do dedo”, fica a perceção de um grande aumento da criminalidade e fica também uma ideia muito forte do aumento do racismo e xenofobia em Portugal.

Que eu saiba, em nenhum estudo, divulgado e validado, conseguimos ver os números reais do aumento da criminalidade e a sua associação estatística com a imigração crescente. O que é realmente verdade? Que eu tenha conhecimento, há vários estudos divulgados sobre a perceção dos portugueses face ao racismo, mas será que conseguimos avaliar objetivamente o racismo que existe em Portugal? Mais do que avaliar a situação atual, claramente, sinto que não conseguimos comparar com um “antes” para dizermos que aumentou ou diminuiu.

Usando a contemplação inaciana, podemos tentar colocar nas várias realidades o “agora” e o que vivemos antes da democracia. Nada desta reflexão se baseia em dados históricos, mas apenas no modo como Cristo nos pede que olhemos a realidade e como somos chamados a vivê-la.

Haverá dados históricos, mas, interiormente, nunca saberemos com a verdade que se exige o que acontecia.

Comecei por me colocar no tempo colonial. Muitos portugueses construíram as suas vidas nas colónias, ou províncias ultramarinas, como lhe quisermos chamar. Muitos construíram casas, fazendas ou roças. Houve construção de estradas, houve difusão da fé cristã, houve ensino. Houve também imposição de regras e costumes. Na escola as crianças aprendiam as linhas de caminho de ferro de Portugal continental, linhas que nunca conheceriam, que nunca percorreriam. Muitos sonhavam em vir à metrópole e conhecer esta “terra prometida”. Não sei se os “autóctones” alguma vez foram ouvidos, não sei se quem tomava decisões incluía o conhecimento sobre a terra que quem lá vivia tinha. Não sei se quisemos conhecer a religião e crenças de quem lá vivia ou se nos limitávamos a achar que a nossa fé católica era a única que valia a pena. Houve misturas entre colonizadores e colonizados, houve mulatos e tantos outros que vieram para Portugal depois de 1974. Alguns que continuaram e continuam a vir. Se as misturas entre raças foram de igual para igual, não tenho a certeza. Se havia liberdade de ambas as partes para tomar decisões, parece-me claramente que não. Diz a história que não. Haveria crime e corrupção? Haverá dados históricos, mas, interiormente, nunca saberemos com a verdade que se exige o que acontecia. Havia censura e não havia redes sociais em que, hoje, todos dizemos tanta coisa e com tanta leviandade.

Se deixámos alguma obra feita, tenho a certeza que sim. Basta visitar as ex-colónias e ver as construções lá deixadas do tempo português para perceber que sim. Se preparámos o povo colonizado para a autonomia, diria que não. Diria que não porque, à luz do tempo que se vivia, não tínhamos essa obrigação, não tínhamos sequer essa consciência social. Julgar os acontecimentos do tempo colonial à luz do que sabemos hoje parece-me injusto e algo arrogante. Todos tomamos decisões em cada momento, com as ferramentas e conhecimentos que temos. Julgar a realidade de há sessenta anos com o que somos hoje, parece-me pouco sério.

Mais do que o passado, importa olhar o presente.

Certamente terá havido relações diferentes, amizades diferentes, modos de estar verdadeiramente integradores. Certamente terá havido muitos portugueses que viveram nas colónias como cristãos e que partilharam a vida com quem já lá estava. Mas também houve, certamente, erros, abusos e opressão disfarçada de paternalismo.

E hoje? Que cenário vivemos e onde nos colocamos nesta realidade que nos é dada viver? Somos mais racistas? Há mais crime? Ao passar os dedos pelas redes sociais num tempo de lazer sem sentido, diria que sim. Ao fazer uma análise mais profunda e, sobretudo, ao levar tudo isto à oração, fico na dúvida do que é realmente real.

A divulgação das notícias de crime e de racismo aumentou exponencialmente. Será que esse aumento de divulgação reflete a realidade? Será que os crimes são realmente todos cometidos por migrantes? As pessoas, naturalmente inseguras e com medos, rapidamente apontam o dedo, rapidamente antes de ler a notícia já sabem que foi um migrante. Comentam, como se as letras gordas de uma notícia que não leram, confirmasse o que elas já sabiam, desde sempre. Se não foi migrante, foi cigano de certeza. Era fundamental que, quem tem capacidade de decisão, tivesse a coragem de fazer uma análise de dados objetiva e de divulgar esses dados, de modo isento e sem julgamento ou preconceito, mas também sem medos. Se for real, olhemos para essa realidade e tentemos encontrar soluções para o problema real.

Somos mais racistas do que éramos há sessenta anos? Ou nunca fomos racistas? Não podemos alterar o passado, mas também não podemos olhar o passado com o que somos hoje. Se por um grupo político somos apontados como os colonizadores exemplares, pelo extremo oposto fomos os colonizadores criminosos. Essa visão, tão polarizada do que fomos, certamente não constrói pontes nem relação com as nossas ex-colónias ou com quem, vindo de lá, quer integrar-se em Portugal.

Mais do que o passado, importa olhar o presente. Como vivemos hoje, como portugueses, quando vamos trabalhar para Angola, para Timor ou para Moçambique? Como acolhemos quem chega para estudar ou trabalhar em Portugal? Fomos e somos emigrantes exemplares? Nunca sofremos racismo nos países que nos acolheram? Todos os que emigraram nunca cometeram crimes? Queremos que os migrantes que chegam tenham os mesmos deveres e trabalhem, muitas vezes, naquilo que nós não queremos, mas choca-nos que tenham os mesmos direitos. Não somos racistas, mas continuamos a dizer: “eu não tenho nada contra os migrantes, mas não gosto de passar e ver muitos de turbante juntos na rua”.

Onde fica a verdade? Se há sessenta anos não tínhamos conhecimento da consciência social que temos hoje e não podemos julgar quem viveu nesse tempo, hoje, enquanto cristãos, somos chamados a viver de modo diferente, a exigir mais de cada um de nós. A olhar para quem chega com humanidade. A ler as notícias até ao fim, a repor a verdade em cada situação. A exigir a quem governa que regule com humanidade e não com base na popularidade das medidas que toma. Na composição do lugar do Portugal de hoje, urge pedir a Deus que nos mostre o que nos está a pedir.

 

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.