Tudo começou com a primeira viagem que fiz em trabalho. Se a memória não me falha, foi a Londres e, num tempo livre, fui até à Tate. No final da visita, na loja da galeria comprei um livro para os meus filhos. Sem saber, comprei um clássico, The Very Hungry Caterpiller, de Eric Carle.
Este é um livro muito visual, que envolve qualquer bebé. A narrativa é simples, desperta-lhe a curiosidade — como é possível uma lagarta ser tão comilona? —, pelo caminho aprende o nome de muitos dos frutos e outros alimentos que já come ou que vai comer; assim como aprende a contar. E, no final, há uma enorme surpresa, a lagarta transforma-se numa linda borboleta. Mais uma aprendizagem que é também a magia do milagre da natureza.
Já crescidos, o livro continuava a maravilhá-los. Sobretudo porque púnhamos, o pai ou eu, a borboleta a voar pelo quarto.
A partir de então, sempre que viajava, procurava um sítio com alguma curadoria — uma livraria famosa ou uma loja de museu — e comprava um livro em “estrangeiro”. As cidades mais fáceis são Londres, Paris, Berlim ou Roma. As mais desafiantes foram Buenos Aires e Sarajevo. Na primeira, na livraria El Ateneo Grand Splendid, linda porque outrora fora um teatro e, por isso também, muito cheia de turistas, a livreira não percebeu o meu pedido — um clássico argentino da literatura infantil, e deu-me o nome de um autor. Não me lembro sequer do título e recordo-me que os miúdos também não acharam especial graça à história, já as ilustrações mostravam-nos animais que não existem por cá.
Em Sarajevo, pouco depois da guerra — altura em que só podíamos pisar pedra e não pôr um único pé num pedaço de terra por causa das minas terrestres —, no centro da cidade, onde homens já velhos jogavam com gigantes peças de xadrez, entrei numa pequena livraria e a escolha era diminuta. Autores locais? A vendedora não sabia inglês. Optei por um Pinóquio que trazia uma peça de madeira com o feitio do boneco que queria ser um menino de verdade.
Neste Natal, comprem livros, comprem a possibilidade de partilharem histórias com os vossos filhos, sobrinhos ou netos.
Foram muitos os livros, que foram muitas as viagens, que os meus filhos receberam e que só mais tarde ganharam traduções em português. Há um que é marcante, uma lengalenga que eu e o pai inventámos, a partir da nossa tradução livre de We’re Going on a Bear Hunt, de Michael Rosen, com ilustrações de Helen Oxenbury. “Nós vamos caçar um urso, vamos caçar um urso grande…” Na versão portuguesa, os sons da natureza são ligeiramente diferentes e quando a comprámos, acabámos por deixá-la de lado e manter a nossa versão. Os livros criam esta ligação mágica entre pais e filhos, são momentos únicos e inesquecíveis.
Eles cresceram e da literatura infanto-juvenil, passei aos livros para crescidos, preferencialmente em inglês. Por exemplo, uma edição especial de Harry Potter ou o último de Margaret Atwood, ainda sem tradução para português (este foi mesmo num aeroporto… acabado de ser lançado!).
Eis que em agosto nos nasceu um neto, o primeiro, e voltei às prateleiras do infanto-juvenil. Em Barcelona, na loja do Hospital de la Santa Creu i Sant Pau comprei o seu primeiro livro. Bon dia, em catalão. Em Nápoles, na loja da Gallerie d’Italia, o segundo, Le Piccole Cose, de Emma Dodd. É uma emoção, confesso.
Ele ainda não percebe nada. Na verdade, o livro de que mais gosta tem páginas de pano que fazem barulho, são brancas, negras e vermelhas e têm animais desenhados. Fazemos os barulhos dos animais. “Como faz a galinha? Có, có, có… E o perú? Glu, glu…” Mas estou desejosa que cheguemos ao Bon Dia, de cartão e com janelas para acordar todos os animais que ainda dormem. E ao Le Piccole Cose, já de páginas finas, que estive a traduzir livremente, para contarmos todos a mesma história e que conclui qualquer coisa como: “São as pequenas coisas, as coisas normais que podem ser tão especiais.”
A conclusão destes 28 anos de compras é uma só: o convite para que, neste Natal, comprem livros, comprem a possibilidade de partilharem histórias com os vossos filhos, sobrinhos ou netos. De partilhar leituras que respondem a curiosidades, que estimulam a imaginação, que trazem conhecimento e, sobretudo, que permitem criar memórias. Boas festas!
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
