Alarga a estreiteza, é quanto faz a esperança - Ponto SJ

Alarga a estreiteza, é quanto faz a esperança

Desespero e esperança tocam-se intimamente. Na verdade, esperamos aquilo em relação ao qual desesperamos. É porque tendemos a desesperar que precisamos radicalmente de esperar.

Com o encerramento da Porta Santa da Basílica de São Pedro, no passado dia 6 de janeiro, terminou o Jubileu do ano 2025. Desta vez, spes non confundit, expressão de São Paulo retirada da sua Carta aos Romanos (5, 5), deu o mote a esta antiquíssima prática de abrir portas que iniciem a passos coerentes de conversão individual e coletiva e permitam passagens promissoras, sob a luz de uma outra lógica que a da compra e da venda, do débito e do crédito, do mérito e da retribuição – a da abundância da graça.[1] «A esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.»

Sobre a esperança, na Bula de Proclamação, de 9 de maio de 2024, escreveu o Papa Francisco:

Todos esperam. No coração de cada pessoa, encerra-se a esperança como desejo e expetativa do bem, apesar de não saber o que trará consigo o amanhã. Porém, esta imprevisibilidade do futuro faz surgir sentimentos por vezes contrapostos: desde a confiança ao medo, da serenidade ao desânimo, da certeza à dúvida. Muitas vezes encontramos pessoas desanimadas que olham, com ceticismo e pessimismo, para o futuro como se nada lhes pudesse proporcionar felicidade.

Desespero e esperança tocam-se intimamente. Na verdade, esperamos aquilo em relação ao qual desesperamos. É porque tendemos a desesperar que precisamos radicalmente de esperar. A esperança vive, por isso, em lugares existenciais bem mais densos do que o superficial e voluntarista “vai ficar tudo bem”.

No dia 12 de fevereiro passado, no Ponto SJ, João Basto escrevia um artigo intitulado “Será esta a esperança que não engana?”. Texto curto mas luminoso. Começava por colocar assim a questão:

A esperança tem sido colonizada pela autoajuda, quase reduzida a um final feliz, como quando voltamos a casa. Mas, a esperança terá de ser, acima de tudo, a esperança daqueles que não regressam a casa, daqueles que não têm casa, daqueles que não têm hipótese de obter recompensa. A esperança inversa ao triunfo. A esperança que conserva o enigma. Não ligeira. Não repetitiva. Não amena. Não fácil. Sem presunção. Sem cinismo.

Que esperança, pois, no desespero? Que possibilidades diante do impossível? Que saída para os becos sem saída? Que largura esperar na estreiteza da realidade, por vezes, da nossa própria realidade biográfica, de tantas faces da realidade nacional, da geopolítica mundial, da vida da Igreja? Que abertura pressentiremos em realidades tão estreitas? Que elevação para o que é vil? Que respiro encontrar no sufoco de lugares como uma doença incurável, a indigência económica de quem não tem trabalho ou não consegue pagar casa, da dor de relações desfeitas, de laços quebrados? Tenho-me perguntado frequentemente: como esperará e o que esperará um ucraniano, hoje, passado quase quatro anos de guerra, ainda sem fim à vista? Como esperará e o que esperará um israelita que viu outros israelitas chacinados, ou um palestiniano que vê a sua terra reduzida a escombros, ou um sudanês sem alternativa em relação ao horror da “guerra perpétua” em que nasceu e em que, provavelmente, morrerá? E, no entanto, quem mais do que o sudanês e o ucraniano, o israelita e o palestiniano precisarão de esperança para não sucumbir ao desespero, para não sufocar em espaços tão angustos, para não soçobrar? Espera quem desespera. Radicalmente, é a angústia que move a esperança.

Ainda que difícil, a nossa finitude é bênção.

Mas por que se espera na angústia? Para os cristãos, a esperança ergue-se da convicção íntima de que a bondade é o direito da realidade. É a sua razão de ser. Apesar de tudo. Contra todas as evidências. A bondade é a fisionomia. Na origem está a palavra bendita de Deus. O que mantém em vida é o amor fiel que Deus é e que Deus é para nós. Espera-se porque se crê e ama-se o que se espera – é São Tomás de Aquino quem o afirma. Ainda que difícil, a nossa finitude é bênção. Por isso, o que maravilha verdadeiramente o cristão não é que existam os entes em vez do nada, para recorrer à clássica expressão filosófica “porquê o ente e não o nada?”, mas que os entes sejam organizados segundo o Logos, a Palavra bem-dita que faz acontecer as coisas unas, verdadeiras e boas e, por isso, belas. Não são um amontoado de peças soltas, uma sucessão caótica de etapas. Têm uma ordem, a sua lógica. Por isso, são governáveis. Sem esta convicção profunda de que a realidade é ontologicamente boa, não nos escandalizaríamos com o mal. Se radicalmente não nos merecesse confiança, não teríamos o mal como avesso, como patologia indevida e intolerável, contra o qual se impõe revoltar-se e combater. Bem e mal equivaler-se-iam e o desejo de bem não passaria de bom sentimento inconsequente. Crendo na bondade da criação, os cristãos cultivam a memória do bem originário e cultivam a esperança no bem devido. A esperança nas coisas últimas vive da boa memória das primeiras; a promessas das primeiras é garantia das últimas – não é uma ordem cronológica, é uma ordem ontológica. Nas tradições hebraica e cristã, memória e promessa conjugam-se intimamente, sendo ambas lugar da fidelidade de Deus. É porque confiamos que esperamos, mesmo, ou sobretudo, no desespero. A esperança na angústia é fruto de uma confiança radical: vive da promessa de bem que não deixa de se elevar no coração do abismo e fazer mover a vontade. Enraizada na memória grata, a esperança mantém vivo um fim digno de confiança.

Voltando ao artigo que referia acima, é citada Etty Hillesum, judia holandesa cujo trajeto espiritual podemos conhecer no Diário que nos legou, escrito ente 1941 e 1943[2]. Nas suas palavras, «“mesmo que só nos reste uma rua estreita, por onde teremos de caminhar, por cima da rua existe todavia o céu inteiro”». «Por isso», comenta João Basto, «a esperança não equivale ao conforto da rua estreita, como não equivale ao recuo ou à abertura de um portal mágico no seu termo. A esperança é o alargamento da estreiteza: o espaço completo». Eis uma justa definição de esperança: “o alargamento da estreiteza”.

O que é a esperança? É o alargamento da estreiteza. No desespero, a esperança é a virtude que alarga o que ficou apertado, que eleva o que ficou caído, que faz respirar o que tende a sufocar, que reabre o que foi fechado. Nos dramas do presente, entreve-se uma qualquer abertura que filtre alguma luz, uma qualquer entrada de ar que permita respirar, uma promessa, ainda que ténue, que mantenha em vida. Sem presunção. Sem desespero.

Mas convém ter presente: a esperança não será o céu que está por cima da miséria humana de um campo de concentração; não será o espírito para lá desta matéria em decomposição; não será a alienação do custo da vida presente. Será, sim, o alargamento desta estreiteza, a elevação nestes abismos, a fecundidade desta mesquinhez, o profundo desta superficialidade. Mais do que apesar de tudo isto, vive-se de esperança em tudo isto. Mesmo que, infelizmente, a guerra não termine e os conflitos perdurem, a esperança será possível – será o mais necessário – ao ucraniano, ao israelita, ao palestiniano, ao sudanês. Não será simplesmente um céu de alienação por cima do custo real do abismo presente, mas o céu que eleva dentro desse abismo. Quando falamos de esperança é do alargamento desta estreiteza que falamos. Por isso mesmo, a esperança não é passiva. É ativa, resiliente.

 

Publicado originalmente, com ligeiras adaptações, como Editorial do número de dezembro de 2025 da revista Brotéria 201/6 (2025): 388–391

[1] Permito-me remeter para José Frazão Correia SJ, “Perder tempo para recuperar o sentido do tempo”, escrito a propósito do Jubileu 2025: Brotéria 200/2 (2025): 98–102
[2] Lisboa: Assírio & Alvim, 2020

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.