A revolução de Francisco - Ponto SJ

A revolução de Francisco

Um ano após a sua morte, recordamos o Papa Francisco. Foi revolucionário não pelas suas forças mas porque se deixou conduzir pelo Espírito Santo e se entregou. O seu modo foi em caminho — em processo — até aos últimos minutos da sua vida.

O Papa Francisco foi muitas vezes entendido como um progressista dentro e fora da Igreja, avaliado pela sua capacidade, ou não, de alterar modos de fazer e de quebrar com dinâmicas do passado. Mas ficar por essa categoria e por essa análise é distrairmo-nos do essencial e impedir-nos de ler mais profundamente o que nos disse Francisco com as suas palavras, os seus gestos e os processos que iniciou. Nem progressista, nem conservador — ou não fosse ele um homem que gostava de habitar a tensão. A mesma tensão que perturbou e desafiou tanta gente: a uns porque o Papa parecia abalar estruturas e seguranças de sempre; a outros porque parecia unir a fé e a realidade de uma forma fascinante. Mas, na sua agenda, estava apenas o desejo de uma Igreja mais centrada em Jesus Cristo. E essa foi a sua revolução.

A palavra revolução contém uma tensão interessante e, por isso, é a palavra justa para falar do pontificado do Papa Francisco. Por um lado, na astronomia, refere-se ao movimento orbital dos planetas à volta de um astro, normalmente o Sol, e sugere circularidade e regresso ao ponto de partida. Por outro, no seu sentido mais comum, remete para uma mudança profunda e decisiva, como aquela que representam as revoluções históricas que conhecemos. A revolução de Francisco engloba estas duas dinâmicas: a de recentramento e a de profunda transformação.

Deus não quer que fiquemos sentados.

Para recentrar a Igreja no Evangelho — o ponto de partida —, o Papa precisou de a pôr em movimento. Convidou a um olhar diferente sobre a realidade, da qual devemos partir se a queremos transformar, nos seus célebres quatro princípios: a realidade é superior à ideia, o todo é superior à parte, a unidade prevalece sobre o conflito, o tempo é superior ao espaço. Perante o idealismo abstrato sobre a vida das pessoas e o risco de que as propostas da Igreja se tornem exercícios semânticos que não aderem à realidade, propôs o acolhimento, a escuta e o acompanhamento das histórias concretas. Ao individualismo contrapôs a riqueza do todo, uma perspetiva sem a qual não é possível o bem comum. Sem receio do conflito e convicto do valor da paz, convidou a privilegiar sempre a unidade na diversidade. E, perante o imediatismo do nosso tempo e a obsessão com a conquista de lugares e os posicionamentos, pediu que se iniciassem processos mesmo sem saber aonde conduzirão.

Para transformar profundamente uma Igreja demasiado ocupada de si, da sua estrutura, do seu poder e dos lugares que ocupa ou não ocupa na sociedade, o Papa denunciou abertamente o clericalismo e a verticalidade em excesso, relembrando os frutos do Vaticano II, nomeadamente que todos os batizados são lugar da presença e revelação de Deus e chamados a construir o seu Reino. Lançou o processo da sinodalidade, não como exercício de estilo nem como um processo meramente democrático, mas como um modo a partir do qual se ensaia uma Igreja mais desperta, ativa e colaborativa no anúncio do Evangelho. Enfrentou o pecado nas dimensões corrompidas da Igreja — dos escândalos financeiros à ferida, ainda aberta, dos abusos de poder, espirituais e sexuais… E, para recentrar a nossa ação, propôs à Igreja o discernimento como meio através do qual podemos ler e entender como fala Deus na realidade.

Num contexto existencial exigente, em que o outro é cada vez mais alguém de quem tenho medo ou por quem sinto ódio, e num contexto eclesial em que tantas vezes parece que sentámos, imobilizámos o Evangelho ao querer encaixá-lo nas nossas estruturas e dinâmicas de controlo, o Papa disse: ‘não, vamos sair!’ Deus não quer que fiquemos sentados. Nem que sentemos ou encaixemos o Evangelho. O Evangelho é verbo. Ninguém segue Jesus sem que isso lhe peça um movimento interior e exterior.

O pontificado do Papa Francisco contribuiu para uma Igreja mais centrada em Cristo Ressuscitado, e isso mexeu uma placa tectónica.

A Igreja tem de sair da sacristia e ser missionária. Perante os dramas do mundo — da guerra aos desafios económicos e ecológicos —, o Papa lembrou que somos chamados a escutar o grito da terra e dos pobres, a ir ao encontro do outro e a cuidar de tudo o que foi criado. Numa época em que a Igreja nem sempre chega às pessoas, a linguagem escrita e oral do Papa era simples e visual, aterrada na vida das pessoas. Como Jesus. A preocupação com o anúncio do Evangelho levou a que o Papa percebesse que a comunicação não pode assentar apenas na expressão da doutrina, mas, em primeiro lugar, no amor e na misericórdia de Deus, de onde tudo deriva. E isso deixa-nos o desafio de continuarmos a experimentar modos e linguagens que verdadeiramente sirvam o impulso da Boa Nova.

O pontificado do Papa Francisco contribuiu para uma Igreja mais centrada em Cristo Ressuscitado, e isso mexeu uma placa tectónica. Mas esta revolução não terminou. É a mesma de Francisco de Assis, aquele que inspirou o seu programa, quando ouviu o Senhor pedir-lhe que se pusesse a caminho e reparasse a sua Igreja em ruínas. Todos os processos iniciados pelo Papa Francisco continuam a reunir urgência e profecia. Vêm, certamente, na continuidade do que Deus vai fazendo com o seu povo e precisam de nós e das gerações futuras para criar raízes mais profundas num mundo complexo e em mudança.

Francisco foi revolucionário não pelas suas forças nem porque quis salvar a sua vida, mas sim porque se deixou conduzir pelo Espírito Santo e se entregou. O seu modo foi em caminho, a caminho, no caminho — em processo, em direção e numa pertença concreta — até aos últimos minutos da sua vida. Para lá das discussões ideológicas sobre o Papa, o mais importante é comermos o fruto deste pontificado e do que este pastor nos deixou como herança: Deus faz maravilhas na nossa vida e no mundo à nossa volta quando nos deixamos conduzir e transformar por Ele. Através de cada um de nós pode até começar revoluções!

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.