No mundo contemporâneo, o impacte económico é determinante para a maioria das decisões, tanto nas esferas políticas e sociais como nos âmbitos familiar e pessoal. O lucro, a produtividade e o retorno assumem um papel central, tantas vezes abusando do justo valor do trabalho ou até da dignidade da pessoa humana.
Na ótica cristã, os bens servem como meio para a construção do bem comum. Como lembra Bento XVI, “O lucro é útil se, como meio, for orientado para um fim que lhe indique o sentido e o modo como o produzir e utilizar. O objetivo exclusivo de lucro, quando mal produzido e sem ter como fim último o bem comum, arrisca-se a destruir riqueza e criar pobreza”[1]. O bem comum é uma necessária consequência do advento do Reino dos Céus, essa nova realidade em que as criaturas comungam da plenitude do Deus-Trindade.
Parece-nos que é precisamente neste Deus-Trindade, na Sua contemplação e na abertura ao Seu Mistério de Amor, que poderemos aprender uma nova relação com os bens: uma economia da doação.
Jean-Luc Marion, filósofo francês amplamente traduzido, tem desenvolvido o seu pensamento tendo como categoria central a doação – o mundo, o que se nos apresenta, é-nos dado[2]. A sua investigação tem-se estendido ao campo teológico, numa procura por compreender a Revelação neste quadro fenomenológico.
A relação económica de Deus com a Criação é marcada pela doação, pela iniciativa do Criador em dar-se às criaturas: o Amor é excêntrico, a sua intencionalidade é marcada pela busca de um Outro
Marion avança uma hermenêutica das relações trinitárias como dom-em-si-mesmo. Na Trindade imanente (ou Deus em si mesmo), o Pai é o “dador do dom”, o Filho é o “dom do dador”, e o Espírito “dá-se” Ele mesmo e não consiste senão em “dar-se” – é o princípio de doação. Na Trindade económica (relação de Deus com o mundo), o Espírito também é o princípio de doação: “é porque o Espírito Santo tem como próprio completar o dom do Pai e do Filho na sua plenitude, que realizando este primeiro dom, Ele manifesta não este ou aquele dom, mas a doação em si mesma”[3].
A relação económica de Deus com a Criação é marcada pela doação, pela iniciativa do Criador em dar-se às criaturas: o Amor é excêntrico, a sua intencionalidade é marcada pela busca de um Outro[4]. O acolhimento deste dom em si mesmo, não apenas de forma passiva, mas em cooperação, é a meta da vida cristã: a conformação com Cristo, que se nos dá totalmente. Chegados a este ponto, impõe-se-nos uma questão: como podemos, na vida prática, encetar este caminho de acolhimento do dom-em-si-mesmo?
Os Exercícios Espirituais (EE) podem ser encarados como uma escola de conformação com Cristo. A experiência completa dos EE é cadenciada por basicamente três tipos de graça: (1) conhecimento interno do pecado (EE 48. 55. 63. 65); (2) conhecimento interno ou íntimo do Senhor Jesus (EE 104. 139. 152. 193. 203. 221); e (3) o conhecimento interno de tanto bem recebido (EE 234). Estes pedidos traçam um itinerário de abertura progressiva, que se inicia na minha circunstância concreta, de criatura frágil e limitada, em direção a Cristo, culminando na vida no Espírito Santo.
A contemplação da vida terrena de Jesus tem à cabeça o Mistério da Encarnação (EE 101-109). Face ao drama vivido no mundo, o exercitante é confrontado com a decisão das três pessoas divinas fazerem a Redenção do género humano, pela doação do Filho (EE 102, 107-108). Aqui se inaugura um caminho de contemplação da vida de Cristo até à Ascensão. A seguir, o texto apresenta uma descontinuidade para se abrir sobre uma nova realidade: a Contemplação para alcançar amor (CAA).
A CAA é um texto breve, com cerca de 500 palavras (o equivalente a pouco mais de uma página A4). O léxico recorrente constitui uma constelação de palavras[5] que nos remete para o Cântico dos Cânticos, livro bíblico que consta de um poema que exalta o amor de Deus pelo seu povo. Toda a humanidade e cada ser humano são convidados a integrar o povo de Deus. Nesta última contemplação, Inácio faz uma proposta de oração que percorre quatro passos:
- Toma consciência agradecida dos bens da criação, dos bens da redenção, dos dons pessoais que fazem de ti uma pessoa única. Mais ainda, que o próprio Deus vai ao extremo de dar-se-te!
- Toma consciência que Deus te habita, assim como habita toda a realidade. Vive permanentemente desse encontro no mais fundo de ti mesmo. És templo!
- Deus habita e trabalha na tua vida e neste mundo, com as respetivas alegrias e sofrimentos. A presença de Deus na tua vida e no mundo é dinâmica;
- Vivendo da comunhão com Deus, colabora na transformação do mundo em Reino: sê líder ao modo de Jesus no lava-pés, sê justiça de Deus no meio do mundo; sê bondade de Deus; sê piedade e misericórdia de Deus como em Jesus.
É para nos libertar daquilo que é provisório, das formas de escravidão do mundo (explícitas ou subtis) e nos rasgar um sentido de plenitude que a Santíssima Trindade determina a redenção.
É neste ambiente que o exercitante é devolvido à sua vida quotidiana. Inácio de Loiola usa o termo “amor” com muita parcimónia. A palavra já estaria “gasta” por um uso inflacionado e, consequentemente, Inácio tende a fazer um uso reservado deste termo, considerando que constitui o fruto maduro dos EE. O acolhimento radical do Espírito rasga um novo horizonte, que permite ao exercitante voltar à vida e ao mundo repleto de Esperança. O pedido recorrente que atravessa esta oração – “Dai-me o vosso amor e graça que esta me basta” (EE 234) – traduzem a experiência pessoal de que só o Senhor te preenche. A CAA é a porta para a vida-em-Deus, procurando despertar o exercitante para a realidade do Pentecostes na sua vida concreta, que se traduz em buscar e encontrar Deus em todas as coisas do seu quotidiano.
Inácio caracteriza do seguinte modo o mundo: “uns brancos e outros negros, uns em paz e outros em guerra, uns chorando e outros rindo, uns sãos e outros enfermos, uns nascendo e outros morrendo” (EE 106). Estes cinco pares de binómios serão o que mais afeta a situação do mundo como um todo. Subjacente a estes binómios há uma dinâmica circular que aprisiona a realidade, num horizonte fechado. A situação do ser humano é variável entre a felicidade e o infortúnio, entre o triunfo e a rendição, etc. Mas, de facto, porque criados à semelhança de Deus (Gn 1, 26-27), fomos criados para muito mais. É para nos libertar daquilo que é provisório, das formas de escravidão do mundo (explícitas ou subtis) e nos rasgar um sentido de plenitude que a Santíssima Trindade determina a redenção.
A realidade de hoje não é menos desafiante que no tempo de Inácio: os descartados, os refugiados e os migrantes (como resultado das estruturas de pecado, da guerra e das alterações climáticas), os jovens sem esperança, o cuidado da casa comum, etc. Deus habita e trabalha no mundo, daí a Esperança. Neste processo o Pai é caracterizado pelo “perdão” (num contínuo dom, possibilitando o recomeço), o Filho é caracterizado pelo “sacrifício” (o dom da própria vida, num amor levado ao extremo) e o Espírito Santo, pela “comunhão” (possibilitando: uma Igreja sinodal; o diálogo ecuménico, inter-religioso e intercultural; e uma fraternidade e amizade social global)[6]. A CAA constitui um convite a viver imerso na dinâmica da Trindade, na perfeita doação, através dos quatro passos de progressiva abertura ao Espírito propostos por Inácio. Mergulhados na Vida da Trindade, que se nos dá em todas as coisas, poderemos dar corpo à ação do Espírito no mundo, em comunhão com o Pai pelo Filho no Espírito Santo, colaborando a título pessoal e como Igreja na santificação do mundo.
[1] Pope Benedict XVI, Charity in Truth, 1st ed (Ignatius Press, 2009), n.o 21.
[2] Jean-Luc Marion, Étant donné: essai d’une phénoménologie de la donation, 3. éd. corr., 1. éd. “Quadrige”, Quadrige Essais, debats (Quadrige [u.a.], 2005).
[3] Jean-Luc Marion, D’ailleurs, la révélation: contribution à une histoire critique et à un concept phénoménal de révélation (Bernard Grasset, 2020), 505–6, 518.
[4] Jean-Luc Marion, Prolégomènes à la charité, 4e éd. revue et augmentée (Bernard Grasset, 2018).
[5] Amante (2x), amado (2x), amor (4x), bens, benefícios, comunicação, comunicar, dar (10x), dons (2x), graça, receber (3x), restituir
[6] Marion, D’ailleurs, la révélation, 515–18, 527–28.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
