A concavidade do silêncio - Ponto SJ

A concavidade do silêncio

«Atelier de Quaresma – a arte da contemplação» propõe o regresso a uma sabedoria antiga, a sabedoria do silêncio. Neste quinto artigo vemos como a oração silenciosa nos conduz ao estilo de Jesus.

Depois de termos refletido sobre Jesus como homem de oração, sobre a sabedoria bimilenária dos Padres do Deserto e de termos visto como este caminho nos convida a três entregas fundamentais – a entrega do corpo, do tempo e da mente – torna-se agora importante reconhecer que a vida de oração converge para um ponto fulcral: o silêncio.

O silêncio é simultaneamente princípio e maturação da vida espiritual. Não é uma mera técnica, mas um lugar de encontro. Não é ausência: é presença discreta. Não é vazio estéril: é plenitude escondida.

O silêncio é concavidade, condição de possibilidade para o regresso a casa, que é o encontro com o Senhor.

Ao longo da vida tive a graça de encontrar pessoas iluminadas por este silêncio: homens e mulheres profundamente contemplativos, com vidas unificadas e uma oração simples, que foram aprendendo a arte de se abandonar confiadamente ao Espírito Santo.

A via da contemplação explicita o silêncio como caminho de intimidade. Mas muitos homens e mulheres percorrem esta via sem lhe darem um nome especial, pessoas que se foram descobrindo habitados pelo silêncio, chamadas ao ritmo lento do encontro no Espírito. Simplesmente seguiram uma sede que encontrou a sua água no silêncio habitado.

Uma sede difícil de definir: uma sede de mais.

Contemplar é entregar.

É o próprio Espírito quem acende em nós o desejo de deserto. É Ele quem desperta o desejo da intimidade, de uma relação simples e imediata com Deus (mesmo quando Lhe damos outros nomes). É uma sede espiritual que não discrimina: todos somos chamados a um caminho de mais, um caminho de amor: cristãos e não cristãos, crentes e não crentes. Todos habitados pela mesma sede!

É importante sublinhar, uma vez mais, que o caminho contemplativo não retira nada a outros modos de oração. Todo o cristão precisa de momentos mais reflexivos, em que confronta a sua vida com o Evangelho; momentos de ação de graças; momentos em que apresenta ao Senhor as suas preocupações e necessidades.

Tal como noutros modos de oração, a atitude contemplativa sublinha a gratuidade. Não é um meio para chegar a um estado especial de consciência, nem uma estratégia para alcançar experiências espirituais elevadas. Não é um atalho na vida de oração.

Contemplar é entregar.

É entregar a Deus o corpo que pára, o tempo que se dá, a mente que se rende.

É acolhimento. Uma passividade ativa: deixamos de conduzir para nos deixarmos conduzir.

Chegados aqui impõe-se uma pergunta decisiva: para quê contemplar? Qual é o sentido último deste silêncio fiel, desta prática discreta, pobre e escondida, desta perseverança quotidiana que parece não produzir resultados visíveis? Não seria mais importante fazer coisas?

Regressamos à mesma resposta, simples e exigente: a contemplação não é lugar de utilidade, mas de gratuidade.

Se estou com a pessoa amada apenas quando preciso ou quando me convém, então não estou a amar: estou a usar.

Vivemos numa cultura profundamente marcada pela eficiência e pelo pragmatismo. Perguntamos quase sempre: para que serve? Qual é a vantagem? Que resultados produz?

Esta lógica infiltra-se facilmente na vida espiritual. Queremos que a oração “funcione”: que nos organize interiormente, que nos traga paz, clareza ou sentimento de dever cumprido. Nada disto é mau em si mesmo. Mas quando a oração é vivida com espírito pragmático, seja por utilidade ou por mero dever, há algo essencial que se perde: a relação com Deus, que é Amor, fica subtilmente instrumentalizada.

Um exemplo pode ajudar: quando estamos com alguém que amamos, um amigo, um familiar, o marido ou a mulher, um filho ou uma filha, não estamos com essa pessoa simplesmente porque nos faz bem. Estamos porque amamos. Claro que nos faz bem. É bom que faça bem! Mas se olho para o amor apenas do ponto de vista da utilidade, se me faz ou não bem, deixa de ser amor.

Se estou com a pessoa amada apenas quando preciso ou quando me convém, então não estou a amar: estou a usar.

O mesmo acontece com Deus.

A contemplação é, antes de tudo, presença gratuita: estar com Deus porque Ele é o Senhor da minha vida. Sem agenda. Sem objetivos. Sem exigir resultados a apresentar.

Claro que a gratuidade perfeita é um ideal que, pelo menos deste lado da vida, nunca atingiremos plenamente. Mas podemos procurar a contemplação com esse desejo: contemplar como quem se oferece, e não como quem exige; como quem se reconhece amado, e não como quem paga um tributo.

É por ser um ato de amor que o silêncio contemplativo é exigente.

Exige vulnerabilidade.

O silêncio não é apenas ausência de ruído exterior. É purificação progressiva do ego, desapego do impulso constante de ocupar o centro.

No silêncio caem as máscaras e as defesas. Não temos ideias com que ocupar a mente e as distrações parecem indomináveis. Sentar-se em silêncio é expor-se ao que habita o coração. Podem surgir inquietações, cansaços, dúvidas e certezas cristalizadas, desejos confusos e feridas antigas, mas também alegria, serenidade e paz.

Nada disto se controla. E isso pode assustar.

Muitas vezes preferimos o ruído, a música, a atividade ou mesmo a oração vocal ou mental, porque nos protegem deste confronto. São mais previsíveis. Mais controláveis.

Os Padres do Deserto sabiam isto muito bem. Por isso colocavam o silêncio no centro da vida espiritual.

Abba Arsénio, como vimos, resumia todo o caminho numa expressão simples e radical:

“Foge, cala, pacifica.”

O silêncio não é apenas ausência de ruído exterior. É purificação progressiva do ego, desapego do impulso constante de ocupar o centro.

O silêncio é concavidade que permite o ser.

Não é vazio estéril, mas espaço aberto. É a concavidade interior que, quando deixamos de nos e defender e afirmar continuamente, de preencher tudo com palavras, ideias ou explicações, tem espaço para ser descoberta. Discreta e serenamente. Concavidade de ser.

Fazer silêncio deixar que se escave dentro de si um lugar onde Deus pode habitar. Diminuir para que Ele possa ser. Desocupar, desentulhar o centro de si para acolher o Outro.

Esta concavidade não se fabrica; consente-se.

Não se conquista; acolhe-se.

Nasce da fidelidade humilde à cela, da repetição do gesto, da aceitação de não controlar o processo.

O silêncio não muda diretamente o mundo. Mas muda o coração daquele que persevera. E um coração transformado transforma o mundo à sua volta.

Uma das grandes tentações neste caminho é a da perfeição formal: querer rezar bem, fazer silêncio “como deve ser”, avaliar constantemente se a oração correu bem ou mal. Esta obsessão seca a alma.

Deus não coleciona desempenhos espirituais; acolhe corações humildes.

Na espiritualidade inaciana a avaliação da oração tem o seu lugar, mas não se trata de medir sucesso ou fracasso imediato. Trata-se antes de tomar contacto com os movimentos interiores: as atrações e repulsas do coração, os desejos que surgem, as resistências que se revelam.

A tradição contemplativa fala de frutos, certo, mas sempre com grande sobriedade. Não promete experiências extraordinárias nem estados espirituais elevados. Fala de coisas pequenas e reais: um pouco mais de liberdade interior, um coração menos reativo, uma atenção mais amorosa ao outro.

O silêncio não muda diretamente o mundo. Mas muda o coração daquele que persevera. E um coração transformado transforma o mundo à sua volta.

Neste processo, o silêncio tem também uma dimensão terapêutica, certo. Age como um mergulho que traz à superfície o que precisa de ser curado: feridas antigas, memórias esquecidas, emoções não integradas.

Ao contrário das palavras, que analisam, dividem, colocam em categorias e fragmentam, o silêncio unifica. Permite que a inteligência desça da mera razão ao coração, integrando pensamento, afetos e corpo numa perceção mais integral da realidade.

A contemplação pede a coragem de aceitar não saber e consentir que Deus seja maior do que as nossas ideias e imagens.

Recordo Gregório de Nissa, que na Vida de Moisés, como já vimos, descreve este amadurecimento espiritual com a imagem luminosa da entrada na “nuvem do não saber” (expressão de um autor medieval). Moisés precisou de não ver para poder ver realmente.

Aqui o pensamento já não domina, já não define, já não controla.

Deus deixa de ser objeto de compreensão, ou mesmo apenas de adoração, para se tornar Presença na qual nos movemos, existimos e somos. Fonte de onde brota toda a nossa vida. Caminho de regresso a casa.

A contemplação pede esta coragem: aceitar não saber e consentir que Deus seja maior do que as nossas ideias e imagens.

Mestre Eckhart exprimiu-o de forma radical ao dizer que é preciso “morrer a Deus para ir a Deus”: morrer às imagens para encontrar o Deus vivo, sempre outro, sempre para lá das nossas ideias.

A tradição hesicasta fala de “ver com o coração”. Não se trata simplesmente de dar atenção às emoções ou à imaginação, nem de uma visão mais ou menos piedosa do mundo, mas de uma perceção unificada, onde a razão desce ao centro do ser.

O coração torna-se então lugar sagrado e espelho: lugar da Presença e superfície onde a luz de Deus se reflete em cada um de nós.

Quem aprende a ver assim reconhece a presença divina na realidade concreta; nas pessoas, na criação e, paradoxalmente, na própria fragilidade.

É deste silêncio que nasce o louvor. Um louvor que não é apenas uma oração ocasional, mas um modo de existir.

É dizer: Tu és.

Tu és Deus.

Tu és a Fonte.

Tu és o Amado.

E, nesse dizer, escutar por dentro: “e tu és meu.”

O louvor liberta-nos da autorreferencialidade, cura a tristeza fechada e devolve-nos à gratidão primordial.

Tudo é dom. Tudo é bom.

Pela meditação cristã, pelo silêncio orante e habitado, o Espírito conduz-nos a adquirir o estilo de Jesus. A sermos cristoformes: a aprender o seu modo de olhar, de escutar, de parar, de agir e de se entregar.

Conduz-nos a redescobrir o nosso rosto original, tal como o Pai nos vê.

É regressar a casa no silêncio habitado por Aquele que nunca nos abandona.

É ser restituído a si mesmo.

Por isso o caminho termina onde começou: na cela.

“Vai, senta-te na tua cela e a tua cela te ensinará tudo.”

A cela que pode ser um quarto silencioso, mas também o trabalho, a família, a doença, o conflito ou o tempo de espera.

Onde estamos verdadeiramente, aí somos chamados a permanecer.

E o conselho final, dos antigos Padres do deserto, continua atual:

Foge do ruído.

Cala o supérfluo.

Pacifica o coração.

 

Caminha mais devagar.

Faz silêncio.

Abre no coração a concavidade do amor onde Deus pode habitar.

Na verdade, Deus já está lá. Só te falta abrandar para O reconheceres.

 

Nada do que escrevi ao longo destes cinco artigos pretende ser original. Tudo o que ofereci nesta primeira abordagem à pequena via do silêncio recebi de outros. Nada é meu: tudo pode ser encontrado na tradição da Igreja: nos Padres e Madres da Igreja e também em autores contemporâneos como Franz Jalics, Javier Melloni, Pablo d’Ors, John Main ou Laurence Freeman.

Escrevo simplesmente a partir da minha experiência, sem pretensão de originalidade.

Paz!

 

Leia os outros artigos deste Atelier de Quaresma:

O sabor de Deus – Ponto SJ

Jesus, o Contemplador – Ponto SJ

Os Padres do Deserto: a ‘cela’ como escola interior – Ponto SJ

As três entregas: corpo, tempo e mente – Ponto SJ

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

 

 

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.