Há uma pequena história atribuída a Esopo que nunca deixa de me atrair e inquietar. Um astrónomo caminhava de noite de olhos postos nas estrelas. Conhecia o nome das constelações, distinguia os planetas das estrelas fixas, media as distâncias do céu. Tão absorto estava naquela contemplação que não viu o poço aberto diante dos seus pés. Caiu. Uma velha ouviu-lhe os gritos e respondeu-lhe com uma frase memorável: “Queres conhecer o céu e nem sequer vês o que tens diante dos pés”. A moral não consiste em desprezar as estrelas. Consiste em recordar que até aquilo que é verdadeiro pode tornar-se falso quando perde a ordem das prioridades.
As grandes fábulas vivem precisamente desta capacidade de nos mostrar que o problema raramente está nas coisas; está na importância que lhes atribuímos. Também em O Principezinho acontece algo semelhante. O geógrafo conhece todos os mapas mas nunca saiu do gabinete. O homem de negócios passa a vida a contar estrelas como quem faz contabilidade do universo. O acendedor de lampiões continua fiel a uma regra que já perdeu completamente o seu sentido. Nenhum deles faz propriamente algo mau. Todos, porém, deixaram de distinguir o essencial do acessório.
Talvez toda a cultura funcione assim. Cada comunidade cria evidências. Aprende a considerar certas preocupações como naturalmente importantes e outras como obviamente secundárias. O problema começa quando deixamos de perceber que essas evidências são inerentemente culturais e, por isso, necessitadas de exame. Pela absolutização, deixamos de examinar as nossas evidências à luz da vida vivida e cingimo-nos a examinar a realidade à luz das nossas evidências. Este fenómeno não pertence apenas à política nem à sociologia. É uma permanente tentação espiritual do ser humano.
Pela absolutização, deixamos de examinar as nossas evidências à luz da vida vivida e cingimo-nos a examinar a realidade à luz das nossas evidências. É uma permanente tentação espiritual do ser humano.
Os pequenos sistemas de evidências
Nos últimos dias voltou a ser notícia a situação da Fraternidade São Pio X. Independentemente dos juízos concretos sobre este caso, que exigem prudência e conhecimento, impressiona verificar como os próprios estatutos da Fraternidade definem o seu objetivo como “o sacerdócio e tudo o que lhe diz respeito, e nada mais do que o que o concerne”, expressão do seu fundador que sintetiza uma visão em que a restauração da liturgia tradicional constitui a essência do modo de ser Igreja. O cuidado do sacerdócio e daquilo que lhe diz respeito opõe-se àquilo que a Profissão de Fé, recentemente publicada pela Fraternidade, rejeita sob o título de “personalismo moderno” (Cf. POCF, nº 106). Isto é, a ideia de que a Igreja tem por missão “salvaguardar a dignidade da pessoa humana e estabelecer uma fraternidade universal sobre o fundamento dessa dignidade comum”. Esta intuição é classificada como “naturalista” e destituída de perspetiva sobrenatural. Desta feita, questões como a pobreza, a fome, as migrações ou a destruição da criação surgem como matérias “temporais”, externas à missão propriamente eclesial.
Do mesmo modo, mas em sentido inverso, impressiona notar como o Caminho Sinodal alemão foi criticado, por quatro bispos alemães em declaração conjunta, como tendo substituído o discernimento espiritual por aquilo que esses bispos descreveram como um processo parlamentar de pura obtenção de maiorias, incompatível “com a constituição sacramental da Igreja”. Um processo no qual a tradição foi tratada não como uma fonte que nos interpela, mas como um conjunto de ferramentas retóricas ao serviço de agendas previamente estabelecidas.
Não é minha intenção julgar aqui estas posturas. Escrevo-o apenas porque descubro em mim exatamente o mesmo mecanismo. Atrevo-me a dizer que a maioria das pessoas faz isto mesmo. Progressistas e conservadores, generalistas ou especialistas, clero e leigos… cada um de nós constrói um pequeno sistema de evidências que, se não devidamente examinado, acaba por se tornar bitola para ler o Evangelho em vez de se deixar ler por ele.
O camelo e o mosquito
“Pagais o dízimo da hortelã, da arruda e do cominho, mas desprezais o que há de mais importante da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade”. (Mt 23, 23) É precisamente aqui que Jesus introduz uma revolução. A sua crítica aos fariseus nunca consiste em dizer que o dízimo é mau. Pelo contrário, o problema aparece no final da frase: “…mas desprezais o que há de mais importante…”.
Logo de seguida Jesus diz, com uma das imagens mais humorísticas de todo o Evangelho, que há pessoas capazes de filtrar cuidadosamente um mosquito enquanto engolem um camelo. “Guias cegos! Coais um mosquito e engolis um camelo”. (Mt 23, 24) A imagem faz sorrir precisamente porque é absurda. Mas é também profundamente inquietante. Como é possível alguém preocupar-se tanto com um mosquito e não reparar no camelo? A resposta talvez seja simples: quando uma determinada lógica se instala durante muito tempo numa comunidade, deixa de parecer estranha. Torna-se evidente. O mosquito passa a ocupar todo o horizonte, tal como para o neurótico a nódoa se torna maior do que a camisola. É por isso que o cristianismo não nos pede apenas que mudemos de comportamento moral. Pede-nos algo muito mais radical: converter as nossas evidências, chegando a adquirir a mente e os sentimentos de Cristo (Cf. 1 Cor 2, 16; Fil 2, 5). Aprender a ver como importante aquilo que o Coração de Cristo considera importante.
É por isso que o cristianismo não nos pede apenas que mudemos de comportamento moral. Pede-nos algo muito mais radical: converter as nossas evidências, chegando a adquirir a mente e os sentimentos de Cristo.
Porque, no fundo, é esse Coração que constitui a verdadeira norma da vida cristã. Não um sistema de ideias. Não uma sensibilidade política. Não uma nostalgia histórica. Não uma reação cultural. Mas os sentimentos de Cristo. É por isso que o Papa Francisco insistia tantas vezes, e com ele o Papa Leão XIV, na espiritualidade do Coração de Jesus. Não se trata de uma devoção entre outras. Trata-se de aprender progressivamente a amar aquilo que Ele ama, a sofrer com aquilo que Ele sofre, a alegrar-nos com aquilo que O alegra. Só esse coração restitui a ordem das prioridades.
A diferença entre criticar e cultivar inteligência crítica
Talvez devêssemos então colocar-nos uma pergunta ainda mais incómoda. Não terá o espírito crítico do Iluminismo penetrado tão profundamente a cultura ocidental que todas as frentes, tanto os vanguardistas como os arautos da tradição que afirmam combater a Revolução Francesa, continuam, paradoxalmente, a respirar o seu mesmo clima de hipercriticismo? O louvor da inteligência crítica pode ser um pretexto para o criticismo compulsivo. Criticamos a cultura. Criticamos a Igreja. Criticamos algum Papa. Criticamos algum Concílio. Criticamos a secularização. Criticamos os políticos enquanto estes se criticam. Criticamos o passado. Criticamos o presente. Criticamos o produto de luxo e o ‘low cost’. Criticamos, enfim, a crítica. Não haveríamos também de aprender a criticar a compulsividade da crítica? Serão equivalentes a inteligência crítica e o ato de criticar?
Pensemos num crítico musical capaz de identificar cada nota imperfeita numa sinfonia, mas que nunca se deixou atravessar pela emoção de um allegro ou pelo silêncio de um andante. Ele sabe mais do que nós sobre a música. Mas pode ser que compreenda menos. Não é que o ouvido esteja errado mas viciado no âmbito de si. A inteligência crítica não equivale, portanto, ao saber detetar erros mas à capacidade de discernir o que é real, verdadeiro e vivo; incluindo os erros, mas sem se reduzir a eles. Criticar é uma operação do intelecto dirigida ao específico, cultivar inteligência crítica é um gesto de cuidado pelo todo.
Num tempo marcado pela pressa constante em julgar e catalogar tudo o que nos rodeia, a inteligência corre o risco de perder elasticidade, deixar de se exercitar na capacidade de contemplar, obliterando o espanto que nos permitiria receber os rostos e os encontros como um dom possível. Por oposição, a Eucaristia ensina-nos essa outra postura diante da criação e da história. Antes de ser crítica, é ação de graças. Antes de denunciar, recebe. Antes de corrigir, reconhece. Se a Eucaristia nos educa para receber toda a história das mãos de Deus e restituí-la doxologicamente e com alegria, essa mesma atitude altera profundamente a nossa forma de encarar as aparentes derrotas da fé no tempo.
A conversão começa precisamente aí: quando deixamos de pedir ao Evangelho que confirme as nossas prioridades e começamos, finalmente, a permitir que seja ele a reorganizar o nosso coração.
Talvez também a secularização, com todas as suas ambiguidades, possa ser lida nesta chave. Não apenas como derrota da Igreja, que deveria então lutar, com renda e sem rendição, contra a secularização; ou assemelhar-se a uma ONG como quem faz teatro para alcançar a aprovação dos outros. Não será a secularização também uma humilhação através da qual Deus continua a purificar o seu povo das tentações de poder, de autorreferencialidade e de prepotência que marcaram tantos momentos da nossa história?
Os profetas ensinaram Israel a olhar assim para o exílio na Babilónia. O que parecia apenas castigo revelou-se também um caminho de purificação e de reencontro com Deus. Será demasiado ousado perguntar, como António Rosmini, se certas chagas da Igreja contemporânea não poderão, um dia, ser compreendidas da mesma forma? Talvez a questão decisiva não seja saber quem tem razão nas grandes polémicas do nosso tempo. Talvez a questão seja outra. Que evidências precisam ainda de ser examinadas em mim? Porque a conversão começa precisamente aí: quando deixamos de pedir ao Evangelho que confirme as nossas prioridades e começamos, finalmente, a permitir que seja ele a reorganizar o nosso coração.
Uma prática possível, para quem quiser levar o texto além da leitura: esta noite, antes de fechar o dia, um momento de silêncio. Nesse momento, colocar uma única questão: O que é que tratei hoje como evidente, sem o examinar? Não é preciso responder. É preciso apenas escutar. Por aí se começa.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
