A arte de ser enganado - Ponto SJ

A arte de ser enganado

Por que é que alguns católicos encontram nos novos populismos de direita uma “defesa da sua fé”? E porque é que isso é errado? (Ou, pior, perigoso.)

No nosso último artigo, fomos levados a avaliar o nosso modo de responder ao ritmo apressado que o mundo nos impõe e convidados a escolher Cristo, a sua paz e constância, como centro integrador das nossas vidas, para não nos perdemos na intensidade.

Tal atitude pressupõe atenção ao mundo interior e a escolha de atitudes integradoras da personalidade e da sociedade. Tomando consciência disto, é-nos impossível deixar passar o crescimento de abordagens políticas contrárias a tais atitudes, que têm impregnado a vida política, nacional e internacional. Desde o mundialmente conhecido Donald Trump, até ao mais “caseiro” Partido Chega. O discurso de ambos parece-nos corresponder àquilo que o Papa Francisco aponta na sua encíclica Fratelli Tutti (FT): “uma troca febril de opiniões”, “monólogos que avançam em paralelo, talvez impondo-se à atenção dos outros pelo seu tom alto e agressivo”, que “não empenham a ninguém, ao ponto de os seus conteúdos aparecerem oportunistas e contraditórios” (FT 200).

Preocupa-nos sobretudo o facto destas abordagem atraírem alguns católicos que parecem encontrar nela algo que faz jus à sua fé. Parecendo-nos tal abordagem política incompatível com a nossa fé, decidimos olhar com atenção para a doutrina católica, no que toca a temas chave para esta questão.

A Doutrina Social da Igreja (DSI), que não podemos aqui explorar exaustivamente, quer “propor a todos os homens um humanismo à altura do desígnio de amor de Deus sobre a história, integral e solidário, capaz de animar uma nova ordem social, económica e política, fundada na dignidade e na liberdade de toda a pessoa humana, a realizar-se na paz, na justiça e na solidariedade” (DSI 19). Aponta para o bem comum, para o qual todos devem contribuir sem olhar a vantagens próprias, mas criando condições de vida que “todos têm o direito de fruir” (DSI 167). Para tal, “deve procurar-se que a repartição dos bens criados, a qual não há quem não reconheça ser hoje causa de gravíssimos inconvenientes pelo contraste estridente que há entre os poucos ultra-ricos e a multidão inumerável dos indigentes, seja reconduzida à conformidade com as normas do bem comum e da justiça social” (Papa Pio XI, Quadragesimo anno: AAS 23 (1931) 197).

É por causa do “desequilíbrio entre países ricos e países pobres”, causado também por guerras e desastres climáticos, que “crescem as migrações das pessoas em busca de melhores condições de vida, provenientes das zonas menos favorecidas da terra”.

É por causa do “desequilíbrio entre países ricos e países pobres”, causado também por guerras e desastres climáticos, que “crescem as migrações das pessoas em busca de melhores condições de vida, provenientes das zonas menos favorecidas da terra”. Contudo, “a sua chegada aos países desenvolvidos é não raro percebido como uma ameaça para os elevados níveis de bem-estar alcançados”, ainda que corresponda, muitas vezes, a uma demanda de trabalho para o qual a mão-de-obra local é insuficiente (DSI 297). A Igreja crê que “as instituições dos países anfitriões devem vigiar cuidadosamente para que não se difunda a tentação de explorar a mão-de-obra estrangeira, privando-a dos direitos garantidos aos trabalhadores nacionais”, e convida a escolher “critérios e equidade e equilíbrio” na regulamentação dos fluxos migratórios, para garantir o respeito pela “dignidade da pessoa humana”. Por isso, “os imigrantes devem ser acolhidos enquanto pessoas e ajudados, junto com as suas famílias, a integrar-se na vida social. Em tal perspectiva, deve ser respeitado e promovido o direito a ver reunida a família” (DSI 298)

Acreditando nós que a DSI está profundamente enraizada na fé que professamos, resta-nos procurar o porquê de haver grupos católicos (bastante “doutrinários” noutras questões) que, ignorando estes princípios, tomam partido pelas abordagens políticas acima mencionadas. Santo Inácio, na perspicácia que lhe conhecemos nos Exercícios Espirituais (EE), dá-nos uma ajuda significativa nesta análise. Segundo ele, somos movidos por “dois espíritos”: um bom, que nos aproxima dos critérios de Deus; e um mau que, apresentando outros critérios, por vezes mascarados, nos afasta de Deus. É sobre este segundo espírito que nos detemos.

Por isso, “os imigrantes devem ser acolhidos enquanto pessoas e ajudados, junto com as suas famílias, a integrar-se na vida social. Em tal perspectiva, deve ser respeitado e promovido o direito a ver reunida a família” (DSI 298).

Segundo S. Inácio, o mau espírito tenta-nos “sob aparência de bem” (EE 10), com “razões aparentes, subtilezas e assíduas falácias” (EE 329) e, sendo astuto, porque qualquer pessoa gosta de ser enganada sem prejuízo para a sua inteligência, introduz-se “sob a forma de anjo de luz (…), trazendo a alma aos seus enganos cobertos e perversas intenções” (EE 332). Por outras palavras, o mau espírito apresenta boas razões, promete dar aquilo de que é incapaz e ilude quem o segue. Não passa de uma falsa promessa disfarçada de grande esperança. Atrai, mas não conduz ao fim que realmente desejamos. E assim, quando seguimos os seus avanços, mesmo procurando o bem, queremos que Deus venha direito às nossas afeições desordenadas (EE 169), em vez de ordenarmos as nossas afeições segundo os critérios de Deus. (Este mau espírito é o mesmo que Sophia de Mello Breyner retrata na personagem do “Homem Importantíssimo”, no seu conto Jantar do Bispo. Recomendamos a leitura, para quem o quiser conhecer melhor a partir de um prisma mais literário).

Numa outra meditação, S. Inácio convida a imaginar estas duas opções: de um lado, aquele que promete “riquezas”, “honra do mundo”, “soberba” (EE 142) e, do outro, o próprio Cristo, que levanta a bandeira da “pobreza espiritual” e da “pobreza atual”, “opróbrios e menosprezos” e “humildade”, dizendo que “destes três escalões induzam todas as outras virtudes” (EE 146).

Os critérios estão lançados: primeiro, reconhecer quais são os critérios de Cristo, a saber, a sua pobreza, humilhação e humildade, das quais todas as outras virtudes se podem retirar; segundo, identificar o “mau espírito” que age contra estes critérios, apresentando-se sob aparência de bem, utilizando a nossa necessidade de segurança para nos conquistar.

Um discurso agressivo, marcado pela raiva e arrogância, que não olha o outro como um próximo e recusa a verdadeira fraternidade, é marcado pelo desprezo e não pelo Evangelho. É uma postura que humilha e menospreza, e não uma voz corajosa que toma o partido dos humilhados e menosprezados. A virtude da fortaleza é muito diferente da força bruta: é dom do Espírito Santo que “vem em auxílio da nossa fraqueza” (Rom 8, 26).

A recusa da solidariedade, com opções políticas que lesam os direitos a cuidados de saúde e que não veem como um dever moral a ajuda aos mais necessitados, é uma escolha pela riqueza autossuficiente, contra os critérios de Cristo que, “sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza” (2 Cor 8,9) e, consequentemente, contra a persecução do bem comum (porque não há maior Bem comum que Ele), que quer o progresso de todos os Homens. É um isolamento autorreferencial num “individualismo consumista”, onde “os outros tornam-se meros obstáculos para a agradável tranquilidade própria e, assim, acaba-se por tratá-los como incómodos” (FT 222). Este individualismo choca com a compreensão de que toda a propriedade deve ser subordinada ao bem comum, pelo que a posse de bens não é um direito absoluto, mas um direito a ser exercido tendo em conta as necessidades de toda a humanidade, de acordo com o princípio do destino universal dos bens.

Recordemos, por exemplo, o facto de Donald Trump ter escolhido cortar “quase oito mil milhões de dólares aos programas de ajuda externa”, sob o pretexto de “muscular” o umbigo da economia americana: uma vez mais encontramos a soberba autorreferencial, em vez da caridade humilde do Evangelho. E, assim, “argumenta-se que convém limitar a ajuda aos países pobres, para que toquem o fundo e decidam adotar medidas de austeridade. Não se dão conta que, atrás destas afirmações abstratas difíceis de sustentar, há muitas vidas dilaceradas” (FT 37).

Tal como o mau espírito, estes discursos políticos dos quais Trump e Chega são exemplos paradigmáticos, oferecem uma ilusão de segurança e firmeza. É natural, num mundo volátil, que a perceção de segurança atraia: algo seguro que dá uma identidade definida e nos protege de agressores externos; que nos protege de tudo aquilo que nos possa pôr em confronto com nós próprios, as nossas opções e os nossos próprios critérios. O mau espírito gosta de passar despercebido e não ser incomodado.

Contudo, a caridade que Cristo propõe exige uma abertura corajosa e um pôr-se em causa constante. É necessário examinar o coração e perguntar “que espírito me move? O de Deus, ou o do mundo?”.

Contudo, a caridade que Cristo propõe exige uma abertura corajosa e um pôr-se em causa constante. É necessário examinar o coração e perguntar “que espírito me move? O de Deus, ou o do mundo?”. Apenas uma aposta pela humildade, pela caridade como virtude primeira e pela humanidade como critério para olhar o outro podem dar uma resposta coerente com Jesus Cristo e o seu Evangelho. Contra a falsa potência dos poderosos, é neste extroverter-se (virar-se para fora) que está o verdadeiro poder. Já o Papa Leão XIV apontava numa homilia: “a autorreferencialidade extingue o fogo do espírito missionário. A Igreja é constitutivamente extrovertida, como extrovertidas são a vida, a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus. (…) Ele veio ao nosso encontro, saiu de si mesmo. Não procureis, não procuremos outro poder!”

A “solução” é esse outro poder: o da humildade que abate o individualismo e a autorreferencialidade, expande o coração, impede o egoísmo e aceita procurar soluções humanas que gerem um mundo justo, “à altura do desígnio de amor de Deus”.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.