A centralidade do coração
O primeiro ano de um pontificado não se mede apenas pelas decisões tomadas ou pelos documentos publicados, mas pela orientação de fundo que começa a tornar-se visível. No caso de Leão XIV, essa orientação pode ser expressa com uma simplicidade desarmante: a paz como dom que nasce no coração, se torna comunhão e se traduz em transformação do mundo.
Desde o primeiro momento, essa intuição foi clara. No balcão vaticano, Leão XIV inaugurou o seu pontificado com palavras simples: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19). Não ofereceu um programa político para a Igreja nem uma admonição ao mundo, mas uma chave evangélica para abrir os tempos a uma outra possibilidade. A paz, na sua perspetiva, não é o resultado de equilíbrios externos nem se reduz a um produto de negociações eficazes. É algo que brota do coração transformado pelo encontro.
Recordemos as suas palavras no Jubileu das Igrejas Orientais:
“Farei todos os esforços para que esta paz se propague. A Santa Sé está disponível para que os inimigos se encontrem e se olhem nos olhos, para que aos povos se devolvam a esperança e a dignidade que merecem, a dignidade da paz. Os povos querem a paz e eu, com o coração nas mãos, digo aos responsáveis dos povos: encontremo-nos, dialoguemos, negociemos!”
Esta deslocação, para a primazia do coração e do encontro, é decisiva. Num tempo que tende a procurar soluções apenas ao nível das estruturas, Leão XIV recoloca o centro no coração humano. Não por ingenuidade espiritual ou obsessão de clérigo, mas por fidelidade ao realismo que brota do Evangelho. Como recorda o Concílio Vaticano II, as desordens do mundo estão ligadas à desordem do coração humano. (Cf. Gaudium et Spes, 10) Onde o coração está dividido, a sociedade fragmenta-se; onde o coração está reconciliado, abrem-se caminhos de unidade.
Cristo como centro da Igreja
(Evangelização, Sinodalidade e os Pobres)
Um coração tocado pelo Evangelho torna-se, portanto, capaz de uma nova forma de relação: com Deus, com os outros e consigo mesmo. Neste sentido, o anúncio do Evangelho e a promoção social da paz não são aspetos separados, um no âmbito da evangelização e outro no da doutrina social da Igreja. Ambos são irradiação de uma mesma luz sobre o acontecimento pessoal, social e político. É dessa transformação, discreta mas real, que nasce uma paz que não se impõe, mas se irradia.
Por isso, Leão XIV insiste numa Igreja que não se coloca no centro, mas que se deixa constantemente recentrar em Cristo. Como recorda, retomando os seus predecessores Bento XVI e Francisco: “A Igreja não faz proselitismo. Cresce muito mais por atração”. E precisa: não é a Igreja que atrai, mas Cristo. Quando uma comunidade atrai, é porque por ela passa “a seiva vital da caridade que brota do Coração do Salvador”. Esta consciência liberta a missão da ansiedade de eficácia e devolve-lhe a sua fonte: a experiência de ser alcançado por um Amor que a precede, transforma e supera.
Daqui nasce também uma compreensão renovada da Igreja. “A Igreja — recorda — não é uma simples instituição religiosa nem se identifica com as suas estruturas”, mas “o sinal visível da união entre Deus e os homens”, chamada a tornar-se “uma única família de irmãos e irmãs”. Esta visão ganha corpo numa Igreja que vive da comunhão e se torna, por isso mesmo, sinal de unidade num mundo polarizado. “A unidade atrai, a divisão dispersa”: não apenas como princípio teológico, mas como evidência existencial.
Neste horizonte, a sinodalidade não é, para o Papa Leão, apenas um método mas uma forma de vida: caminhar juntos porque se escutou verdadeiramente os outros e porque, em conjunto, experimentamos que há um sentido que nos atrai. Porém, não se trata apenas de uma escuta ad intra, dos da Igreja, dos nossos. Trata-se de uma escuta que inclui a todos sem se deixar prender por conveniências mas alinhando-nos pelo coração de Deus. Para que esta pureza de intenção esteja presente no modo de viver a sinodalidade, o Pontífice destaca o papel dos mais pobres. Na verdade, “a Igreja, enquanto Corpo de Cristo, sente como sua própria “carne” a vida dos pobres, que são parte privilegiada do povo que vai em caminho [em syn-odos]. Por esta razão, o amor aos que são pobres — seja qual for o modo em que se manifeste essa pobreza — é a garantia evangélica de uma Igreja fiel ao coração de Deus”.
Cidade de Deus e Cidade dos homens
A paz que nasce no coração e se torna comunhão não pode permanecer encerrada no espaço eclesial. Tem uma força própria de expansão à qual a Igreja deve ser fiel, para lá de todas as veleidades e calma dos mares dantes navegados. O Evangelho, quando verdadeiramente acolhido, gera história. A tradição cristã exprimiu isto com profundidade através da imagem agostiniana das duas cidades. Não são dois espaços separados, mas duas formas de amar que atravessam a mesma história. “De dois amores nasceram duas cidades” (Cidade de Deus XIV, 28). As estruturas injustas nascem de amores desordenados; as estruturas justas exigem corações convertidos.
A Cidade de Deus não é uma utopia paralela, mas uma dinâmica espiritual que atravessa a cidade dos homens e a orienta a partir de dentro. Como expressou o Papa no seu discurso aos membros do corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé, a 9 de janeiro de 2026, estas cidades têm uma dimensão externa e interna: são também “as atitudes internas de cada ser humano”. Por isso, “cada um de nós é protagonista e responsável pela história”.
Para lá da responsabilidade quotidiana de cada pessoa na construção da paz, a transformação do mundo não dispensa mediações políticas, económicas e sociais. Mas mesmo essa apenas se decide na profundidade do coração que escolhe o diálogo em vez da prepotência inaceitável. Exemplo desse lugar decisivo do coração, mesmo nos mais altos níveis de governo, encontra-se no seu discurso ao príncipe do Mónaco, onde apela a uma consciência mais profunda da responsabilidade associada aos privilégios: “Para alguns, morar aqui representa um privilégio e, para todos, um apelo específico a perguntar-se sobre o seu lugar no mundo. Aos olhos de Deus, nada se recebe em vão. […] O que nos foi confiado não deve ser enterrado, mas colocado em circulação […] no horizonte do Reino de Deus […], que abala as configurações injustas do poder […] que criam abismos entre ricos e pobres […]. Cada talento […] tem um destino universal […] de não ser retido, mas redistribuído”.
Leão XIV não propõe um programa político, mas recusa igualmente uma espiritualidade desencarnada. Por isso, afirmou que “todos os membros da sociedade, através de organizações não governamentais e grupos de incidência, devem exercer pressão sobre os governos para que elaborem e apliquem normas, procedimentos e mecanismos de controlo mais rigorosos. Os cidadãos precisam de assumir um papel ativo na tomada de decisões políticas a nível nacional, regional e local”.
O crescendo da voz de Leão, evangelizando pelo apelo à paz
Vejamos agora alguns exemplos nas poucas mas significativas visitas internacionais e outros discursos à comunidade internacional do Papa Leão XIV. Na sua viagem à Turquia e ao Líbano, o Papa deu corpo à sua visão. Na Turquia, sublinhou que “uma sociedade está viva se for plural: são as pontes entre as suas diferentes almas que a tornam uma sociedade civil”. Num contexto marcado por tensões religiosas e culturais, afirmou com clareza: “todos somos filhos de Deus e isto tem consequências pessoais, sociais e políticas”. E lançou um critério exigente: “A justiça e a misericórdia desafiam a lei do mais forte e ousam advogar que a compaixão e a solidariedade sejam consideradas critérios de desenvolvimento”.
No Líbano, o tom tornou-se ainda mais existencial. A paz, disse num tom poético, “é um desejo e uma vocação, é um dom e um canteiro sempre aberto”. Não é uma ideia abstrata, mas um trabalho quotidiano, marcado pela perseverança: “é preciso tenacidade para construir a paz”. Num país ferido por crises sucessivas [e hoje novamente assolado pela guerra], o Papa propôs uma linguagem cordial como modo de integrar tamanha diversidade: “falar uma só língua, a língua da esperança”.
Mais ainda: num mundo onde a religião é tantas vezes instrumentalizada para justificar conflitos, Leão XIV tem vindo a ser progressivamente inequívoco. “O uso da religião para justificar a guerra deve ser rejeitado com firmeza.” Este apelo atravessa, em crescendo, o seu primeiro ano de pontificado e ganha uma densidade particular no contexto atual, marcado por múltiplos conflitos armados.
Nas suas palavras na liturgia de Domingo de Ramos, afirmou com força: “Irmãos, irmãs, este é o nosso Deus: Jesus, Rei da paz. Um Deus que rejeita a guerra; que ninguém pode usar para justificar a guerra; que não escuta mas rejeita a oração de quem faz a guerra, dizendo: «Podeis multiplicar as vossas preces, que Eu não as atendo. É que as vossas mãos estão cheias de sangue» (Is 1, 15)”.
“Os tempos somos nós”
Concluindo, parece-me que a insistência do Papa Leão XIV na palavra “paz” não é apenas um apelo moral dirigido aos contextos de conflito, mas um convite a uma conversão mais ampla e, ao mesmo tempo, mais próxima do que imaginamos: regressar ao coração como condição para a paz. Talvez resida aqui a contribuição mais silenciosa e mais exigente do seu primeiro ano de pontificado: recordar que a unidade não se constrói apenas a partir de fora, nem a paz se garante por decreto. Ambas nascem de uma transformação que começa no coração, se reconhece na comunhão e se verifica na história.
É neste ponto que se compreende melhor a originalidade da sua proposta. Enraizado na tradição agostiniana, Leão XIV parece aprofundar o clássico binómio do Concílio Vaticano II: Igreja ad intra (para dentro) e Igreja ad extra (para fora). Trata-se de uma distinção que, com o tempo, corria o risco de gerar separações doentias: entre culto e anúncio, entre catequese e serviço aos mais pobres, entre interioridade e compromisso.
Neste contexto, e reforçando o primado da evangelização na vida da Igreja, o Papa Francisco falou de uma “Igreja em saída”, em contraposição a uma Igreja autorreferencial. Sem abandonar este horizonte conciliar, do qual parte, Leão XIV introduz um acento novo, mais explicitamente antropológico. A sua ênfase não recai tanto sobre uma Igreja voltada para dentro ou para fora, mas sobre o ser humano na sua unidade.
Assim, o ad intra passa a designar o coração, como lugar de escuta, unificação e transformação; e o ad extra refere-se à sociabilidade, isto é, ao modo como essa transformação interior se traduz em relações, práticas e estruturas. O dinamismo eclesial torna-se, deste modo, também um dinamismo existencial: não começa na instituição, mas na pessoa. É precisamente esta deslocação que confere ao seu discurso sobre a paz uma força verdadeiramente universal. Porque não depende de pertenças institucionais, mas toca a fibra mais profunda do humano: a relação entre interioridade e vida em comum.
No horizonte que se abre com Leão XIV, a paz não aparece como um ideal abstrato nem como um programa a impor, mas como vida que brota de um coração transformado. Quando o Evangelho volta a habitar o centro, a Igreja pode ser sinal humilde de unidade e fermento de reconciliação. Talvez esta seja a luz mais discreta e mais decisiva do seu pontificado: recordar que um mundo ferido só pode ser curado a partir de dentro. Como recordava, no início do seu pontificado, a 12 de maio de 2025, aos representantes dos meios de comunicação: «Vivamos bem, e serão bons os tempos. Os tempos somos nós» (cf. Santo Agostinho, Sermão 80,8).
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
