«Tudo vive em silêncio até chegar alguém para ouvir»  - Ponto SJ

«Tudo vive em silêncio até chegar alguém para ouvir» 

Um conto sobre um fortuito e indesejado encontro num metro que despertou o mundo interior doutrem.

É este o pensamento que o trespassa durante a sua viagem de metro, comuta do trabalho para casa.

As suas costas encontram-se totalmente cobertas pelo maravilhoso canto da carruagem, de longe o melhor lugar quando o metro não tem espaço sentado. Os fones colocados nos ouvidos abafam a presença do mundo que o rodeia.

 

Encostado sobre a parede do comboio olha os outros passageiros. Cada um no seu lugar, todos nos seus devidos limites, nada trespassa o mundo de outrem.

 

Não se tocam, não se olham e não se falam

Estes seres, reclinados sobre a vítrea luz.

 

Além da luz, não há nada

Na luz estão as suas vidas.

 

Seus olhos fixam a luz multicolor em metamorfose.

Nas suas curvaturas perfeitas veem todo o mundo

 

Mas outro.

 

De repente o metro abranda. Devido às leis da inércia ele é lançado para fora do seu lugar no canto, mas o seu estado de queda iminente é travado por uma mão que saiu do seu lugar.

 

Nesta mão o objeto de luz permanece repousando, o mundo continua entre estes dedos. Mas um corpo contacta com outro, dois universos de limites por definir colidem. A mão colidiu com a inércia e travou a queda ao ser colocada no peito para não o deixar cair de frente.

 

«Estás bem?»

 

São as palavras que vê serem formadas, projetadas como um sopro a atravessar o mundo que bloqueia com os ouvidos blindados.

 

Apenas consegue assentir com a cabeça em resposta

 

Depois deste incidente, decide reabrir os ouvidos, com o simples gesto de retirar os fones.

O mundo ressurge para ele, os sons vêm todos de uma vez. O ensurdecedor correr do metro ao longo das linhas férreas, o som de fricção causada pelo freio ao movimento e por fim, volta o som do interior da carruagem, ouve as pessoas, a sua tosse involuntária, os telefonemas que se ouvem por cima do barulho todo.

 

Levanta a cabeça e olha os olhos da pessoa a quem pertence a mão que o travou e perde-se neles. Também este ser estava reclinado sobre a luz, no seu lugar, como espírito perdido, mas abandonou o mundo em metamorfose para tocar no seu em queda.

 

A mão deste ser agiu antes do espírito voltar ao corpo

 

Uma mão que é capaz de nada.

Uma mão que não tem nada de que não é capaz.

 

Saiu do metro com a mão no seu pensamento.

 

Subiu as inevitáveis escadas para a superfície

E chegou ao parque, um lugar sempre repetido no caminho de voltar a casa.

Mas desta vez o seu mundo não está abafado pelos objetos que lhe cobrem os ouvidos, por isso olha as árvores, os corpos que perpetuamente se encontram em silêncio.

 

Seres que vivem no limiar entre vida e morte, no difuso limite entre morte e transformação, banhadas de luz.

 

O sol brilhava de modo único em cada árvore, assente num foco que parecia só dela, como se a quisesse transformar, fazer nascer de novo das chamas.

 

As folhas vermelhas pareciam de fogo,

com esta luz

pareciam a sarça ardente.

Ou uma vela, em silêncio.

 

Sob este silêncio chegou a casa.

 

Por entre as árvores que evocavam velas a arder, entre o escorrer de sobras causado pela luz, recordou uma tradição do oriente distante. Uma inação ativa, um ato de passividade dirigido a um outro, o de acender incenso ou uma vela, que ilumina o caminho para casa e recorda os espíritos que se perderam, sinal de que permanecem de qualquer modo no coração dos que amam. Voltou a pensar na mão que o sustentou na queda, no espírito que despertou para o suportar

 

Com o membro que permite agarrar na mente, foi buscar uma vela, uma que tinha recebido, para se recordar da luz que o guia no inevitável seguimento dos dias, como um trilho que o leva sempre de volta a casa.

 

Acendeu um fósforo e passou a sua chama para o pavio da vela.

Não começou imediatamente a arder, este era novo, por isso soltou algum fumo antes de acender.

 

O fumo chamou o seu olhar.

 

Nunca tinha tido a oportunidade de olhar para esta linha de cinzento a subir de modo tão pacífico, tão inevitável. Criou-se um rasgo de cinzento azulado que dividia tudo o que estava à sua frente.

Naquele momento, apenas existia esta linha ondulante.

 

Quando ele sustinha a respiração, a linha era reta e movia-se inevitavelmente para o alto. Mas quando praticava a difusão de vida, a linha ondulava, parecendo um rio a definir as suas margens.

 

O fumo cessou, passados meros segundos, chamando-o de volta ao mundo.

Permaneceu apenas a chama.

E nesta quietude ele ficou a olhar a chama que acendeu pelas vidas de que se lembrou.

 

 

 

 

 

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.