Já se escreveu muito sobre Lux, o último álbum de Rosalía – e que fácil é fechar-me em casa e desfrutar desta obra de arte que nos foi dada e dar-lhe um significado muito próprio, muito meu, que vem da espiritualidade inaciana.
Outra experiência diferente é ver este álbum explodir em pleno Meo Arena – quando decide existir no mundo de todos, porque este álbum é feito por quem tem uma forma de ser arraigadamente provocadora, teimosamente alegre e paradoxalmente simples.
Ali, dei por mim no cruzamento de dois mundos. Para os fãs fiéis familiarizados com El Mal Querer e Motomami, este universo católico vem misturado com referências motoqueiras, máscaras de couro, rolos de rendas que dão para fazer um conjunto de véu e mini-saia a condizer. Pergunto-me se se deixaram comover pelas letras como eu; o que lhes vem à cabeça quando cantam, em La Yugular, “Each vertebra reveals a mystery // Pray on my spine, it’s a rosary”. E durante Mio Cristo piangi diamanti, em que pensam quando entoam “Quanti pugni ti hanno dato // Che avrebbero dovuto essere abbracci?” (“Quantos socos te deram // Que deveriam ter sido abraços?”). É uma moda que passa até ao próximo álbum, ou abrem-se perguntas que remoem?
Ultimamente somos curiosidade, e não sabemos o que fazer com ela.
E depois outros tantos, uns betos curiosos (em que me incluo eu, assumidamente) que vêm a querer saber mais e sem saber onde se meteram. De queixo caído a ver passar este show de drag queens vestidas de freiras, com um entusiasmo em usar um crucifixo que eu nunca tive. O Wandson Lisboa bem avisou (não sei se sabia inteiramente o que dizia), quando disse que este concerto seria as JMJ 2026: Rosalía é para todos, todos, todos. E eu só penso que assim anda a Igreja no meio do mundo: ultimamente somos curiosidade, e não sabemos o que fazer com ela.
Quando começam os primeiros acordes da Relíquia, desfaço-me em lágrimas. Porque para mim está aqui o centro:
“Pero mi corazón nunca ha sido mío // Yo siempre lo doy // Coge un trozo de mí // Quédatelo pa’ cuando no esté // Seré tu reliquia”
Rosalía dá-se toda, e mal ou bem, dá-se. É de caras, quando diz “Primero amaré el mundo // Y luego amaré a Dios”, na abertura do concerto, que “coitada, a menina já trocou o primeiro e segundo mandamento”. A sua experiência de um amor perfeito é anunciada por uma profeta assumidamente imperfeita e que não se esquiva a isso mesmo. Mas a isto já voltamos.
A festa segue e tem de tudo: ballet clássico, uma figura de véu que podia ser uma Virgem ou uma noiva, um calvário, um confessionário reinventado, um botafumeiro-techno feito coluna. Não vou esmiuçar as referências artísticas; outros já escreveram sobre isso.
Interessa o seguinte: ali está Rosalía, no meio do caos, meia de véu, meia de lingerie, rodeada de vultos de rendas e saltos altos e calças de couro, tudo à volta dela, a cantar sobre Deus e depois sobre Versace e depois sobre maus amores. A única imagem que me ocorre é que aquilo poderá ter sido o que Maria Madalena deve ter visto a andar atrás de Jesus nas festas com os cobradores de impostos e as prostitutas. E passar o resto da vida a anunciar a Boa Nova da maneira que pôde e que sabia, a partir da sua cultura Andaluz, da sua formação em música clássica e do gosto por um bom beat tresloucado. Ou não fosse esta Maria Madalena nascida em plenos anos 90.
Voltemos então à nossa profeta imperfeita: ali vai ela, a comandar essa festa desconjuntada e a mostrar coisas bonitas que podíamos fazer se não nos catalogássemos tanto em caixinhas. Tanto está de vestido branco como fica de sutiã e tutu, tanto nos deixa a todos em silêncio para ouvir o vibrato mais frágil como rebenta com os graves para uma rave de 1 minuto. Lá nos vai guiando, sem medos de cruzar universos que pareciam incompatíveis. E não será a encarnação mesmo assim?
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
