“Então Pedro ficou triste, porque Jesus perguntou três vezes se ele O amava” (Jo 21, 17). Simão, filho de João, o pescador cobarde, impulsivo e mentiroso, foi chamado pelo nome. Jesus confia a Sua igreja a esta pedra viva, que é capaz de chorar, capaz de arrependimento, de transformação. Como aquela que selava o túmulo, Pedro torna-se um instrumento de libertação no caminho para a salvação. Por vários motivos, nesta Páscoa refleti sobre liberdade. Ao observar a velocidade com que a sociedade parece caminhar para uma nova fase de segregação, egoísmo, e promoção da cultura do medo, sinto que é a altura ideal para abordar este tema, especialmente se me digo seguidor de Cristo.
A liberdade dos cristãos nasce no momento em que a pedra se move. Aqui, não pode haver dúvidas. E uma igreja que se recuse a mover arrisca-se a ficar selada no túmulo. Quem não teme morrer pela verdade é absolutamente livre. E esta liberdade não pode ser restringida, e derruba aqueles que a ignoram ou desprezam. Pilatos lavou as mãos, a multidão em fúria clamou pela morte de cruz, mas a escuridão da sepultura não venceu. A esperança do regresso de Jesus ilumina o nosso propósito, como iluminou os apóstolos na altura, e fortalece-nos com a capacidade de sermos livres para agir, para amar, para correr o mundo seguros da verdade, e que ela liberta-nos.
Hoje corremos o risco de ver novas pedras a serem erguidas
Este ano celebramos 52 anos de uma revolução que destrancou as portas de um país amordaçado pelo medo e pela censura. Para um cristão, recordar esta data não é um mero exercício de memória cívica, é reconhecer na história dos homens um eco daquela manhã de Páscoa. Portugal moveu as suas pedras para deixar a liberdade entrar. Contudo, hoje corremos o risco de ver novas pedras a serem erguidas, algumas delas por quem devia ser o primeiro a empurrá-las. Observamos com clareza o embate entre a herança do Evangelho e a tentação do imobilismo. O Papa Leão XIV, dando continuidade ao caminho iniciado por Francisco, tem assumido uma postura política e social ativamente incomodativa. E incomoda, sobretudo, um certo tipo de homem que anseia pelo conforto de uma Igreja de museu – uma fortaleza fria, imune aos desafios do povo, que prefere o isolamento elitista à confusão de um hospital de campanha. Exigem silêncio e submissão cega, ignorando de forma conveniente o Evangelho, criando até o seu próprio. Calarmo-nos perante a tentativa de sequestrar a fé para agendas de exclusão ou nacionalismos reacionários é trair o pescador frágil a quem a Igreja foi confiada. A fé cristã não é o oposto da revolução, é a sua raiz mais profunda. E a liberdade só sobrevive se nós, pedras vivas, não tivermos medo de nos mover. Não nos esqueçamos da resposta de Jesus a Pedro, momentos depois deste questionar a Paixão: “Afasta-te Santanás! Tu és para mim um estorvo, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens!” (Mt 16, 23).
Precisamos dos sacramentos. Precisamos de estar perto de Jesus, para aí encontrarmos a força de todos os dias combatermos estes atentados à liberdade. Combater estes homens que pretendem subjugar o mundo à sua mercê. Para terminar, partilho o número 166 da encíclica Pacem in Terris de São João XXIII: “Como representante – ainda que indigno – daquele que o anúncio profético chamou o ‘Príncipe da Paz’ (cf. Is 9,6), julgamos nosso dever consagrar os nossos pensamentos, preocupações e energias à consolidação deste bem comum. Mas a paz permanece palavra vazia de sentido, se não se funda na ordem que, com confiante esperança, esboçamos nesta nossa carta encíclica: ordem fundada na verdade, construída segundo a justiça, alimentada e consumada na caridade, realizada sob os auspícios da liberdade.”
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
