Timor-Leste despediu-se esta madrugada com gratidão e emoção do P. João Felgueiras, jesuíta português que morreu na sexta-feira, aos 105 anos, e que, já sendo assim considerado pelo povo, foi ontem reconhecido oficialmente pelas autoridades timorenses, como um herói nacional.
O funeral realizou-se às 9h00 de Díli (1h00 em Portugal), na catedral de Díli, numa eucaristia presidida pelo cardeal D. Virgílio Carmo da Silva, arcebispo de Díli. A celebração reuniu bispos timorenses, jesuítas, sacerdotes, religiosos e religiosas, familiares, amigos, portugueses e timorenses, bem como várias figuras do Estado, entre as quais o Presidente da República de Timor-Leste, José Ramos-Horta, e o primeiro-ministro, Xanana Gusmão. Centenas de fiéis encheram a catedral para prestar a última homenagem a uma das figuras mais marcantes da história recente de Timor-Leste e por com quem tinham uma relação pessoal e de proximidade.
Para muitos, o P. João Felgueiras foi “um pai”, um companheiro fiel, alguém que permaneceu junto do povo timorense quando a guerra, a violência e o medo se instalaram. Como lembrou o cardeal timorense, o missionário jesuíta chegado a Timor em 1971, “não veio para voltar, mas para ficar”. Ou seja, acrescentou, “ele escolheu Timor como sua casa”. D. Virgílio Carmo da Silva partilhou ainda com os fiéis que a Igreja Católica e o povo timorense estão de luto por terem perdido “um santo líder, um pai amoroso e um coração grande para o povo e para a Igreja de Timor”.
A memória deixada pelo missionário foi apresentada como um legado que continua vivo. “A melhor forma de honrarmos o P. João é continuarmos a manter vivo o seu legado espiritual e missionário e a fazer com que as suas palavras e o seu exemplo permaneçam nos nossos corações”, disse Virgílio.
O arcebispo de Díli evocou ainda a marca profunda deixada pelo jesuíta no povo timorense: “Os seus sinais permanecem gravados na nossa terra. O rasto das suas bênçãos permanece, e a sua palavra de ontem será a nossa luz de amanhã.”
Nas palavras que dirigiu aos presentes no final da celebração, o P. Manuel Morujão, companheiro e amigo jesuíta e que representou a Província Portuguesa da Companhia de Jesus nas exéquias fúnebres, afirmou que o P. Felgueiras “não suportou as diferenças culturais de costumes e línguas, como um desterrado. Amou-as. Amou sobretudo o povo a que foi enviado em missão de levar a boa nova de Jesus”. Falando em nome do Provincial dos jesuítas portugueses, o P. Manuel Morujão disse ainda que Timor tornou-se “a sua nova Casa da Seara” e o povo timorense “a sua família”. E acrescentou: “Agora a Igreja de Timor tem agora no Padre João um Núncio Apostólico no Paraíso, a Companhia de Jesus timorense um fiel Assistente no Céu, a Nação de Timor Lorosae um seu Embaixador no Reino celestial”.
Durante a celebração, o Estado timorense distinguiu o P. João Felgueiras, a título póstumo, com a Ordem de Laran Luak, em reconhecimento pelo seu contributo para a luta de libertação nacional e pelo apoio prestado ao povo timorense. A condecoração foi entregue pelo Presidente da República, José Ramos-Horta, durante a missa de corpo presente.
A homenagem reconhece uma vida marcada pela defesa da dignidade humana, da justiça, da educação e do direito do povo timorense à autodeterminação. Ao longo dos últimos dias, multiplicaram-se as mensagens de pesar e os testemunhos de amigos, religiosos, religiosas e figuras públicas que quiseram recordar a presença discreta, firme e fiel do P. João Felgueiras junto de Timor-Leste.
O Presidente da República de Timor-Leste declarou-o como “herói nacional da Pátria de Timor-Leste”, por tudo que ele fez ao longo da sua vida no território timorense, durante a ocupação indonésia, mas não só.
Na celebração esteve também presente o P. Erik John Gerilla, sj, superior regional da Companhia de Jesus em Timor-Leste. Em representação dos jesuítas portugueses esteve o P. Manuel Morujão, sj, amigo próximo do P. João Felgueiras que, enquanto provincial, entre 1987 e 1993, o visitou várias vezes em Timor e com quem mantinha correspondência frequente.
Na parte final da homilia, D. Virgílio confiou a memória do P. João Felgueiras à oração do povo timorense: “Rezamos para que, no céu, continue a velar por nós e a ajudar-nos a viver em unidade.”
O P. João Felgueiras morreu no passado dia 3 de julho, em Díli. Tinha 105 anos, dos quais 83 vividos na Companhia de Jesus. Deixa uma vida inteira ligada a Timor-Leste e uma memória profundamente inscrita na história da Igreja, da educação e do povo timorense.
Na nota de pesar emitida na sexta-feira, a Província Portuguesa da Companhia de Jesus “agradece a vida e a entrega do P. João Felgueiras, que sempre manifestou um espírito de grande amor e união à sua Província de origem. Em grandes missionários como o P. João Felgueiras, os jesuítas portugueses encontram o exemplo e a inspiração de uma vida dedicada a Deus, profundamente espiritual e próxima do povo a quem foi enviado e serviu ao longo de tantas décadas.”
