De passagem por Chicago numa curta viagem de trabalho, corri para ver «Nighthawks» (1942) de Edward Hopper, uma obra que faz parte da belíssima coleção permanente do Art Institute of Chicago. Talvez não seja uma obra excecional no olhar crítico dos críticos, até porque o museu alberga uma extraordinária coleção de arte, com um extenso arco temporal e é a maior coleção de Impressionismo fora da Europa, o que já seriam razões suficientes para me consumir naquele lugar. Mas porque o tempo era já escasso, e era imensa a vontade de conhecer ao vivo esta pintura de Edward Hopper… literalmente corri “ao Encontro” do Original.
Conheço bem esta obra. Na realidade é um quadro bem conhecido do público geral. Tenho até uma pequena reprodução, em formato de poster, desta mesma imagem. Por tudo isso corri “ao Encontro” do Original!
O Original permanece como um lugar de verdade.
Vivemos num tempo em que as imagens circulam a um ritmo alucinante, onde constantemente cópias são reproduzidas, editadas e partilhadas. Vivemos literalmente num mundo obcecado por imagens e muitas reproduções, onde o original nos parece próximo e por vezes até se torna em algo banal …“Já tinha visto isto em qualquer lado!” afirma o nosso débil conhecimento.
Na realidade, e ainda bem, as obras de arte circulam em livros, em ecrãs, em redes sociais e catálogos e assim tornam-se familiares e próximas, antes mesmo de as encontrarmos ao vivo. Ainda assim, ou até por isso, há algo que nos faz correr “ao Encontro” do Original.
Porque o Original permanece como um lugar de verdade, de intenção concreta do artista, de cruzamento com a marca da sua presença na obra, algo que torna tão excecional a experiência do encontro. Não percamos, pois, o desejo de correr “ao Encontro” do Original.
O Original conta-nos histórias, traz consigo toda a beleza do trajeto até ao nosso encontro, singular e único.
O Original pode até ter a sua imperfeição, porque carrega as marcas da sua intenção criativa. O Original passa por várias mãos até chegar ao lugar onde nos cruzamos com ele – num museu, numa galeria ou numa coleção particular – carrega todas as histórias deste percurso e, quem sabe, até com alguns danos do caminho percorrido. O Original conta-nos histórias, mostra-nos as imperfeições da matéria, os gestos do artista e o desgaste do tempo, traz consigo toda a beleza do trajeto até ao nosso encontro, singular e único.
Por tudo isto, quando finalmente nos Encontramos a sós com o Original, não há filtros nem interpretações, não há correções de luz ou de cor. Estamos perante uma presença real. As cores revelam nuances que não contávamos, as texturas são mais visíveis e a escala, muitas vezes, altera a nossa perceção. Vivemos toda a emoção do Encontro.
O emocional vence o conhecimento que trazíamos até então, a obra transforma-se numa experiência… e sim, valeu a pena correr “ao Encontro” do Original! O que me parecia conhecido foi agora uma descoberta, e o Encontro com o Original fez-me entrar no processo: o que trouxe o artista até aqui? O que quis representar? Para onde sou transportada? A matéria leva-nos à ideia e a autenticidade deixa de ser apenas uma questão de autoria para nos transportar até à emoção, algo que a cópia jamais consegue reproduzir.
O Original recorda-nos que ver é mais do que reconhecer uma imagem.
Por isso sim, vale a pena Correr “ao Encontro” do Original, num mundo onde a aparência muitas vezes substitui a experiência, o Original recorda-nos que ver é mais do que reconhecer uma imagem: é estabelecer uma relação verdadeira com a obra, uma relação silenciosa, pessoal e irrepetível, porque o Original é único e faz-se ainda mais único para cada visitante e em cada visita.
Sim é importante procurar os museus, as galerias e os artistas, ler um livro, ouvir um concerto ou assistir a um teatro, pois só “tocando” o Original chegaremos à fonte. Cada obra de arte carrega vestígios do contexto em que foi criada, mas também de todas as pessoas que a contemplaram ao longo dos anos, numa espécie de camadas que o tempo vai criando e que, ao nos cruzarmos com o Original, nos faz também participantes dessa história e continuidade.
Paradoxalmente, Correr “ao Encontro” do Original significa parar, observar e sentir…
É também assim com Deus, é assim sempre que tocamos a Singularidade!
Edward Hopper, Americano, 1882-1967
Nighthawks 1942 (foto da autora do artigo, in loco)
“Inconscientemente, provavelmente, estava a pintar a solidão de uma grande cidade. Numa cafetaria aberta 24 horas por dia, três clientes sentam-se ao balcão frente a um empregado de mesa. Cada um parece estar perdido em pensamentos e alheio aos outros. A composição é organizada e minimalista nos detalhes…
Através de formas geométricas harmoniosas e do brilho da iluminação eléctrica da cafetaria, Hopper cria uma cena serena, bela e, ao mesmo tempo, enigmática. Embora inspirada num restaurante que Hopper vira na Greenwich Avenue, em Nova Iorque, a pintura não é um retrato realista de um lugar real. Como espectadores, somos levados a refletir sobre as figuras, as suas relações e este mundo imaginado.” In Legenda da obra no Art Institute of Chicago.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
