P. João Felgueiras, sj: testemunhos de dois companheiros jesuítas - Ponto SJ

P. João Felgueiras, sj: testemunhos de dois companheiros jesuítas

Amou sobretudo o povo a que foi enviado em missão de levar a boa nova de Jesus, diz P. Manuel Morujão que o visitou e com quem se correspondia. P. Francisco Cortês Ferreira recorda amabilidade e naturalidade com que falava de Jesus.

Amou sobretudo o povo a que foi enviado em missão de levar a boa nova de Jesus, diz P. Manuel Morujão que o visitou e com quem se correspondia. P. Francisco Cortês Ferreira recorda amabilidade e naturalidade com que falava de Jesus.

Um homem do céu na terra

P. Manuel Morujão, sj

O meu conhecimento do padre João Felgueiras vem sobretudo da intensa correspondência que trocámos desde os tempos da ocupação de Timor pelo exército da Indonésia. Fomos usando a evolução da tecnologia da comunicação: cartas e postais, faxes, disquetes, emails, conversas por telefone fixo e telemóvel, e finalmente vídeochamadas. Também não faltaram ocasiões de encontros pessoais, tanto em Portugal, quando vinha visitar-nos, como em Timor Leste, onde estive quatro vezes para diversos ministérios.

Identificado com o povo e a Igreja de Timor

Sendo um cidadão europeu, soube ser um homem da Oceânia timorense. Não suportou as diferenças culturais de costumes e línguas, como um desterrado. Amou-as. Amou sobretudo o povo a que foi enviado em missão de levar a boa nova de Jesus.

Guardo as cenas que testemunhei de encontros informais do padre Felgueiras com o povo de Timor: crianças, jovens, adultos e velhinhos. Não havia distâncias e cerimónias. Com todos se sentia em família. Timor era a sua casa e o povo timorense a sua família.

Não havia distâncias e cerimónias. Com todos se sentia em família. Timor era a sua casa e o povo timorense a sua família.

Recordo-me do modo como se preocupava com a formação dos jovens, animando-os à promoção cultural e arranjando-lhes bolsas de estudo; a sua dedicação ao movimento do escutismo; a construção da grande escola/colégio “Amigos de Jesus”, para que o fossem de nome e de facto.

O jesuíta padre João Felgueiras era mestre em unir o espiritual com o humano. Era fácil de ver nele, com evidência, um homem de Deus, mas também uma pessoa muito humana: gentil, delicado, amável, serviçal. Via-se que era natural do sobrenatural: o missionário de Cristo, o ministro da Eucaristia, o filial devoto de Nossa Senhora Mãe.

Um pacífico lutador pela liberdade e a justiça

Perante as injustiças da invasão estrangeira do sagrado chão de Timor, foi um sereno lutador pela justiça e a liberdade, inspirado pelo evangelho de Jesus Cristo. As autoridades e o povo em geral do novo país de Timor reconhecem nele ter sido profeta que inspirou os que lutaram pela conquista da liberdade e da independência. Não se deixou intimidar pela força dos poderosos e pela sedução de viver com privilégios, mas em clima de sujeição e opressão.

Com grande discrição, imitou Moisés, inspirando personalidades e líderes a levar o povo para a terra prometida da liberdade. Recordo os contactos que mantinha com governantes quando vinha a Portugal, para que Timor, junto da ONU e de outras instâncias internacionais, fosse tratado com o seu real estatuto de território sob a administração portuguesa com vista à independência. E valeu toda a pena.

As autoridades e o povo em geral do novo país de Timor reconhecem nele ter sido profeta que inspirou os que lutaram pela conquista da liberdade e da independência.

Uma vida longa quanto rica de bem-fazer

De saúde franzina, percorreu a maratona da vida durante mais de uma centena de anos. A vontade de viver a fazer o bem superou os limites de uma saúde frágil.

Às vezes afirmava o seu desejo de partir definitivamente para Deus: “Estou à espera que desça do Céu uma corda para me levar.” Finalmente o Senhor da vida fez-lhe a vontade. Não para fugir a trabalhos e se livrar de nós. Seguramente para se ocupar connosco diante de Deus. Para interceder por nós, por todos, especialmente pelo seu querido povo de Timor. Agora tem um seu embaixador no Paraíso. Estou certo que junto de Deus continuará a ser missionário na terra.

O Padre João Felgueiras continuará a ser um homem do Céu na terra.

 

O P. João era um missionário
P. Francisco Cortês Ferreira, sj

A morte do P. João Felgueiras trouxe vários frames da minha memória à superfície e que agora revejo com a prudência de quem recorda para sintetizar qualquer coisa para si.

Naquele dia de agosto de 2014, aterrei em Dili num dia mais ou menos ameno. À minha espera o P. José Alves Martins, um companheiro jesuíta português quase siamês do P. João e um escolástico timorense, Diogo Carvalho, vestindo uma camisola do Sporting, identificável ao longe, que usava, talvez com receio que me perdesse no pequeno aeroporto da capital.

Seguimos para Dare, na encosta da montanha à saída de Dili, para participar num encontro de jesuítas da Região independente de Timor Leste. Entre o grupo de cerca de 20 pessoas vários missionários rijos, daqueles saídos dos livros, que só não eram barbudos porque eram asiáticos, impressionaram-me profundamente a mim, um jesuíta ainda imberbe nestas coisas da missão em terras do oriente. E entre eles o P. João Felgueiras, de batina branca.

Não me lembro do que discutimos, mas lembro-me daqueles homens que davam tudo por Cristo. E lembro-me do Padre João que parecia levitar alguns centímetros acima do solo. De certa maneira ele já não existia senão pelo desejo de sempre, que era servir a Cristo naquela terra do sol nascente.

Lembro-me do Padre João que parecia levitar alguns centímetros acima do solo. De certa maneira ele já não existia senão pelo desejo de sempre, que era servir a Cristo naquela terra do sol nascente.

Depois desse encontro separámo-nos. Ele baixou a Díli e eu, uns dias mais tarde, subi a Ermera por um mês, para aprender tétum, até me fixar definitivamente em Kasait, Liquiçá, a cerca de 30 minutos da capital, quando as estradas permitiam.

Muitas histórias circulavam sobre o P. João Felgueiras na boca dos timorenses. Talvez nem todas fossem verdadeiras, ou exatamente assim como as contavam. Mas todas elas eram condensadas numa veneração irreprimível por um homem que não me parecia real. E talvez não fosse. Ou talvez fosse o mais real dos homens, ou não fosse ele missionário.

Visitava o P. João de vez em quando, quando ia “à cidade” e recordo-me de vários episódios que guardo num dos bolsos privilegiados da minha memória como jesuíta.

Eu ficava instalado numa pequena casa ao lado da “casa mãe” dos jesuítas em Taibessi, Dili, onde o P. João e P. José Martins também dormiam. Por várias vezes saia do quarto e encontrava o P. João sentado num sofá, no hall de entrada, vagamente iluminado pelo sol da tarde, a rezar as vésperas à meia-luz. Impressionava-me aquela figura improvável e sem amargura. Sempre de chinelo e meia branca puxada até ao joelho e toalha sobre o regaço. E íamos interagindo quando passávamos um pelo outro. Às vezes entrava no quarto dele onde quase não havia espaço entre as caixas de documentos, os objetos de piedade e a cama feita com precisão geométrica. Dizia-me que sabia onde queria ser enterrado. No jardim de Taibessi ao lado dos companheiros jesuítas assassinados em 1999. Eu escutava atentamente e pensava que lhe ficaria bem aquele espaço.

Nunca ouvi o P. João falar tétum, a língua usada na generalidade do país. Mas talvez não precisasse. Era um missionário dos tempos em que as pessoas vinham ter com eles. Daqueles que vivem mais elevados para terem um olhar mais vasto sobre a terra onde são chamados a servir. Um dia convidei-o para vir celebrar missa a Kasait, ao colégio onde trabalhava. Fui buscá-lo. Era dia de S. Luís Gonzaga. Falava-me da importância das crianças, como quem deseja nunca morrer por sentir viver uma missão para sempre inacabada.

A missa era num local improvisado porque ainda não havia capela. Ele sobe ao altar e em silêncio pega numa imagem barroca de S. Luís Gonzaga e mostra-a lentamente a toda a assembleia como quem mostra um troféu. De um lado ao outro, largo como a amplitude da sala. Eu fiquei a pensar naquele gesto que só funcionaria com aquele homem. As crianças caladas, sem tecnologia, sem birras, sem distrações, só silêncio. O P. João era assim, simples e sem medo. E desmedido no cuidado.

Pelos meus 30 anos, ainda eu vivia em Timor, escreve-me telegraficamente o seguinte:

Caro amigo Ir. Francisco. Vai fazer 30 anos. Parabéns. Que se prolonguem a fazer bem a todos. As minhas orações, como é meu dever e agrado. Saudades e um grande abraço.

P. João

Os anos que não são para nós, mas para o bem de todos. E a oração que é dever e agrado. E as saudades, sempre presentes.

Outra vez, depois de uma visita que lhe fiz escreve-me o seguinte:

Querido Ir. Francisco. Caí na conta que esta manhã falei eu demasiado tempo! Desculpe! Para outra vez compensamos! Abraço. Santa Páscoa a todo os NOSSOS de Kasait. Amigo no Senhor.

PJF

Ele falava muito tempo, contando histórias passadas e sonhos futuros. Talvez tivesse alguma urgência porque tinha muita coisa para ensinar. E a esses homens há que dar o tempo das conversas. Uma sabedoria ancestral há muito apropriada. Falava de Jesus com a naturalidade com que o cheiro da terra molhada se insinuava em nós depois das chuvas pesadas da tarde, em Timor. Sobretudo sem os calculismos dos grandes projetos ou planeamentos apostólicos. Bastava uma pequena insinuação para falar de Jesus. Era uma criança para sempre movendo aquele corpo a esvaziar-se. Era assim, amável com um mundo que talvez não compreendesse totalmente, mas por quem rezava.

No dia em que regressei a Portugal, fui visitá-lo com a convicção de que não mais nos voltaríamos a ver. Falámos da missão, de Portugal e de certos desejos de futuro. A certa altura levantei-me para o regresso. No umbral da porta ele deteve-me com duas palavras, levantou-se e estendeu-me a mão com o seu terço – “quero que fiques com isto”. Entretanto esse terço, com os anos, ficou perdido no bolso de um casaco qualquer estacionado no meu armário à espera de ser redescoberto. Mas o gesto permanecerá até quando apenas Deus se recordar dele na eternidade.

E com o gesto um último email de despedida.

QUERIDO AMIGO IR.FRANCISCO. JÁ LHE DISSEMOS ADEUS, HÁ DIAS. AÍ PORÉM DEVE BULIR AINDA MAIS O CORAÇÃO. ASSOCIO-ME COM A ORAÇÃO E ABRAÇO.

TAMBÉM  VOS QUERO INFORMAR E CONVIDAR (TRANSMITA, SFF) PARA NO DIA 28 DO CORRENTE ASSISTIR À BÊNÇÃO DA NOVA CASA DA  ESCOLA AMIGOS DE JESUS, PELAS 9 HORAS, SE DEUS QUISER.

POIS CLARO…FICO CHEIO DE SAUDADES SUAS! PARECE QUE A VOCAÇÃO MISSIONÁRIA É MESMO ASSIM! QUANDO HÁ ANOS, OS OCUPANTES NÃO ME DEIXAVAM «REENTRAR» ANDAVA MESMO DOENTE. MAS TUDO PASSOU, QUANDO ME DISSERAM..PODE REENTRAR. FOI AÍ POR 1988…

GRANDE ABRAÇO.PASSE POR CÁ!

p.JOÃO

Ele era um missionário!

Maromak haraik bensaun wa’in ba ita bo’ot, Amu João.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.