Quando a inteligência artificial exige uma inteligência mais humana - Ponto SJ

Quando a inteligência artificial exige uma inteligência mais humana

A questão de fundo, recolocada pelo documento papal não é apenas tecnológica, mas antropológica. O que está verdadeiramente em causa é a compreensão do que significa ser humano.

A encíclica Magnífica Humanidade chega num momento particularmente oportuno da história humana. O seu primeiro mérito reside, desde logo, em colocar a Igreja no centro de um diálogo necessário com o mundo contemporâneo, precisamente sobre uma das questões que mais profundamente desafiam a compreensão que o ser humano tem de si próprio. Num tempo em que a inteligência artificial se apresenta como promessa de progresso ilimitado, desempenho eficiente e produtividade máxima com poucos custos, na ótica dos utilizadores, a Igreja recorda que nenhuma inovação tecnológica poderá dispensar aquilo que se poderia chamar, apropriando-nos de uma expressão do cardeal Tolentino Mendonça, de inteligência social, isto é, a capacidade de viver com os outros, de construir relações, de discernir o bem comum e de reconhecer no próximo um semelhante e não apenas um dado ou uma variável estatística.

A questão de fundo, recolocada pelo documento papal, não é por isso apenas tecnológica, mas antropológica. O que está verdadeiramente em causa é a compreensão do que significa ser humano. A tradição bíblica recorda-nos que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27), não apenas como ser racional, mas como ser relacional. A pessoa humana realiza-se no encontro, na comunhão e na responsabilidade. Por isso, qualquer reflexão séria sobre a inteligência artificial tem de começar por reconhecer que a inteligência humana não se reduz à capacidade de calcular, processar informação ou prever comportamentos. Há uma dimensão ética, espiritual, afetiva e social que nenhuma máquina pode reproduzir. Acredito firmemente nisto!

Por outro lado, é particularmente significativo que seja um Papa norte-americano a promover esta reflexão, que é um apelo urgente à proteção da fragilidade humana contra os perigos de uma ilusão algorítmica de que o próprio fala. Proveniente do país onde nasceram muitas das empresas, laboratórios e centros de investigação responsáveis pelo desenvolvimento da inteligência artificial, Leão XIV teve a lucidez de escrever a sua primeira encíclica sobre o tema e de reunir no Vaticano algumas das figuras mais influentes no desenvolvimento da inteligência artificial, incluindo cientistas e investigadores que estiveram na origem dos sistemas que hoje moldam a economia, a política e a comunicação global. O gesto revela, por si só, uma Igreja que finalmente não teme o progresso, mas que procura iluminá-lo à luz da dignidade humana, ao jeito do Bom Samaritano que cuida e protege com a paciência de Job, diante do mal. Não da tecnologia mas do uso que dela está a ser feito, planeado e ponderado, sem limites.

Esta mudança de época tem subjacente um novo paradigma: a passagem da aceitação da imperfeição humana para a procura de uma ilusória perfeição tecnológica.

Ora, a atenção dispensada ao tema demonstra, por outro lado, a consciência de que a Igreja, diante de uma verdadeira mudança de época, não a teme mas dialoga com ela. Ao alertar para os riscos éticos e antropológicos da inteligência artificial, a Igreja exerce uma autêntica função profética, discernindo os sinais dos tempos e antecipando desafios que podem comprometer a dignidade humana e o bem comum.

Francisco, o seu antecessor, falou disso abundantemente. O risco não está apenas no desenvolvimento de máquinas cada vez mais inteligentes, mas na tentação de substituir progressivamente o juízo humano pelo cálculo algorítmico.

Esta mudança de época tem subjacente um novo paradigma: a passagem da aceitação da imperfeição humana para a procura de uma ilusória perfeição tecnológica. Porém, a tradição cristã, reafirmada pelo Papa ao longo de todo o texto, sempre viu na vulnerabilidade humana não uma falha a corrigir, mas um lugar de encontro, de aprendizagem e até de revelação. O Deus da Bíblia manifesta-se precisamente na fragilidade da condição humana e não na sua substituição por mecanismos perfeitos.

Por isso, o Papa alerta para o risco de uma sociedade, que delegue as suas decisões fundamentais em algoritmos, empobrecer a sua própria humanidade. Acresce, um segundo perigo: estamos a confiar processos decisivos a sistemas desenvolvidos e controlados por um número reduzido de agentes económicos, capazes de investir recursos quase ilimitados na corrida tecnológica. Em muitos casos, a definição de prioridades políticas, económicas e sociais acaba por ser influenciada por modelos matemáticos cuja lógica permanece inacessível à maioria dos cidadãos. O exemplo da guerra é particularmente dramático. Quando a vida humana passa a ser reduzida a probabilidades, padrões ou índices de eficiência, torna-se urgente recordar que cada pessoa possui uma dignidade infinita que não pode ser calculada nem quantificada. A tradição cristã sempre insistiu que a pessoa é um fim em si mesma e nunca um meio para alcançar objetivos estratégicos.

O paradoxo é evidente: nunca tivemos acesso a tanta informação e, no entanto, nunca pareceu tão difícil construir consensos e promover uma verdadeira cultura do encontro.

Uma das muitas perguntas que a encíclica coloca é, por isso, simples e inquietante: quem decide, em última instância, aquilo que é bom para o ser humano?

Como no episódio bíblico da Torre de Babel, apresentado pelo Papa na encíclica, permanece atual a tentação de acreditar que o progresso técnico, por si só, poderá resolver os problemas fundamentais da condição humana. Mas, ao admitir que sistemas de inteligência artificial determinem decisões que sempre estiveram à responsabilidade do homem, a humanidade aproxima-se de um ponto de inflexão histórico, em que a confiança nas capacidades das tecnologias cresce muitas vezes na proporção inversa ao apreço pelo conhecimento, pela formação intelectual e pelo pensamento crítico, questões profundamente humanas.

Ao mesmo tempo, diz o Papa, os algoritmos contribuem frequentemente para a fragmentação do espaço público, alimentando polarizações políticas e sociais. O paradoxo é evidente: nunca tivemos acesso a tanta informação e, no entanto, nunca pareceu tão difícil construir consensos e promover uma verdadeira cultura do encontro.

Resulta assim claro que as “coisas novas” do mundo de hoje, trazem consigo sombras ameaçadoras que podem oprimir a humanidade em diferentes domínios. Como há 135 anos, alertava o seu homónimo Leão XIII sobre o impacto da revolução Industrial na vida das pessoas e das sociedades, também agora Leão XIV alerta para questões sombrias que afetam todos os domínios da sociedade, até nas condições de trabalho, curiosamente. Foi o que disse Cristopher Olah, cofundador da gigante Anthropic, convidado do Papa para um encontro no Vaticano. E disse mais: se milhões de pessoas forem afetadas por processos de substituição tecnológica, apoiá-las não será apenas uma exigência económica, mas um imperativo moral de proporções históricas.

O futuro não será salvo pela inteligência das máquinas, mas pela sabedoria das pessoas.

A Igreja, diria eu, deverá estar, como está agora, na primeira linha da defesa daqueles que correm o risco de ficar para trás, recordando aos governos e às instituições que o valor de uma pessoa não depende da sua produtividade.

Por tudo isto, a questão colocada pela encíclica Magnífica Humanidade não é, portanto, saber até onde poderá chegar a inteligência artificial, mas até que ponto seremos capazes de preservar e fortalecer aquilo que nos torna verdadeiramente humanos.

A resposta da Igreja é clara: o futuro não será salvo pela inteligência das máquinas, mas pela sabedoria das pessoas. E essa sabedoria nasce da consciência de que a técnica deve estar ao serviço da humanidade e nunca a humanidade ao serviço da técnica. Só quando a inteligência artificial caminhar lado a lado com uma inteligência social, moral e espiritual seremos capazes de construir um futuro verdadeiramente digno do ser humano criado por Deus.

Será possível com o atual estado da arte? A responsabilidade é só nossa, adverte o Papa. E o plural não é majestático! Há, no presente da História, um apelo claro à conversão pessoal e coletiva. O que não é pouco…Podemos não ter, e o Papa não tem, respostas prontas e definitivas para enfrentar o problema, mas temos valores que contribuem para um discernimento individual e coletivo, que não são negociáveis para a Igreja, como o é a dignidade humana e supremacia do humano sobre a tecnologia, única condição para a construção de uma “civilização do amor”.

A tecnologia pode ampliar capacidades, mas não cria talento, consciência, sabedoria ou sentido. Da mesma forma, nenhuma máquina poderá substituir a singularidade da pessoa humana, esse ser capaz de amar, de criar, de sofrer, de esperar e de procurar Deus. Esta é a única certeza que o Papa nos apresenta.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.