À noite na cidade: a casa somos nós - Ponto SJ

À noite na cidade: a casa somos nós

Nesta primeira edição em que o palco do À noite na cidade foi o próprio CUPAV e este, na sua versão renovada, abriu as portas à comunidade, ficou a certeza de que uma casa não se constrói só com paredes, mas com pessoas.

Cerca de duas mil pessoas responderam ao convite do Centro Universitário Padre António Vieira (CUPAV) para participar em mais uma edição no À Noite na Cidade, no dia 30 de junho. Na sua 14.ª edição, a iniciativa voltou a cumprir a sua vocação: levar a oração para o coração da cidade de Lisboa, fazendo dos seus espaços públicos lugares de contemplação, escuta e celebração.

Foi ao final da tarde que a multidão começou a chegar aos poucos ao Parque da Quinta das Conchas. À medida que as mantas e almofadas cobriam a relva, criava-se um ambiente de serena expectativa e famílias, jovens, pequenos e graúdos, preparavam-se para participar naquele que é o momento mais marcante e que encerra o ano pastoral do CUPAV.

No momento da abertura, o diretor do CUPAV, P. Nuno Branco, sj, acolheu os participantes e apresentou o imaginário espiritual que guiaria todo o percurso da noite. Inspirando-se no pensamento do monge trapista Thomas Merton e na espiritualidade inaciana, bem como na história do povo de Israel, lançou o desafio de descobrir Deus no meio da vida quotidiana, no ritmo acelerado da cidade e nas realidades concretas do mundo.

Sob o lema deste ano “Foi na esperança que fomos salvos” (Rom 8,24), a oração guiada conduziu os participantes por uma reflexão sobre a esperança como caminho de liberdade. Na meditação proposta, foram identificados os “faraós” que habitam o coração humano: o apego, a autossuficiência que tudo justifica e a inércia que paralisa. Vozes interiores que alimentam o medo, a dúvida e a resistência à mudança.

Na meditação proposta, foram identificados os “faraós” que habitam o coração humano: o apego, a autossuficiência que tudo justifica e a inércia que paralisa. Vozes interiores que alimentam o medo, a dúvida e a resistência à mudança.

A partir dessa reflexão, a noite ganhou movimento. Em silêncio e recolhimento, os participantes iniciaram uma caminhada pelo Parque das Conchas e pela Alta de Lisboa, escutando as meditações preparadas para o percurso. Como o povo de Israel atravessando o deserto, cada passo tornou-se expressão de confiança num Deus que permanece fiel às suas promessas mesmo nos momentos de incerteza, impaciência ou dúvida.

A chegada ao recinto da Cúria Provincial dos Jesuítas, mesmo ao lado do CUPAV, teve um significado particular. O espaço tornou-se símbolo da terra prometida, uma casa de esperança que acolhe agora o novo CUPAV. Foi aí que os participantes foram surpreendidos por um espetáculo de música, teatro e luz que iluminou a fachada do edifício e deu corpo ao tema da noite.

Criada especificamente para esta edição do À Noite na Cidade, a produção artística, encenada e coreografada pela atriz Leonor Prata Felgar, contou com um elenco de jovens e talentosos atores e cantores que deram vida à história de vizinhos que vivem lado a lado, mas separados pela pressa, pelos telemóveis e pelas rotinas. Tudo muda quando desaparece a rede que os liga ao mundo digital e são obrigados a reencontrar-se uns aos outros. Entre música, dança e representação, ecoou uma frase que permaneceu na memória de muitos: “Os prédios são paredes; a casa somos nós.”

Após o jantar, distribuído pelo recinto da Cúria, a noite culminou na celebração da eucaristia no novo CUPAV. O espaço, ainda antes de ter a sua inauguração oficial que está prevista para o arranque do próximo ano letivo, acolheu o primeiro grande evento público. A missa foi presidida pelo P. Miguel Almeida, sj, provincial cessante dos Jesuítas em Portugal, contando também com a presença do novo provincial, P. António Valério, sj. Na homilia, o P. Nuno Branco lembrou a promessa da salvação de Deus e que somos todos peregrinos: “o Senhor quer-nos como gente salva, e que a salvação vive-se na partida mas também na chegada, no recuar e no aproximar”. Desejou ainda que cada um possa “habitar este lugar saudável de tensão”, sublinhando que o CUPAV deseja ser uma “casa que se espera ser farol e luz “.

Nesta primeira edição em que o palco do À noite na cidade foi o próprio CUPAV e este, na sua versão renovada, abriu as portas à comunidade pela primeira vez, ficou a certeza de que uma casa não se constrói apenas com paredes, mas com pessoas e vontade de fazer caminho juntas.

Desde 2012, o À Noite na Cidade convida Lisboa a abrandar. A interromper, por algumas horas, o ruído das agendas e das notificações para abrir espaço ao silêncio, à oração e ao encontro. Mais do que um evento, é uma experiência espiritual que procura levar a fé para os lugares emblemáticos da cidade, transformando ruas, jardins e edifícios em cenários de peregrinação interior.

Créditos das Fotografias: CUPAV