Perguntaram-me recentemente se conseguia apresentar a espiritualidade dos jesuítas em cinco minutos. Este é um desafio difícil e quase insuperável, pois tendemos a falar da história da Companhia, da vida de Santo Inácio de Loiola ou condensar tudo no discernimento, quando este é um instrumento e não um fim. No meio da minha atrapalhação, recordei-me do texto que inaugura os exercícios espirituais: o Princípio e Fundamento.
Para quem não conhece, eis o que diz a primeira parte do Princípio e Fundamento:
“O homem é criado para louvar, prestar reverência e servir a Deus nosso Senhor, e mediante isto salvar a sua alma”.
Para Santo Inácio, este era o ponto de partida de tudo e o chão firme no qual dava cada um dos seus passos de peregrino. Lendo-o com minúcia, conseguimos entrar no segredo e na profundidade destas breves linhas.
Começamos por cair na conta de que cada um de nós é criado, isto é, que não se inventa a si mesmo. Há um Criador no início de tudo, Criador esse que é Deus como foi revelado por Jesus, um Deus de amor.
Sem explicitamente o apregoar, partimos da convicção de que fomos criados por amor e em amor, ao que Santo Inácio de Loiola acrescenta um “para”: “louvar, prestar reverência e servir a Deus, nosso Senhor”. No meu entender, estas três ações podem convergir num “para amar”, pois “louvar, presentar reverência e servir a Deus nosso Senhor” é amar Deus e os irmãos.
As palavras “louvor” e “reverência” podem não ser muito claras hoje em dia, pelo que é bom refrescar a nossa memória. “Reverenciar” pode-se apresentar como reconhecer a diferença entre mim e um outro; não é subjugação, mas um profundo respeito e reconhecimento do outro como outro. Quanto a “louvor”, é um canto de ação de graças movido pela alegria. Assim, quando nos encontramos com o “para” que Santo Inácio nos propõe (“louvar, prestar reverência e servir a Deus nosso Senhor”), podemos entendê-lo como: “alegrar o amor, reconhecer o amor e responder amorosamente”, pois o que é o serviço senão uma resposta aquele que nos amou primeiro?
O Princípio e Fundamento de Santo Inácio é um texto exigente de decifrar, mas do qual nos podemos apropriar rezando, criando espaço no nosso coração para recordar que cada um de nós foi criado por amor, em amor e para amar. Neste amar encontramos uma vida que leva ao canto, em que reconhecemos, alegramos e respondemos generosamente ao amor de todo o coração, vivendo desta forma a salvação oferecida pelo nosso Deus, isto é, a alegria plena.
O “Princípio e Fundamento” de Santo Inácio de Loiola é a joia dos Exercícios Espirituais. É o grande pórtico de entrada e segredo para uma vida bem vivida. É luz para cada um dos nossos dias e para as decisões a que somos chamados. É para nós, como para Santo Inácio, ponto de partida da peregrinação da nossa vida e chão para os nossos passos.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
