Penso que nunca assisti a tantas conversas sobre política como durante a campanha para as eleições presidenciais. Para isso contribuiu, sem dúvida, o facto de terem sido as primeiras eleições em que houve dúvidas quanto ao resultado nos últimos vinte e cinco anos. Infelizmente, a falta de entusiasmo em relação aos candidatos também contribuiu muito para a proliferação destas conversas.
Se o debate abundou entre tantos de nós, na maior parte das vezes o tom foi de algum desânimo perante a escolha a que éramos chamados.
A segunda volta das eleições não veio acalmar as conversas; pelo contrário, trouxe à superfície algo que já era visível anteriormente, mas que se tornou de tal forma presente que, para mim, se tornou quase opressivo.
O debate da segunda volta tem sido marcado por um enorme fervor, entre os que juram que o país está prestes a tornar-se socialista e os que bradam que a democracia está em perigo. Qualquer hipótese de diálogo parece ter-se perdido: ou se está com a direita ou com a esquerda, com a liberdade ou com o socialismo, com a democracia ou com o fascismo.
E o que temos nós para oferecer?
Evidentemente, esta tensão não surgiu com estas eleições. A crispação do debate presidencial é fruto de uma sociedade há muito polarizada, onde se vão construindo trincheiras para defender causas consideradas justas contra os monstros que se nos opõem.
É fácil atribuir esta conjuntura ao Chega, que fez deste pensamento estratégia política. Mas o partido de André Ventura não é a causa, é a consequência de uma política onde, há demasiado tempo, toda a oposição é tratada como inimiga. Ousaria dizer que a forma como qualquer pessoa que se manifestasse contra a agenda progressista era automaticamente taxada de extremista contribuiu, e muito, para a frustração que Ventura tão bem tem explorado.
Por isso, perante uma sociedade e uma situação política tão fraturadas, onde quem pensa de forma diferente de mim é reduzido a uma categoria que o transforma num adversário a abater, o que temos nós para oferecer?
A política das trincheiras tem como consequência a terra queimada.
Tenho-me lembrado muitas vezes de um texto de 2013 do padre Julián Carrón, então presidente da Fraternidade de Comunhão e Libertação, sobre a situação política em Itália, onde afirmava:
«Reconhecer o outro é a verdadeira vitória para cada um e para todos. Os primeiros a serem chamados a percorrer este caminho, tal como sucedeu no passado, são precisamente os políticos católicos, qualquer que seja o partido em que militam. Mas também eles, infelizmente, muitas vezes se mostram mais definidos pelas filiações partidárias do que pela autoconsciência da sua experiência eclesial e pelo desejo do bem comum. No entanto, justamente a sua experiência de sermos «membros uns dos outros» (São Paulo) permitir-lhes-ia um olhar sobre o outro como parte da definição de si e, portanto, como um bem.»
Confesso que, na altura, quando se travavam tantos combates políticos considerados fundamentais, as palavras do padre Carrón não me pareceram óbvias. Hoje, olhando para a política — não apenas em Portugal, mas no mundo — vejo-as como proféticas.
A política das trincheiras, onde se perfilam os politicamente puros, onde cada fação que chega ao poder destrói tudo o que a anterior fez, onde não é possível qualquer diálogo, tem como consequência a terra queimada. A única possibilidade de construir algo em política é, como dizia o padre Carrón, esta forma de olhar o outro como um bem.
Ou seja, reconhecer, mesmo no adversário político, alguém que tem o mesmo desejo de bem, de justiça e de felicidade que eu tenho. Alguém que também deseja o bem comum, ainda que o veja de forma diferente daquela como eu o vejo.
Para construir pontes é preciso margens
Afirmar que o outro pode ser um bem para mim não significa que o outro esteja sempre certo, ou que aquilo que defende seja, em si mesmo, um bem. Nem significa abdicar da defesa da Verdade em nome de um suposto diálogo. Uma pessoa pode ser movida pelas melhores intenções e, ainda assim, defender o maior dos males.
Não é possível construir uma ponte se não soubermos onde estão as margens, ou se estas estiverem constantemente a deslocar-se. Ter consciência da humanidade do outro, do seu desejo de bem, também passa por testemunhar a Verdade que encontrámos, estando simultaneamente dispostos a ouvir e a reconhecer no outro a centelha de humanidade que vive no coração de cada homem.
Não se confunda esta abertura ao outro com um “bonismo” que tudo aceita, tudo relativiza e tudo trata como um bem. Não é disso que se trata. Trata-se apenas da consciência de que mesmo aqueles que defendem as coisas mais terríveis — do aborto ao racismo — são constituídos pelo mesmo desejo que eu. E de estar disposto a percorrer com cada um caminho, nem sempre fácil, em direção a uma possível comunhão.
Esta proposta tem um limite claro: depende sempre da liberdade daqueles com quem nos cruzamos. Por muito que estejamos dispostos a construir o bem comum com quem de nós discorda, o outro pode sempre recusar.
Mas, neste tempo de atritos, discórdia e polarização, penso que aquilo de mais importante que podemos oferecer é esta consciência de que o outro — mesmo o adversário político — tem a possibilidade de um bem.
Então, em quem votamos?
Esta parece ser a pergunta dominante nos dias que antecedem a segunda volta das eleições presidenciais. Confesso que, apesar de perceber a dramaticidade dos nossos tempos, não é essa a questão que mais me preocupa.
O voto é um juízo sobre uma escolha concreta numa circunstância concreta. No dia 8 de fevereiro, como em quase todas as eleições, não vamos escolher o candidato que queremos, mas um dos que existem. Desde que sou eleitor, foram poucas as vezes que votei na pessoa que considerava a melhor para o cargo em disputa; em geral, tenho votado no “melhorzinho” ou no “menos mau”. E no dia 8 não será diferente, embora admita que será talvez a eleição em que votarei com menos entusiasmo.
O problema não é se votamos em Seguro ou em Ventura, em branco ou nulo, ou se nem sequer vamos votar. Existem razões variadas para todas estas escolhas, e nenhuma delas expressa obrigatoriamente apoio a um candidato; exprime apenas que, entre as opções possíveis, aquela nos pareceu a mais razoável.
O problema essencial destes tempos que somos chamados a viver é a consciência com que estamos perante a política: se estamos dispostos, num mundo fracionado, a olhar para o outro — mesmo para aquele que defende ideias que nos repugnam — como uma possibilidade de bem, ou se preferimos contribuir para uma cultura de trincheiras que transforma a política numa terra de ninguém, onde apenas resta terra queimada.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
