Existe uma tensão constante implícita à nossa condição humana: a vontade de corrigir o que consideramos ‘estragado’ em nós e a realidade inegável da nossa fragilidade. Faz já algum tempo que tenho refletido sobre este assunto, à luz das palavras de São Paulo: “Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza” (2Cor 12,9). Tendemos a acreditar que possuímos as ferramentas para atingir um estado de perfeição, mas essa busca é, muitas vezes, o maior obstáculo à verdadeira paz.
O Homem tende, por defeito, em querer corrigir o que está menos bom dentro de si, o que é “podre”. Acredita que tem em si reunidas todas as ferramentas necessárias para ser perfeito. Mas o que é por vezes muito complicado de compreender é que a perfeição, entendida como ausência de erro ou supressão de toda a falha, é uma utopia e não existe na nossa condição humana. Estamos a ambicionar algo que não somos, nunca seremos, e que não temos capacidade de alguma vez o ser. A perfeição existe, e é Deus. Em vez deste desejo de corrigir tudo o que temos de mal para ser perfeitos, devíamos antes ambicionar ser santos, a perfeição humana por excelência, a comunhão com Deus ainda que com passos mal andados
Somos convidados a viver santamente a partir de tudo o que somos
Ser santo é participar na perfeição de Deus, à qual somos todos chamados, e que só nos é possível pela graça. A santidade tem muito menos a ver com a perfeição do que julgamos. A busca da santidade não é uma busca de uma perfeição moral, é um modo de viver. Viver a santidade é viver uma relação ativa com Deus, dentro da nossa vida real – nas nossas misérias, nos nossos fracassos, nas nossas desilusões, nas nossas feridas. Isso é o que torna a santidade algo difícil de alcançar. Todos nós somos convidados a vivê-la, mas este ato de submissão, de humildade – este sim, absolutamente nu, a deixá-Lo entrar e purificar tudo o que somos – assusta-nos. A nossa tendência para corrigir-nos e aperfeiçoar-nos a cada passo para sermos o mais perfeitos possível “para que Deus nos ame”, impede-nos de viver neste caminho para a santidade, impede-nos de viver em paz.
Mas então o que é a paz? No dicionário é descrita como “estado de calmaria, de harmonia, de concórdia e de tranquilidade; calma, serenidade, quietude.” Ou “ausência de guerra ou de conflito”. É descrita como a “falta de problemas”. Mas então como é possível vermos pessoas em paz no meio de uma guerra? E, por outro lado, porque é que eu, a quem tudo parece correr bem, sem enfrentar de momento qualquer conflito particular na minha vida, tenho dias… em que não me sinto em paz? Nós sabemos a resposta. A paz que me falta, que arrisco dizer que falta a cada um de nós, é um dom a acolher, é uma paz fruto de um encontro verdadeiro com Jesus.
Jesus ama-nos infinitamente, e é imperativo termos consciência disto na nossa maneira de viver. “Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar.” (Jo 8, 11) Ele acolhe-nos por inteiro, ama-nos por inteiro, mas não aprova tudo o que fazemos. Somos convidados a viver santamente a partir de tudo o que somos, mas para isso é preciso assumir a nossa vulnerabilidade, a nossa condição de seres vulneráveis.
A ferida faz parte da condição humana
Vulnerabilidade é palavra que carrega um peso negativo, é uma condição vista como mera e dispensável fraqueza. Contudo, assumi-la é dos atos mais corajosos que podemos fazer, pois é aderir à humildade de acolhermos quem e como somos: filhos, e por isso dignos; limitados, imperfeitos, e por isso necessitados de graça. Temos consciência de que Deus nos ama infinitamente, mas optamos por atuar de forma a garantir o seu amor. Desta forma, caímos no erro de procurar a perfeição autossuficiente em vez da santidade, da vida da graça, em abertura para a paz como dom.
A ferida faz parte da condição humana. Nós também somos frágeis, e também somos limitados. Falhamos vezes sem conta. Tentamos constantemente fugir a esta realidade, que é também condição da nossa salvação. É necessário reconhecer que Deus ama aquilo que somos, não aquilo que tentamos mostrar. O amor incondicional de Deus por nós não está dependente daquilo que somos ou que fazemos. Está apenas dependente de quem Ele é. Por isso é que esta paz é possível, porque não vem de nós. Não é fabricável, é um dom de Deus. Temos de cuidar das nossas feridas, mas temos de deixar espaço para o dom. O caminho para a paz, para a comunhão plena com Ele, começa na ferida, quando percebemos que nesta podemos crescer e caminhar em direção à luz. Ele chama-nos para sermos santos, e chama a totalidade de quem somos.
A paz que devemos buscar é uma paz que surge de um ato de passividade, de humildade. A passividade de deixar que Deus atue na minha fragilidade, de me deixar amar pelo que sou. Uma passividade que é ativa, que é uma escolha diária e deliberada em reconhecer que este pressuposto da fragilidade não é um final, mas um começo. O caminho para a paz começa na cruz… já tivemos a prova de que ela não é o fim.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
