20 anos se passaram desde aquele fatídico instante em que fui acordado a meio da noite, em Maputo, com as terríveis notícias: “A Fonte Boa foi assaltada de novo e mataram a Lina e o P. Waldyr!”. 20 anos se passaram num ápice, mas não há praticamente dia em que não recorde a Lina e o P. Waldyr, em que não peça a sua intercessão, em que os meus olhos não se fixem na foto da Lina que guardo junto da secretária de trabalho. É para mim, por isso, um privilégio, escrever estas breves notas em memória destes dois companheiros de missão ao serviço dos Leigos para o Desenvolvimento em Moçambique.
Ninguém que tenha conhecido a Lina esquece as suas grandes qualidades humanas. Ficaram bem impressas na memória de todos a sua imensa dedicação, a doação plena de si em tudo o que fazia, a sua coragem indómita, a energia física que parecia inesgotável. Assim que a conheci, naqueles inícios de 2006, logo me apercebi da sua extraordinária força de carácter, a vontade de fazer bem as diversas atividades que lhe estavam confiadas na Missão da Fonte Boa.
O ano de 2005 tinha sido de seca extrema naquela região e, por isso, as colheitas tinham sido muito fracas, o que resultou numa situação de carestia alimentar generalizada para uma população que vive basicamente da agricultura de subsistência. A Lina não ficou a assistir pesarosa nem a carpir as mágoas da impotência. Deixou-se tocar por dentro, no íntimo da sua alma, e questionou a Deus: “O drama repete-se desde há um mês para cá: a fome está a assolar o povo moçambicano! Os trabalhadores pedem de comer na vez do dinheiro; trabalhadores que se ajoelharam a pedir milho, trabalhadores que choravam a pedir de comer, trabalhadores que não queriam ir embora para suas casas, homens e mulheres a pedir ajuda, crianças a morrer de fome, famílias inteiras com os pratos vazios, mães que têm seus filhos e não têm que comer (…). Que realidade é esta? Meu coração se enche de compaixão, de tristeza. Fui à missa no final da tarde e só consegui chorar, implorando a Deus para que ajude esta gente” (05/12/2005). E Deus ajudou pelas mãos da Lina. De imediato, se entregou de alma e coração na entrega de apoio alimentar de urgência em diversas aldeias da área da Missão. Assim como se entregou ao trabalho na exploração agrícola ali desenvolvida e à supervisão dos trabalhadores, à distribuição e plantio de mudas de árvores na luta insana contra o triturador desflorestamento em curso, às viagens a Tete ou Ulongwe para a venda dos produtos, ao projeto dos lares de órfãos em 6 aldeias devido à pandemia da SIDA.
A Lina era uma pessoa de grande coragem. Recordo ouvir contar um episódio em que a Lina interveio à porta de um bar, na Vila Ulongwe, para ir em auxílio de umas moças que estavam a ser molestadas, apesar do perigo para a sua própria segurança pessoal. Estou plenamente convencido, como muitos outros, que a morte da Lina se deveu em grande parte a esta sua coragem. Naquela trágica noite correu, talvez sem se dar conta, ao encontro dos facínoras que a vitimaram porque queria pegar no carro dos Leigos para ir procurar auxílio que viesse socorrer os jesuítas e o companheiro de missão Fernando Carvalho, primeiros naquela ocasião que, no andar de cima, sofreram o bárbaro ataque de que a Missão da Fonte Boa foi alvo.
Mas a Lina era, sobretudo, uma pessoa de fé. O contacto com a Lina permitia logo perceber por que estava em missão: sentia-se enviada por Jesus, tinha chegado à Fonte Boa ao serviço de Jesus e dos mais necessitados, sentia-se Sua discípula em tudo o que fazia e procurava encontrá-Lo na pessoa de todos aqueles com quem se relacionava.
A Lina sentia-se enviada por Jesus, tinha chegado à Fonte Boa ao serviço de Jesus e dos mais necessitados, sentia-se Sua discípula em tudo o que fazia e procurava encontrá-Lo na pessoa de todos aqueles com quem se relacionava.
A Lina nasceu no dia de Natal de 1975. Sinal misterioso do que viria a ser sua vida, em que veio a unir-se tão radicalmente ao mistério da Encarnação? Com o sentimento de temor e respeito de Moisés diante da sarça ardente, revisito alguns dos escritos espirituais da Lina. Estes escritos são como que uma janela entreaberta para a sua rica vida interior, desvelam uma fiel discípula de Jesus. Surpreende a sua facilidade de falar de Deus com a maior simplicidade. Não tendo tido formação inaciana, a vida interior da Lina fala-me de alguém que procurava “buscar e encontrar a Deus em todas as coisas”.
Eis as suas palavras em fevereiro de 2005, durante o ano de preparação para a partida em missão ao serviço dos Leigos, ao abrir as janelas para ver nevar diante do seu escritório: “O meu primeiro pensamento, claro, foi para Ele, desejando-o falar-Lhe, vê-Lo junto a mim, como que querendo que também Ele sentisse o mesmo que estava a sentir perante a maravilha da natureza. (…) Foi assim que Deus entrou e penetrou na minha alma, tomou conta da minha voz e o canto saiu «Hoje deixa-me cantar o meu amor que vieste à minha vinha – Como Te pagarei». Enquanto permanecia à beira da janela e cantava, ainda na rua passaram algumas pessoas, e com receio talvez de me ouvirem e estranharem, abrandava o tom e o volume da minha voz, embora, simultaneamente, não me importava muito, se, por acaso, ouvissem. Quem sabe se não pensavam que era de alegria, sim um grito de alegria e de graças. (…) Por muito que seja o nosso esforço, luta ou ciência para alcançar o nevar, ela [a neve] nunca se fará nossa. Talvez se faça… seja de um só – Deus. E Este, pelo seu grande amor, no-la oferece de quando em vez. (…) Amo-O em silêncio e Este sim, permanecerá em mim”.
Já em missão, num texto manuscrito, virá a proferir estas palavras premonitórias: “O meu sim a esta missão em concreto, «eis a escrava do Senhor». Aconteça o que acontecer, ajuda-me Maria a permanecer em Missão, ao serviço destas pessoas em concreto e a Deus e ao teu filho”. Aconteça o que acontecer. Escreverá depois: “É bom estar Onde Estou. Hoje na missa agradecia e renovava o meu baptismo, a fé e a educação cristã que recebi, agradecia por conhecer Deus e de Ele querer me conhecer. A minha vida tem sentido Onde Estou” (13/02/2006).
Deixemos que a Lina nos diga o sentido que encontrava em ser missionária, dirigindo-se ao seu irmão Albertino e cunhada: “Estou em missão para servir e não para ser servida, não com sacrifício, mas com um amor e entrega livre que Deus me ensina e renova cada dia, por isso, esta missão é d’Ele e eu sou apenas um membro da sua Igreja, um instrumento… (…) É um sonho estar aqui, estar em missão e realizá-lo é maravilhoso, é saber que quando morrer posso olhar para trás e sorrir e morrer feliz: consegui!” (01/07/2006). Já antes, no início da sua missão, precisamente um ano antes da sua morte (06/11/2005), cantava:
É este o tempo favorável… 2 Cor 6, 2
É assim que sinto este tempo de missão, este tempo de estar aqui.
O tempo favorável para estar mais com Deus, de ser mais de Deus…
O tempo para deixar crescer Deus em mim,
O tempo para viver mais Deus, amar mais a Deus e sentir-me mais amada por Deus.
O tempo para viver, ouvir, sentir, saborear, tocar mais Deus e as coisas de Deus.
O tempo para tomar consciência que tudo o que existe é de Deus e para Deus, tudo quanto existe é amado por Ele,
é querido e desejado por Ele.
De igual modo, esta gente, toda a gente, é amada e querida de Deus;
este Tempo é querido e desejado por Deus
tanto quanto ou mais do que é amado por mim.
O Deus da Lina chama-nos pelo nome: “Quem é este que chama, que pede, que deseja? Deus nos chama pelo nome, Deus nos pede: vem a Mim, Deus nos deseja desde as entranhas, desde o seio da nossa mãe. E nós? Sentimos desejo de Deus, Chamamo-Lo? Mostra-me o Teu rosto, faz-me ouvir Tua voz?” (22/12/2005). Mas, no mesmo escrito, nos desafia para a busca:
Só encontra quem procura!
«Procurai e encontrareis, pois quem procura encontra» Mt 7, 7-8.
Hoje, procurei a Deus, a Sua voz, o Seu rosto? Desejei a Deus, que Ele se fizesse presente?
Tanta gente que passou por mim, hoje.
Estive e falei com tanta gente,
levo no meu coração este e aquele,
senti, amei, chorei, peguei em tanta coisa
e o que sonhei?!
E quando parei para rezar, orar, pedir, contemplar?!
A música que escutei,
o quanto me entreguei no trabalho,
a chuva que vi cair através da janela ou enquanto conduzia,
as notícias que li no jornal,
se em tudo isto não encontro Deus, então
tenho de continuar a procurar,
a encontrar Deus,
pois só assim me encontrarei a mim e aquilo que desejo viver!
Já encontraste aquele, aquilo que buscas?
O que desejas no íntimo do teu coração?
Buscas a vida, o sentido da vida?
buscas o amor, o batido do teu coração?
Ainda buscas?
Ó meu querido P. Waldyr, quase fico sem tempo e espaço para te dizer quantas boas memórias guardo de ti: o teu empenho, carinho, bom conselho, no trabalho com os jovens em que te conheci, tanto em Matacuane, na Beira, como na Fonte Boa; a tua dedicação e colaboração incansável na reabilitação dos espaços do Centro P. Cirilo; o teu apurado sentido de justiça, a tua recusa frontal da corrupção – aqueles elementos que tenho a máxima certeza que ajudam a deitar luz sobre os factos que concorreram para a tua morte. Dizias-me ter ouvido dos teus maiores que algum dos teus antepassados tinha chegado ao Brasil levado desde Moçambique. Repousa agora até ao despertar da eternidade o teu corpo no solo moçambicano que amaste e serviste.
“As almas dos justos estão nas mãos de Deus e nenhum tormento os atingirá. Aos olhos dos insensatos pareceram morrer, a sua saída deste mundo foi tida como uma desgraça, a sua morte, como uma derrota. Mas eles estão em paz” (Sab 3, 1-3).
PS – As citações são tiradas do livro Idalina Gomes, Confidências de uma alma inquieta, edição do Município de Aguiar da Beira, 2008.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
