O santo do coração que fala - Ponto SJ

O santo do coração que fala

Aqueles missionários dedicaram a vida a proteger e elevar o povo guarani, criando nas Reduções Jesuíticas espaços onde fé, cultura e justiça se encontravam.

Não sou muito de rezar a santos. Tenho a petulância de ter alguns como modelo de vida, mas de achar que não preciso de intermediários para chegar a Deus. E, no entanto, por terras latino-americanas, ouvi um coração que me falou, chamou e levou, com mais um grupo igualmente incrédulo, a ir celebrar com ele. Um coração que nos ensinou a terapia da “fala dos corações”, que treinámos em conjunto durante onze dias. Todos sentimos a sua proteção e, por seu intermédio, ouvimos as melodias celestiais de índios guarani que ressoam até aos dias de hoje.

Há quase quatrocentos anos, a 19 de novembro de 1628, São Roque González de Santa Cruz preparava a inauguração do sino da nova igreja na aldeia dos índios guaicurus, em Caaró, no Brasil. O ambiente era de alegria e expectativa. O povo reunia-se em volta do templo, e tudo parecia decorrer com normalidade. No entanto, em segredo, estava já combinado o assassinato dos padres Roque González de Santa Cruz e Afonso Rodríguez, urdido pelo pajé da aldeia, hostil à presença dos missionários jesuítas.

Durante a cerimónia, um pequeno grupo de revoltosos misturou-se entre os fiéis. No momento em que o padre Roque se inclinou para levantar o sino, recebeu dois golpes de machado de pedra na cabeça, caindo mortalmente ferido. O padre Afonso foi também atacado da mesma forma. De seguida, os agressores incendiaram a igreja, retalharam os corpos dos dois mártires e lançaram-nos às chamas. No dia seguinte, voltaram ao local para verificar as ruínas. Foi então que, segundo o testemunho dos presentes, do peito do corpo do padre Roque pareceu ouvir-se uma voz a dizer: “Meus filhos, ainda que me matem, não me afastarei de vós.”

Aterrorizado, o cacique ordenou que o corpo fosse aberto e o coração arrancado. Espetou-o numa seta e atirou-o novamente ao fogo. Contudo, o coração do padre Roque não foi consumido pelas chamas. Permaneceu intacto, sinal de um milagre extraordinário. Alguns cristãos recolheram-no e guardaram-no com grande veneração. Atualmente, o coração de São Roque González encontra-se preservado e exposto na Capela dos Mártires do Colégio Cristo Rei, na cidade de Assunção, Paraguai, onde é venerado como uma relíquia sagrada. E foi lá, junto a esse coração, que celebrámos a nossa primeira eucaristia Foi lá, que começámos a nossa história de amor com estes missionários de há quatrocentos anos, na esperança de um contágio de que o nosso mundo tanto precisa.

Nas Reduções Jesuíticas, os guaranis encontraram um refúgio, não apenas físico, mas também espiritual e cultural.

Uma certeza habitou-me, dia após dia, missão após missão: a história de São Roque González de Santa Cruz e dos seus companheiros jesuítas é uma das páginas mais luminosas da evangelização e da defesa da dignidade humana. No século XVII, esses missionários dedicaram a vida a proteger e elevar o povo guarani, criando nas Reduções Jesuíticas espaços onde fé, cultura e justiça se encontravam.

Roque González, Afonso Rodríguez e João del Castillo chegaram a terras guarani num contexto de profunda violência colonial. Os indígenas eram perseguidos, escravizados e tratados como inferiores. Diante disso, os jesuítas não vieram impor uma cultura, mas criar uma ponte entre duas civilizações.

Nas Reduções Jesuíticas, os guaranis encontraram um refúgio, não apenas físico, mas também espiritual e cultural. Ali aprenderam a ler, a cantar, a cultivar a terra de forma comunitária e a expressar a fé com arte e dignidade. Os missionários lutaram para que os indígenas fossem reconhecidos como pessoas, com alma, razão e direitos, algo revolucionário para a época.

Essas comunidades, organizadas em torno do Evangelho, eram também um ato político de resistência: protegiam os guaranis dos colonizadores e dos traficantes de escravos. A fé cristã tornava-se, assim, libertadora. Roque González e os seus companheiros foram mortos por defender essa visão — a de que toda a pessoa humana é imagem de Deus e deve viver em liberdade.

Acabei a minha viagem interior a ouvir vozes de então (efeitos da canha que por lá provámos, ou dos tereré que por cá continuamos a beber?), a escutar corações e a sentir vergonha – própria e alheia – por ouvir vozes de agora que gritam: “volta para a tua terra!” Diante dos dramas dos imigrantes e refugiados que, hoje, buscam junto de mim um novo lar, a voz deste coração que me fala de terras longínquas e selvagens que escolheu para viver, não pode deixar de me interpelar: “Meus filhos, ainda que me matem, não me afastarei de vós”!

 

Nota: Os padres Roque González e Afonso Rodríguez, martirizados em Caaró a 15 de novembro de 1628, e João del Castillo, morto em Pirapó a 17 de novembro do mesmo ano, foram canonizados em 1988 pelo Papa São João Paulo II, durante a sua visita ao Paraguai.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.