O que há de santo no desporto? - Ponto SJ

O que há de santo no desporto?

Não se trata de separar o desporto corrompido do desporto santo, para fugir de um e procurar refúgio no outro. Como aprendemos vezes sem conta nesta busca de como ser santo, nunca será onde estamos, mas como estamos.

Escrevo sobre santidade e desporto, embora não seja especialista em nenhum; apenas adepta e praticante amadora com altas aspirações de ambos.

O que há de um no outro? O que há de desporto na santidade é que a prática consistente com os olhos postos em bom exemplos ajuda a chegar mais perto da meta. Relativamente ao que há de santo no desporto, tenho descoberto que, se quisermos, pode ser quase tudo.

Porque quero ser santo, levanto-me

Santo é o que se levanta. Por um lado, é aquele que acorda entre os adormecidos, que rompe com o que está estagnado e que revoluciona, mesmo que fazendo pouco barulho. Por outro lado, é aquele que não se deixa ficar derrubado e que escolhe voltar a estar de pé. Pensamos imediatamente naquilo que nos derruba nas relações e no quotidiano, mas devemos lembrar-nos de que a metáfora tem origem na realidade física e, por isso, através dessa realidade, podemos exercer este levantar santo. Pier Giorgio Frassati, o jovem santo alpinista, sabia-o; e, assim, levantava-se com gosto e percorria as montanhas, contra as adversidades físicas do caminho.

Um corpo não é mais do que um corpo

Vivemos um tempo em que o corpo é pensado mais do que é suposto, tendo sido autonomizado do resto e levando a que se idolatre o de uns e se condene o de outros. Esta autonomização e consequente escrutínio nascem de uma ausência de propósito para o corpo. Pensamo-lo em excesso porque já não precisamos dele. Quando o colocamos, porém, ao serviço de um jogo que desafia as suas capacidades, retornamos à origem e o corpo volta a ter o propósito único para o qual foi pensado: ser o motor físico que luta pelo nosso interior, como outrora o foi ao permitir ao ser humano procurar a sua sobrevivência.

Conheço o risco, tem o valor da minha entrega

Um dos aspetos que mais apaixona no desporto é o risco. O risco está presente pois a competição dentro de todas as modalidades é um confronto. Nesse confronto existe o risco físico; seja de não conseguir ultrapassar as limitações do corpo, seja de sofrer algum tipo de lesão. Mas o confronto comporta também outro tipo de risco: o de magoar o ego. Como disse o Papa Francisco na sua autobiografia, se “a liberdade é também risco”, arriscar magoar o ego, na derrota, ou o corpo, na disputa, é usar da liberdade em pleno. A liberdade de ganhar ou perder, sair ileso ou com alguma marca e mesmo assim saber o valor do jogo por si mesmo. Ao aceitarmos com tranquila determinação o risco, tiramos do pedestal tanto o ego como o corpo, reconhecendo que o valor de ambos só se potencia no encontro.

Desporto autenticamente feio 

Porque é que o desporto, que de belo tem tanto, tão rapidamente se torna feio? Nessas alturas poderemos ainda encontrar nele sementes de santidade? Aquilo que permite que tal aconteça é, no desporto, belo. Em nós, no entanto, pode revelar-se de forma feia. Quando testamos as capacidades físicas que possuímos contra as do nosso irmão entramos em contacto com toda a nossa autenticidade. Desperta-se em nós uma dor e frustração que não são possíveis de reprimir e uma felicidade e concretização que manifestamos em voz alta.

Trata-se de um acordo não escrito. No espaço do desporto podemos e devemos rir e chorar sem pedir desculpa. O que acontece é que passamos a conhecer os contornos das nossas partes feias. Contemplamos essas partes, todas as que vão mais longe do que a frustração, no confronto do desporto. Já viviam em nós, mas nada de tão puro e autêntico conseguira destapá-las até então. Se conseguimos sentir um êxtase completamente novo, também descobrimos em nós reflexos de que não nos orgulhamos. Ainda assim, tudo é bom. Encaramos o mau para escolher crescer.

Como hei de agradecer este presente?

Exercitar a santidade é usar tudo o que nos foi dado. Fazer render os nossos dons é um dever comummente repetido e verdadeiro, mas podemos ir mais além. Utilizar o que recebemos mesmo sem termos dons particularmente notáveis. Pensar primeiro no presente que nos foi dado em forma de corpo físico e só depois nos dons que podemos ou não ter. Se recebemos um presente, a melhor forma que temos de agradecer é usá-lo inteiramente e não venerá-lo e embelezá-lo, deixando-o quieto numa estante em exposição. Agradecer é não deixar nada na embalagem.

Escolho onde ver o caminho para ser santo

Restará dizer que, como todos os campos onde o ser humano se organiza social e politicamente, o desporto pode ser mal vivido. Porém, isso não lhe retira o valor intrínseco que possui; valor esse que pertence à prática e não a quem dela se apropria. Mais ainda, a sua propriedade eclética permite que este imenso valor seja encontrado em qualquer pátio ou pavilhão de bairro e não apenas nos campos que os holofotes iluminam e que as televisões transmitem.

Não se trata de separar o desporto corrompido do desporto santo, para fugir de um e procurar refúgio no outro. Como aprendemos vezes sem conta nesta busca de como ser santo, nunca será onde estamos, mas como estamos. Onde quer que desponte esta forma de expressão tão natural e apaixonante que é o desporto, poderemos ter um coração que escuta atentamente através dos músculos e aprender muita coisa sobre o modo como queremos viver.

 

“Façamos então a contagem e vejamos quem vem fazer equipa comigo;

vamos colocar dois sinais na terra e fingir que é uma baliza;

talvez o mais pé duro faça de guarda-redes ou todos façam um pouco de «guarda-redes voador».

Todos juntos a perseguir e a domar uma bola, não importa como te chamas, de quem és filho, de onde vens.

Será sempre esta a verdadeira beleza do jogo. Assim se cresce.”

Papa Francisco em “Esperança – A autobiografia”

 

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.