Noelia: um exame de consciência para todos nós - Ponto SJ

Noelia: um exame de consciência para todos nós

A pergunta cristã não deveria ser apenas: “O que pensamos sobre a eutanásia?”. Mas poderia ser também: “Onde estava eu enquanto esta vida se ia apagando por dentro?”

Nestes dias, a história de Noelia, uma jovem de 25 anos cuja solicitação de eutanásia se concretizou após um longo processo judicial e pessoal, tem ocupado inúmeros títulos. Como costuma acontecer em temas deste tipo, o debate público enche-se rapidamente de palavras grandes: lei, dignidade, liberdade, sofrimento, eutanásia, suicídio assistido, direito a decidir, valor sagrado da vida.

E, no entanto, enquanto as palavras se multiplicam, por vezes a pessoa desaparece.

Porque antes de um “caso”, antes de uma controvérsia jurídica ou moral, está a Noelia. Não um conceito. Não um argumento. Não um exemplo para reforçar uma posição ideológica. Uma pessoa. Uma vida concreta. Uma história marcada pela dor, por feridas muito profundas e por uma longa experiência de abandono.

Talvez seja aí que deveria começar a nossa reflexão.

Muitos cristãos, com boa intenção, levantaram a voz para defender o valor inviolável da vida humana e para denunciar que a morte não pode tornar-se uma resposta procurada, permitida e legalmente acompanhada. É compreensível. A tradição cristã afirma com clareza que toda a vida humana possui uma dignidade sagrada, mesmo no meio do sofrimento mais extremo. Nunca deveríamos banalizar uma questão tão grave.

Antes de um “caso”, antes de uma controvérsia jurídica ou moral, está a Noelia. Não um conceito. Não um argumento. Não um exemplo para reforçar uma posição ideológica. Uma pessoa. Uma vida concreta. Uma história marcada pela dor, por feridas muito profundas e por uma longa experiência de abandono.

Mas também importa reconhecer que, por vezes, estas histórias correm o risco de se transformar numa batalha terminológica ou moral, onde discutimos muito as categorias e muito pouco as chagas. E isso deveria inquietar-nos, sobretudo a nós que nos chamamos discípulos de Cristo.

O que me dilacera por dentro não é apenas o desfecho desta história. Dilacera-me ver a facilidade com que alguns crentes saem para a praça pública a julgar decisões, leis, termos e pessoas, diagnosticando o quanto a nossa sociedade está mal. E, no entanto, quase não nos detemos a olhar o percurso que levou alguém até esse abismo.

Porque a história de Noelia não começou ontem. Nem há dois anos, quando iniciou o processo. A sua história vem de muito antes. Vem de uma vida atravessada por uma enorme fragilidade, por profundas feridas afetivas, por sofrimentos psíquicos, por violência, por solidão, pela terrível experiência de não se sentir cuidada nem amada como merecia.

Há vidas que parecem ter aprendido demasiado cedo que não merecem ser amadas. Vidas que, em vez de serem sustentadas, foram caindo uma e outra vez. Vidas nas quais o amor não chegou a tempo, ou não chegou da forma necessária. E quando uma pessoa não foi bem amada, nem bem acompanhada, nem verdadeiramente olhada, torna-se muito difícil que aprenda a amar-se a si mesma.

Por isso, diante de uma história assim, pergunto-me se a análise cristã não deveria começar bastante antes do debate legal. Muito antes da sentença. Muito antes do pedido. Muito antes até da palavra eutanásia. Deveria começar ali onde uma vida começou a quebrar-se e ninguém pareceu chegar verdadeiramente.

É impressionante que, na religião do amor, e a poucos dias de contemplarmos novamente o mistério de um Deus que entrega a sua vida por nós, possa haver mais interesse em discutir se a eutanásia é moralmente admissível ou não do que em assumir, existencialmente, o estilo de vida de Cristo. Um estilo que não se reduz a formular juízos corretos, mas que se exprime numa proximidade radical ao ferido, ao descartado, àquele que já não pode mais.

A pergunta cristã não deveria ser apenas: “O que pensamos sobre a eutanásia?”.

A pergunta cristã poderia ser também: “Onde estava eu enquanto esta vida se ia apagando por dentro?”

O que teria acontecido se Cristo — encarnado em tantos de nós que dizemos segui-Lo — tivesse oferecido a Noelia o seu coração, o seu tempo, a sua casa, a sua presença, a sua ternura? O que teria acontecido se alguém tivesse permanecido ao seu lado sem pedir nada em troca, com a fidelidade humilde com que Cristo ama? Talvez não possamos responder com certeza. Mas podemos intuir algo: quando uma pessoa experimenta um amor real, fiel e gratuito, algo começa a recompor-se dentro dela. Às vezes lentamente. Às vezes com imensa dor. Mas começa. Talvez Noelia tivesse podido aprender a olhar-se de outro modo. Teria descoberto que a sua vida valia o amor incondicional de outra pessoa.

O que teria acontecido se Cristo — encarnado em tantos de nós que dizemos segui-Lo — tivesse oferecido a Noelia o seu coração, o seu tempo, a sua casa, a sua presença, a sua ternura?

Por vezes, os cristãos estão muito atentos aos dias de preceito, àquilo que obriga em consciência sob uma forma concreta. E, no entanto, talvez prestemos menos atenção àquilo a que poderíamos chamar as vidas de preceito: essas vidas diante das quais o nosso coração cristão não nos permite ser indiferentes. Vidas que nos obrigam não por lei, mas por amor. Vidas cuja simples existência nos interpela e nos reclama uma resposta. Vidas que nos comprometem.

Porque seguir Cristo não consiste apenas em sustentar uma doutrina verdadeira, mas em amar de uma forma verdadeira, o que significa fazer-se próximo, aproximar-se, carregar com o outro, permanecer, acompanhar, cuidar, velar, esperar, oferecer consolo, abrir espaço na própria vida.

Talvez, se estivéssemos mais atentos a essas vidas que precisam urgentemente de ser sustentadas, haveria menos vidas quebradas à procura de um bilhete de saída. Talvez, se afinássemos mais o ouvido para escutar o sofrimento silencioso, e se alargássemos mais a disponibilidade para acolher, acompanhar e amar, muitas histórias não chegariam tão longe na sua desesperação.

Noelia não precisa agora de se tornar bandeira de uns ou de outros. A sua história deveria, antes, tornar-se para nós um exame de consciência.

Não basta afirmar que toda a vida é sagrada. É preciso perguntar seriamente o que estou eu a fazer para que quem sofre possa experimentar essa sacralidade não como um slogan, mas como um abraço, uma presença e uma esperança.

Que Deus nos conceda olhos para reconhecer nos que sofrem verdadeiros irmãos.

Que nos livre da dureza de coração que debate sem se compadecer.

Que nos ensine a ver nas vidas feridas um apelo concreto à nossa conversão.

E que aprendamos, de uma vez por todas, a tratar aqueles que sofrem como aquilo que são: vidas de preceito.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.