Luz em tela de cinzas - Ponto SJ

Luz em tela de cinzas

Um conto em tempo de Natal.

I.

A figura de negro apareceu de novo, como todas as noites. Duas esferas cintilantes, observavam-no, ao fundo da cama, dissolvendo-se na escuridão do quarto. Desviando o olhar daquele espectro, Yusuf pousou-o no corpo da esposa que dormia serena a seu lado. Maryam mantinha uma respiração leve e pausada, como se nada se passasse. Lá fora o vento rugia e as gotas de chuva batiam na janela do quarto como se fossem pedras atiradas contra um vidro. As nuvens entoavam um cântico de trovões e a terra parecia querer engolir-se a si própria. O sangue quente a pulsar-lhe nas veias contrastava com o ambiente gélido em que o quarto se tinha tornado. O suor frio queimava-lhe a pele como geada. Por entre a névoa de vapor que libertava a cada respiração, ainda vislumbrava aquele olhar fixado nele. Uns olhos cálidos no meio do negrume. Da primeira vez que apareceu, Yusuf congelou de medo. Queria gritar ou levantar-se mas sentia todos os músculos do corpo presos à cama. Agora, tinha-se habituado. A mesma dança, todas as noites. De repente, as paredes do quarto começavam a rodar e a tempestade que se formava na rua irrompia pelas frinchas da janela, num silêncio ensurdecedor. O relógio de ponteiros, pousado na mesinha de cabeceira, deixava de marcar os segundos e lá fora, a chuva suspensa enchia o ar de pedacinhos de cristal, num instante eternizado. Então a criatura elevava-se no ar como uma sombra de ébano e o olhar transformava-se em duas grandes bolas de fogo. Aproximava-se ao de leve e com um beijo de luz pousava na sua face, depois afastava-se e parava sobre o ventre de Maryam, transformando-se numa enorme explosão de luz, como uma estrela que caía sobre terra. Era aqui que Yusuf acordava. Do outro lado da janela o mundo continuava igual, o relógio voltava a bater ritmado e no fundo da cama apenas se via o armário do quarto.

II.

O armário de ébano, tinha sido Yusuf a arranjar. Desde miúdo que tinha jeito para as carpintarias. Aprendera tudo com o pai que tinha uma velha loja de mobiliário feito à mão na periferia de Dhaka. Tivera sorte. O negócio do pai tinha dado para viverem sem que fosse obrigado a trabalhar na rua ou numa fábrica como todas as crianças do bairro. Yusuf estava agradecido por isso, ainda que, com apenas dezassete anos, a morte tivesse levado o pai e tudo o que o fazia feliz com ela. A vida tornou-se mais difícil. Era filho único e a mãe tinha falecido no parto. O pai prometera nunca mais casar. E Yusuf prometera que ia sair dali, já nada o prendia àquela terra. O trabalho sem a doce voz do pai e as suas mãos ásperas a guiarem as dele, tornou-se insuportável. Yusuf sonhava com a Europa que via na televisão e com uma vida em que não estivesse rodeado de pobreza e miséria. Sonhava com uma família e com poder dar uma educação aos filhos como ele nunca tivera. Estava decidido a partir quando a viu, numa tarde de primavera, à porta do mercado. A rapariga mais bonita do mundo perfilava-se à sua frente. A pele de canela brilhava, refletindo o sol poente. Seria um ou dois anos mais nova do que ele, não mais. Tinha o sorriso de uma criança mas um olhar cor de cacau que carregava uma sabedoria e bondade que tinham séculos. O seu coração de adolescente imaginou como seria uma vida ao seu lado, partilhando sonhos e um plano de futuro. A buzina de uma mota acordou-o desta fantasia e quando se deu conta a rapariga olhava para ele. Atrapalhado sorriu e levantou a mão num cumprimento desajeitado que a fez rir. A partir desse dia cruzaram-se várias vezes, até Yusuf ganhar coragem para falar com ela. Poucos anos depois, casariam e passariam o resto da vida juntos.

III.

Em Portugal, não se fazia vida da carpintaria. Já ninguém comprava móveis feitos à medida. A cidade era cara e não tinham dinheiro para abrir um negócio, de qualquer forma. Gastaram as poupanças e o que Yusuf tinha conseguido com a venda da casa e da oficina do pai em duas passagens para a Europa. Tinham chegado a França e pouco depois arranjaram forma de seguir para Portugal. Yusuf conseguira rapidamente emprego como estafeta a entregar comida, por saber pegar numa mota e Maryam convencera uma velha senhora a aceitar a sua ajuda numa banca de flores no mercado em troca daquilo que fosse sendo possível ao fim do mês. Não era muito mas dava para viver e para um pequeno quarto no último andar de um apartamento velho duma ruela da baixa, onde viviam com mais sete estrangeiros. O armário encontrara-o junto a um contentor em estado de ser deitado fora, mas a madeira bronzeada que o lembrava das árvores do seu país, fê-lo comprar um cinzel, martelo e uma lixa para lhe dar uma vida nova. A vida não era como tinham imaginado, mas estavam esperançosos que algo novo e bom estaria para vir. E sobretudo agradecidos por não lhes faltar nada quando mesmo ali, naquela terra, tantos à sua volta estavam bem pior. Portugal era um bom país, que os tinha recebido de mãos abertas e onde encontraram uma segunda casa quando tinham chegado há três anos. Mas os tempos estavam a mudar. Os políticos dividiam-se em debates sobre as leis dos estrangeiros e a sociedade cavava trincheiras cada vez mais fundas quando se falava de imigração. Yusuf pressentia-o nos olhares, como se fosse um inimigo novo na batalha só por ter a pele de cor diferente e não falar português perfeitamente. No meio das luzes da cidade nasciam grandes placares, com palavras de ordem e ódio que indicavam a quem culpar pelos males e desavenças da vida. A tensão enchia o ar dia após dia e ficava difícil de acreditar que tinham feito a escolha certa e que aquele era o país a que queriam chamar casa, onde queriam criar família e trabalhar. Num desses dias, sentado ao lado da mota com um café numa mão e um pastel de nata na outra, Yusuf viu um mar de gente que descia a avenida central da cidade. Gente de todas as idades alinhava-se em procissão. Foi a primeira vez que associou as palavras dos cartazes a uma cara. Ou melhor, a centenas. Homens e mulheres de rostos cinzentos, vincados pela raiva, brandiam frases feitas a plenos pulmões que ecoavam pela cidade sem vergonha de serem ouvidas. Naquela noite, o espectro apareceu-lhe pela primeira vez em sonhos e então soube que nada mais seria o mesmo.

IV.

Joel dormia pouco. Não mais do que três ou quatro horas por noite. Alguns dias não conseguia dormir de todo. O silêncio e o frio traziam pesadelos de uma vida que preferia não recordar e que o atormentaria para sempre. Se se deixasse engolir num sono profundo por demasiado tempo, voltaria ao quartel general e ao denso mato de África pintado de sangue de um povo que gritava por liberdade. Os tempos eram outros, ele era novo e na guerra, de espingarda ao ombro, é matar ou ser morto. Mas Joel ainda rangia os dentes de cada vez que se lembrava daqueles rapazes que tinha deitado abaixo como peças de xadrez, mas que no fundo eram seus irmãos. Joel era português mas de pele tão escura como a dos inimigos a abater. A mãe tinha vindo para Lisboa e ele nascera com uma bola de futebol nos pés e um grito chorado que lembrava o sofrer de um fado. Nunca saíra da capital até ser metido num barco, um entre milhares, rumo a uma guerra que não queria combater. Apenas quando disparou pela primeira vez e viu os olhos trémulos daquele preto a quem tirara a vida é que se deu conta que morto era igual a todos eles. A guerra foi curta. Passados quatro meses, uma mina estourou-lhe a mão esquerda e feriu-lhe a visão, condenando-o a um mundo de sombras e pesadelos constantes. Foi mandado de volta, a mãe tomou conta dele até morrer e Joel convenceu-se de que a sua cegueira era um castigo divino a aceitar. Durante o dia preenchia a escuridão com o tagarelar da televisão mas à noite o inconsciente ganhava a batalha, trazendo demónios e culpa. Joel aprendeu a usar o instinto e o tato como janelas para o mundo e arranjou emprego como porteiro num armazém da baixa, ao lado do prédio onde viviam. Os anos passaram, o armazém fechou, deixando a carcaça velha como única prova, mas o prédio manteve-se, traçado pelas rachas nas paredes que se continuavam nas rugas da sua face. O prédio tinha apenas três andares. O primeiro era ocupado por um espaço comercial. Tinha sido uma loja de enxovais que pertencera aos donos do prédio, na altura um casal que dedicara toda a sua vida àquele negócio e que vivia no último andar. O segundo andar, onde vivia Joel, tinha sido o primeiro apartamento do filho do casal, que mais tarde emigrara, deixando o espaço livre para que a mãe e o pai de Joel o comprassem e ali criassem vida. Depois de os velhos morrerem, o filho alugou o apartamento e a loja. Gente sem rosto foi usando os espaços. Joel apenas ouvia as vozes e a casa a mover-se com elas. Mas os anos passaram e as pessoas saíram à procura de sítios novos, mais bonitos, recém-construídos e revestidos a mármore e tinta branca, em bairros onde houvesse lugar para estacionar. Por muito tempo, Joel e os aranhiços que fizeram lar das madeiras envelhecidas foram os únicos seres a habitar aquelas paredes. Depois recebeu uma chamada de um rapaz jovem, que se dizia neto dos antigos proprietários, a avisar que os quartos do apartamento acima iriam ser alugados e o andar inferior transformado numa loja de souvenirs para turistas. Joel não se importou. Sempre era mais alguma coisa para o distrair. Aos poucos, o prédio voltou a ter vida, mas desta vez com vozes que Joel não compreendia, de línguas diferentes e sotaques longínquos. Começou a distingui-los uns dos outros, não apenas as vozes, mas as melodias que cada um deixava na casa, como uma impressão digital única. Todos os dias a ouvia descer a escadaria, na primeira luz da manhã. Os passos, suaves mas firmes, faziam ranger a madeira como se estalassem a coluna vertical de uma criatura gigante. Um par de horas depois, a mesma sinfonia delicada subia pelos degraus, intensificava-se até se deter por uns segundos e partir em contratempo, degraus acima, para terminar com um tilintar de chaves e o abrir e fechar de um trinco. A partitura era sempre a mesma, tocada com precisão, mas com leveza, como se carregasse o peso do mundo numa dança. Joel saía para o patamar e detinha-se a respirar fundo aquele aroma. Encontrava, como sempre, pousada no tapete em frente à porta, uma flor. Todos os dias a mesma sinfonia, mas uma flor diferente. Tinham formas, tamanhos e cheiros distintos. Algumas Joel conseguia reconhecer; outras ficava apenas a imaginar de que cor seriam. Aos poucos, os dias e as terríveis horas da noite foram sendo preenchidos de perfumes e beleza. Um dia atreveu-se a correr para o patamar assim que escutou o bater das primeiras notas. A voz suave de uma rapariga encontrou-o com um cumprimento e, finalmente, aquela ária ganhava o doce entoar de uma letra. Todos os dias passaram a trocar algumas palavras, quando Joel surgia ao umbral da porta. Maryam trazia sempre as flores e falava-lhe dos nomes e das características principais: se serviam apenas como decoração ou se eram usadas em chás e receitas caseiras que se transformavam em fórmulas medicinais que aprendera a fazer com a avó, quando vivia no Bangladesh. E Joel, em troca, ensinava-lhe novas palavras em português e contava-lhe histórias dos seus tempos de guerra. A vida de Joel tornara-se melhor, mais cheia de cores, e a luz que Deus lhe tinha roubado com apenas vinte e seis anos era agora extraordinariamente nítida, como nunca o fora na sua juventude. Talvez Deus o tivesse perdoado, passados tantos anos, e lhe tivesse enviado um emissário de paz na forma daquela mulher estrangeira. Joel desconfiava da ideia, mas naquele dia teve a certeza. Maryam regressava, como sempre, do mercado depois de um dia de trabalho, com as flores na mão. Joel já a esperava no patamar e a convite da rapariga subiram ambos o lanço de escadas até ao segundo andar. Maryam queria-lhe oferecer um chá e um pouco de bolo que tinha feito na noite anterior. Um braço firme conduziu-o até à porta de casa. Desta vez, o tilintar das chaves e o ressoar do trinco dissolviam-se nas palavras e risos que iam trocando. Joel entrou no pequeno apartamento que cheirava a flores e especiarias, e Maryam ajudou-o a sentar-se num pequeno banco, junto a uma mesa, na cozinha. Colocou o bolo num prato e pôs água a ferver, enquanto preparava a mesa para os dois. O fervilhar da água e o tilintar das loiças ajudavam Joel a compor a cena na sua imaginação. Maryam colocou a água numa chaleira com duas raspas de tangerina e um pau de canela. Sentou-se em frente a Joel e olhou-o. O velho homem, talhado pelo sol, lembrava-lhe o avô. As feições eram diferentes, mas os vincos da sabedoria e a expressão de plenitude eram os mesmos — como se os velhos soubessem todos os segredos do mundo e o verdadeiro significado da vida. Um halo de cabelos brancos em carapinha coroava-lhe a cabeça e realçava os olhos grandes, esbranquiçados, queimados pela cegueira. Por um momento, pareceu-lhe quase um ser angelical. Maryam sorriu com a ideia e serviu o chá, enchendo a divisão com o perfume cítrico e exótico. Joel agradeceu e levou a chávena à boca, sentindo a névoa quente no seu rosto. Foi então que uma mancha branca lhe cobriu a visão, como fumo a dissipar-se no ar. Ao fundo, entreviu um traço suspenso, que se desenhava verticalmente, desabrochando num ponto de luz. A Joel pareceu-lhe uma das flores que imaginava quando Maryam lhas trazia, mas desta vez feita de sombra e luz e com uma definição tão precisa que lhe parecia real. No centro, as pétalas cintilantes da flor caíam murchas, revelando um pequeno botão. A princípio não se apercebeu, mas depois viu claramente. Dentro daquela flor nascia um fruto. Um pequeno embrião formava-se aos poucos. Joel deu um grito e procurou as mãos da rapariga sobre a mesa e, em lágrimas, disse-lhe o que tinha visto.

V.

A criança que Maryam carregava desenvolvia-se a cada dia, tal como o ódio que nascia no coração do país. Na rua, Yusuf sentia os olhares que o condenavam. Quando fazia entregas, as pessoas deixaram de ser simpáticas. Apareciam com olhar defensivo, estendiam os braços e recolhiam a encomenda, voltando a esconder-se atrás de uma porta de medo e ignorância. Yusuf percorria a cidade de mota, e os cartazes, misturados no espetáculo de luzes e trânsito, pareciam camuflados na selva de betão. Ainda assim, estavam lá, entrando aos poucos no inconsciente de quem passava. Nas televisões era igual. Comentadores de tudo e de nada gritavam uns com os outros sobre Portugal estar a perder a essência, a cultura e a identidade para estes invasores. E nisso tinham razão, pensou Yusuf. Estavam a perder a hospitalidade, o calor e a generosidade que antes os caracterizava. Este não era o Portugal pelo qual se tinha apaixonado. No parlamento, novas leis eram escritas, e o governo declarara que todos os imigrantes teriam de se apresentar às autoridades para regularizar a sua situação, serem contabilizados e investigados. Quem eram, de onde vinham, o que faziam — tudo resumido a um número escrito numa pasta, no meio de milhares de processos. As ruas encheram-se de filas à porta dos gabinetes de atendimento. Caras de todas as cores e idades, marcadas pelo trabalho, sustentavam olhares de cansaço que ainda se agarravam a um sonho, à esperança que lhes restava. Yusuf tinha passado por vários desses gabinetes. Em todos era igual. Pessoas dormiam nos passeios junto às entradas para garantir o lugar. Outras apareciam ao fim do dia, depois do trabalho, tentando a sorte, mas as filas eram intermináveis. Yusuf não conseguia imaginar como levar Maryam, com um filho no ventre, para o meio daquele caos. Mas tinha de ser. O prazo era curto e não havia outra hipótese se quisessem continuar em Portugal. Entretanto, Maryam ganhava uma nova beleza a cada dia. O rosto redondo e o ventre volumoso davam-lhe uma luz e uma força que só se reconhecem numa mãe. Não faltaria muito para o parto. A gravidez corria bem, e o rapaz crescia forte e saudável. Um dia, Yusuf apanhou-a a falar com o bebé enquanto cozinhava e lhe ensinava a fazer caril. Riu-se e abraçou-a por trás, sustentando a barriga com as mãos para lhe aliviar o peso. Maryam suspirou e encostou-se ao peito dele. Ficaram suspensos naquele instante durante alguns segundos, até que um pontapé certeiro do pequeno acertou em cheio na baliza improvisada pelas mãos de Yusuf e os trouxe de volta à realidade. Talvez o puto ainda saísse jogador da bola, como os portugueses, pensou. No dia seguinte, montaram-se na mota. Avançaram devagar pela cidade, misturando-se no trânsito infernal, no barulho e nos grandes prédios. Naquele turbilhão de gente, eram apenas mais dois. Aproximaram-se de um dos gabinetes, no fundo da baixa, junto ao rio. A fila dava a volta ao quarteirão. À entrada, dois polícias tentavam, com dificuldade, controlar a multidão que se contorcia como um grande bando de estorninhos a dançar no ar. Teriam de se juntar àquela massa amorfa de vidas e histórias. Yusuf avançou sozinho. Alguém os deixaria passar à frente quando vissem que Maryam carregava um bebé no seio. Tentava falar com quem ali estava, mas era como se apenas conseguissem ver-se e ouvir-se a si próprios. No meio daquela estática ruidosa, ouviu um grito claro a chamá-lo. Atrás dele, Maryam, encostada a um carro, de mãos na barriga e debruçada, olhava-o com um misto de medo e alegria.

VI.

Rita era uma boa miúda a quem a vida tinha maltratado. Filha do calor de uma noite de verão em que o desejo e o ébrio tiraram lugar ao amor. A mãe nunca soube quem era o pai. As memórias e a consciência turvaram-se pela euforia injetada nas veias, maceradas pelas agulhas. Rita nasceu num dia frio de primavera e foi deixada à porta de uma igreja com nada mais do que aquilo com que tinha vindo ao mundo e um bilhete da mãe, a desculpar-se e a indicar o nome que lhe haviam de dar. Cresceu a saltar de instituição em instituição. Com ela cresceu também uma raiva que não tinha nome próprio nem rosto — apenas um “mãe”. Passou a detestá-las a todas por não ter tido uma. E, no entanto, não deixava de se questionar sobre o porquê de a mãe ter seguido com a gravidez até ao fim e, sobretudo, o porquê de lhe ter dado um nome. Pode-se odiar assim tanto um filho a quem se deu vida e um nome? Por mais que quisesse, Rita não conseguia odiá-la. No mais íntimo, desejava ainda abraçar a mãe e perdoá-la. Mas a vida sem uma família, sem alguém que nos mostre o que é o amor, é uma história cinzenta contada numa tela cheia de más pinceladas. Fez a escola sem grande sucesso, apesar de ser uma miúda perspicaz, a quem a vida já tinha ensinado muito. Saiu do secundário e foi trabalhar para um supermercado. À noite começou a fazer alguns turnos num bar da alta da cidade. Rapidamente, encontrou nas luzes e na diversão da escuridão noturna uma forma de escapar à realidade monotonal a que se tinha habituado. No fundo do poço, as luzes eram mais vivas, mais brilhantes, e Rita deixou-se afundar. O dinheiro começou a não chegar para manter o sonho real, e a visão afunilou-se nesse único objetivo de se puxar ainda mais para baixo, para não voltar à superfície das águas onde a tempestade bailava. Não tardou muito para perder os empregos e o quarto onde vivia. Deambulou pelas ruas, escondendo-se da luz nas vielas e becos. Passou uma semana roubando nos mercados para comer e dormindo nos bancos da cidade. Consigo levava apenas uma mochila e os vinte e quatro anos de vida que lhe pesavam como o dobro. Um dia encontrou um velho prédio em ruínas, abandonado no postal da cidade que ninguém parecia notar. As pessoas costumavam ignorar aquilo que os olhos não queriam ver. Rita, porém, já não distinguia a beleza. Deixou-se entrar naquela carcaça a apodrecer e, antes que os olhos se habituassem ao negrume, foi atirada para trás. Uma mão áspera pressionava-a contra o cimento gélido da parede atrás de si, e dez olhos observavam-na em redor, como animais prontos a atacar. Rita fechou os olhos e encolheu-se, até que a mão lhe agarrou na mochila que trazia aos ombros e a convidou a escolher um canto onde ficar. A partir daí, aquela passou a ser a sua família — a sua mãe e o seu pai. Rita percebeu rapidamente as regras do jogo, se queria viver ali. Protegiam-se uns aos outros e arranjavam forma de sobreviver, fazendo o que podiam. Manuel era o mais velho dos seis e pedia na rua abaixo, junto ao rio. A droga foi aparecendo. Manuel arranjava-a e Rita foi-se esquecendo de que a vida não era apenas para sobreviver. Numa tarde, desceu com Manuel e um dos outros até ao rio. Misturaram-se na mancha de turistas, à procura de quem lhes desse uma moeda esquecida no fundo da carteira. Foi aí que os viu, ao longe, enquanto se aproximava. Um jovem casal de estrangeiros, encostado a um carro, no fim da rua. Ela não devia ser muito mais velha do que Rita. Trazia um lenço azul na cabeça, cobrindo os cabelos negros e a face morena. Ele parecia mais velho, alto, de barba forte. Debruçavam-se um no outro quando Rita reparou na expressão de aflição nos seus olhos. A rapariga segurava a barriga e então percebeu que ela estava grávida. Ninguém à volta parecia reparar neles. As nuvens carregadas escureciam o dia e ameaçavam um dilúvio. Rita parou. A ideia de maternidade tanto lhe causava aversão como inveja. Mas, ao mesmo tempo, vê-los ali, suspensos no tempo, como se fossem invisíveis para todos menos para ela, impediu-a de virar o rosto. O homem tinha um telefone na mão e parecia falar com alguém. Estaria a tentar chamar uma ambulância, pensou Rita. Com aquele trânsito infernal, os hospitais a rebentar pelas costuras e tantas urgências fechadas, talvez já não fossem a tempo. Chamou o rapaz que vinha com ela e aproximaram-se. A mulher, já sentada no chão, apoiava-se no braço do marido. As primeiras gotas de chuva caíam do céu, grossas como pequenos cristais que se desfaziam ao tocar no chão. Rita ajoelhou-se junto ao carro e estendeu as mãos à mulher, que as agarrou e sorriu com um olhar doce, no meio da respiração acelerada e dos gemidos de dor a cada contração ritmada. Rita pensou no que poderiam fazer. Não havia grande alternativa. A rapariga iria ter o bebé ali, no meio da rua, se não agissem rapidamente. Sem pensar mais, convidou-os a ir para sua casa. Ao menos não estariam ao frio e à chuva. Em sua casa? Mas Rita nem casa tinha. Morava nas ruínas abandonadas de um velho prédio, na rua acima. Agarrou a rapariga por um braço enquanto o marido a amparava do outro. Subiram a calçada devagar. O rapaz que os acompanhava despiu o casaco que trazia vestido e colocou-o sobre os ombros da mulher. Que ideia mais disparatada aquela. Levá-los para ali, para aquele lugar escuro, velho, a cair de podre, onde Rita se escondia todas as noites e chorava até amanhecer. À volta deles, o mundo continuava a girar. Cada pessoa com o olhar preso em si mesma, na sua vida e nas suas preocupações, ligadas a um mundo virtual que as afastava da realidade. Chegaram à porta de ferro, remendada com plásticos e jornais, que dava entrada ao mundo de Rita. A um sinal, o rapaz abriu-a e ajudou-os a entrar. No céu, por cima deles, um halo de luz espreitava e iluminava-os, sem que ninguém reparasse. Percorreram o corredor de estilhaços e betão partido até à divisão central, a maior. Rita e o outro sem abrigo, juntaram cartões, cobertores e toalhas — tudo o que tinham — e improvisaram uma pequena cama no meio da sala e ajudaram a rapariga a deitar-se. O jovem casal parecia não reparar na destruição de vidas e de betão que os rodeava. Para eles, estariam deitados num sofá, numa sala acolhedora com cortinados de veludo, tapetes de lã e uma lareira ao canto a iluminar a cena. Do lado oposto, uma grande mesa de madeira com cadeiras forradas de tecido a condizer, posta como se esperasse alguém. Quadros e fotografias davam-lhe um toque pessoal. Rita também viu, por instantes, aquela sala repleta de sonhos e cor. Deitados naquele sofá de trapos, Yusuf e Maryam encontravam-se no seu próprio mundo, focados um no outro e naquele menino que estava prestes a nascer. Assoberbada por tudo, Rita afastou-se devagar e deu-lhes espaço. Observou aqueles miúdos pouco mais velhos que ela, a forma como se cuidavam, a serenidade que encontravam apesar do medo estampado nos rostos. E lembrou-se da mãe. Sentiu que, ali, naquele momento, a perdoava — como se fosse ela o fruto daquele nascimento, como se fosse ela a filha esperada. A sala encheu-se de um choro doce e de cor. Uma luz forte inundou o espaço, iluminando a tela de cinzas em que Rita vivia. As lágrimas quentes correram-lhe pelo rosto, lavando a dor que carregava na alma. Rita observou-os por muito tempo, em silêncio. O rapaz ao seu lado avançou devagar. Ajoelhou-se junto deles e ficou ali, a contemplar o milagre. Maryam sorriu-lhe, cansada, apoiada em Yusuf que a segurava nos braços, e estendeu-lhe o bebé para as mãos.

— Toma. Este é o Jesus. Obrigada.

Lá fora, o mundo não reparou, mas nada ficou igual.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.