O dia estava quente, típico de um Agosto na cidade, e tudo incomodava Helena. As buzinas pareciam-lhe mais estridentes do que nunca, o sol abrasador e o trânsito – imprevisível mesmo sendo Verão – faziam com que ela quisesse estar em qualquer lugar menos ali. Olhou para o relógio e a situação só piorou. Estava atrasada e aquela reunião era importante. Ainda por cima, não conhecia assim tão bem aquele parceiro e era importante construir uma boa imagem aos olhos dele. Suspirou, maldisse o chofer do táxi, pensou que todos os condutores eram uns trapalhões e que as cidades tinham sido a pior invenção do ser humano. Finalmente, chegou.
Mais uns minutos
Quase a correr, entrou no prédio e, antes de se identificar, ouviu: “Helena!” Era uma amiga de há anos, que não via há séculos. “Não acredito”, respondeu Helena. A amiga, visivelmente contente pelo encontro, disse que “ainda bem que te encontro, tens um tempinho?”. Sentindo a sua aflição a chegar ao máximo da escala, Helena só conseguiu dizer: “Desculpa, estou atrasadíssima para uma reunião. Dá-me o teu número, ligo-te amanhã, pode ser?” “Amanhã não vou cá estar, mas liga”, respondeu a amiga, cujo desconsolo não passou despercebido. Trocaram números e despediram-se.
O que é um imprevisto?
Helena sentia o coração pesado quando entrou no elevador. O olhar da amiga ficou-lhe na consciência. “Alguma coisa ela me queria dizer”, matutou. Mas sentia-se ainda pior por estar atrasada e por pensar que ia causar má impressão. À sua frente estavam outras duas pessoas e a rececionista demorou a contactar quem procuravam. Helena fechou os olhos e respirou fundo. “Tenho de me acalmar”, pensou. “Pior do que estar atrasada é aparecer cheia de nervos”. Mas a imagem da amiga não lhe saía da cabeça e já nem se lembrava bem dos argumentos que tinha ensaiado para aquela reunião. Enganou-se no botão do elevador, saiu dois andares acima, teve de esperar que o elevador voltasse… mais tempo perdido, nervos mais em franja, lágrimas a quererem sair dos olhos. Respirou fundo. Sentiu-se regulada, entrou na empresa e fez-se anunciar. “O Dr. Ramos tem todo o gosto em recebê-la mas pede para esperar”. Helena não sabia se ficava feliz por, afinal, não ter chegado atrasada se se sentia mal por não ter dado atenção à amiga. “E sabe quanto tempo vai demorar?” “Talvez uma meia hora.”
Pensar depressa
Helena percebeu que podia ficar contente com aquele imprevisto. Ligou à amiga. “Júlia? Ainda estás aí? Tive um imprevisto”. Nunca a palavra imprevisto lhe soubera tão bem. Combinou que lhe ligavam quando o tal Dr. Ramos chegasse e saiu. Continuou a saborear o imprevisto, a palavra e o facto. Pensou que não lhe dava jeito nenhum aquele atraso porque tinha coisas para organizar no escritório e provavelmente já não teria tempo. Mas, ao contrário do que seria de esperar, não se importou. Chegou à rua, a Júlia estava na esplanada ao lado do edifício e sorriram. O sorriso de Helena foi aberto e demorado. “Nem sonhas o que me soube bem este atraso do parceiro com quem tenho a reunião. Estava mesmo chateada por te ter dito que não podia vir conversar contigo. Então, tudo bem?”
O que fazer?
Júlia abriu o coração, desabafou, quase chorou e, no fim, as amigas abraçaram-se longamente. Estava num processo de separação difícil, ela a sofrer, o marido a sofrer, os filhos já a darem sinais de qualquer coisa… Helena não disse muito, sobretudo ouviu. Enquanto a amiga falava ia rezando, como que a empurrar aquele caso para o Céu. Mentalizava pequenas frases, uma ou outra jaculatória, mas, no fundo, pedia ajuda quanto ao que fazer ou dizer. Sentia que estava no sítio certo, à hora certa. A reunião ainda a preocupava mas haviam de lhe ligar. Mantinha a cabeça no coração da amiga e no sabor daquele imprevisto. “Foste Tu Senhor, que atrasaste o homem?” Às vezes falava com Deus assim, sabendo sempre que tudo vem d’Ele. “Ai Helena, não sei se faço alguma coisa ou se deixo andar e olha, seja o que Deus quiser”, concluiu Júlia. “O que Deus quiser é sempre bom, já sabes. Mas Ele também conta com a nossa parte, lembras-te do que dizia sempre o Padre António? Ele tem muita consideração por nós, servos inúteis”. E riram, a lembrar-se daquele padre do colégio. “Se calhar a tua parte, agora, é rezar, Júlia. É muita coisa para gerir, põe Deus à frente, ou acima, não sei, deixa-O dizer-te as coisas”. Júlia calou-se. Suspirou. “Olha, viste? Este suspiro diz o bem que me fez o que disseste. É isso, eu estou a querer tomar conta de tudo e não dá, realmente não dá”.
E foram dez minutos
Helena percebeu a leveza no rosto de Júlia. Conversaram mais um pouco, sobre tudo e nada, trivialidades, riram, Helena contou algo do que se passava na sua vida, nada de especial. O telefone tocou. Era a reunião. “Olha, tenho de ir”. Durante o longo abraço de despedida, Helena espreitou o relógio e espantou-se. Tinham passado dez minutos. Quando entrou na reunião o Dr. Ramos, homem importante, mais importante na sua empresa do que Helena no escritório, explicou que se atrasou porque precisou de um bocadinho de tempo para um dos filhos “Fomos almoçar e eu não podia cortar a conversa a tempo de chegar aqui à hora certa. Peço imensa desculpa, não estava à espera que o miúdo precisasse de desabafar.” “Não tem importância nenhuma, não se preocupe, nem foi assim tanto tempo.” Apeteceu-lhe dizer que lhe tinha dado um jeitão, pois também estava a ouvir alguém e filosofar um bocado acerca do tempo e dos valores, mas resolveu manter o encontro no plano profissional.
Mais tarde, no caminho para casa, Helena realizou a importância de um momento vital e o valor da disponibilidade. Valorizou aquele imprevisto e aquela mulher, madura e equilibrada, que sempre quisera ter tudo controlado, sentiu a sua vida mudar.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
