Gastar-se até ao fim - Ponto SJ

Gastar-se até ao fim

Se o Papa Francisco será um Santo na porta da frente, certamente o Padre Zé Maria é o rosto de tantos Santos atrás da porta.

Desde a morte do Padre José Maria Brito, sj que ando a pensar escrever sobre ele. Escrevi um texto de gratidão que não consegui ler até ao fim na missa em Évora – tal era o amargo da dor que me ia no coração – e deixei-me ficar, tentando não pensar muito.

Parece que vivemos uma vida inteira com ele e, na verdade, partilhamos menos de dois anos, mas dois anos vividos numa intimidade de família verdadeira e plena. O Zé Maria fazia família com todos os que se cruzavam com ele. E nós tivemos a graça de nos cruzar.

Na manhã do dia 22 de abril de 2025, dia seguinte ao da morte do Papa Francisco, acordei a pensar no Zé Maria. Fazia nesse dia um ano que tinha adoecido de forma abrupta, fazia um ano que me despedi dele sem saber que o estava a fazer. Veio-me uma tristeza profunda pela saudade que sinto. Passados dois anos da partida do Zé Maria e um ano da partida do Papa Francisco, olho e vejo duas pessoas que em tudo se identificaram com Cristo.

Ao ouvir a notícia da morte do Papa Francisco fui rever o seu aparecimento público último, no Domingo de Páscoa, e veio-me a mesma frase que no dia da morte do Zé Maria: Gastou-se até ao fim!

 

Até ao fim serviram os outros, até ao fim entregaram a vida, humildemente, para que Deus dela dispusesse.

O Papa Francisco deu a última palavra a todos os fiéis da praça de S. Pedro. O Padre Zé Maria deu a sua última palavra a um grupo de jovens da GVX, a quem enviou às dezanove horas e cinco minutos o texto que iriam rezar nessa noite na reunião. Cinco minutos antes de pedir ajuda na sua dor aguda. Ambos frágeis, ambos com uma dor profunda, deram-se e gastaram-se na sua fragilidade. Como Jesus viveram a sua fragilidade com a certeza de serem filhos amados de Deus, sem vergonha de ser fracos, pela certeza que a força lhes vem de Quem tudo nos dá.

Gastaram-se verdadeiramente até ao fim.

Esta frase tem me acompanhado estes dias como exemplo do que é viver para a maior glória de Deus. Procurar e encontrar Deus em todas as coisas para em tudo O Amar e Servir.

Viveram assim o Papa Francisco e o Padre Zé Maria. Seguindo o exemplo do seu companheiro Inácio e de tantos amigos de Jesus, viveram em comunhão profunda com Deus. Até ao fim serviram os outros, até ao fim entregaram a vida, humildemente, para que Deus dela dispusesse. E Deus dispôs, com toda a liberdade, e fez maravilhas.

Viveram vidas plenas e que nos despertam o desejo de ser Zé Maria, de ser Francisco, de ser como eles foram, o rosto do Cristo vivo no mundo. Deste Cristo que também se gastou e se derramou na humanidade inteira.

O Papa Francisco e o Padre Zé Maria foram dois homens de diálogo, de abertura, de relação, de escuta e de ação. Homens de pontes e de construir uma igreja sem portas e sem preconceitos.

Controversos às vezes – até pareciam de esquerda, diziam algumas vozes dissonantes – mas na verdade abertos à diferença, ao aceitar do outro, como é, com a sua realidade e a sua fragilidade.

Muitas vezes me pergunto como viveram assim, com um coração tão disponível e misericordioso. Só uma vida de oração profunda o terá permitido. Só uma ligação visceral ao mais profundo do Coração de Jesus lhes deu a liberdade de viver verdadeiramente em Contemplação para Alcançar Amor.

Sei que há festa no Céu e que nos guardam a todos e peço que intercedam por este mundo que tanto precisa de pontes e de escuta. Se o Papa será um Santo na porta da frente, certamente o Zé Maria é o rosto de tantos Santos atrás da porta.

Que sejam exemplo para nós e que saibamos gastar-nos até ao fim como fizeram o Zé Maria e o Papa Francisco, pois só assim viveremos vida plena e verdadeira.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.