E se a vida puder ser mais inteira? - Ponto SJ

E se a vida puder ser mais inteira?

Como seria a nossa vida se vivêssemos a partir do amor, se praticássemos a justiça e se acolhêssemos a realidade e os seus limites? O que podem os valores da libertação, do descanso e da restauração dizer aos nossos dias?

Ao longo deste ano de 2025, a Igreja Católica propôs-nos um Jubileu da Esperança, com o lema Peregrinos da Esperança. A palavra jubileu, em hebraico — yōvēl —, designava o chifre de carneiro usado como trombeta para anunciar um tempo especial: o ano jubilar. Nesse ano, os escravos eram libertados, as dívidas perdoadas e a terra deixava de ser cultivada para poder repousar. O som do yōvēl tornava-se, assim, sinal de libertação, recomeço e alegria.

Nos dias de hoje este apelo parece ser ainda mais urgente. Em tantos lugares do mundo persistem formas antigas de escravatura e surgem outras novas. Hoje somos escravos do consumo, da aparência, do digital. As dívidas e a dificuldade de viver uma vida digna continuam a aprisionar pessoas e nações. A terra, por sua vez, grita, exaurida por modos de produção que ignoram os seus ritmos e por uma ação humana que, em vez de responsável, se exerce tantas vezes de forma desmedida e arrogante. Aos sinais de esgotamento da terra – alterações climáticas, destruição de ecossistemas, catástrofes naturais – juntam-se os sinais de esgotamento dos seres humanos. Pessoas mais sozinhas, apesar de um mundo cada vez mais ligado digitalmente. Relações mais feridas, apesar de sabermos cada vez mais sobre a nossa espécie. Pessoas esgotadas, apesar de vivermos numa cultura hedonista e de bem-estar. Pobreza e desigualdades persistentes apesar de vivermos num mundo com meios técnicos e recursos suficientes para garantir uma vida digna a todos. Conflitos que se multiplicam pelo mundo e destroem lugares e vidas inocentes, quando já sabemos que a guerra nunca é um bem.

Gritam os ecossistemas naturais e gritam as pessoas. Tudo isto confirma, como sublinha o Papa Francisco na encíclica Laudato Si’ (da qual se assinalam dez anos da publicação), que tudo está interligado, mas também que a ecologia de hoje tem de ser integral e considerar todas as relações que sustentam a vida: a relação com Deus, com a terra, com os outros e connosco. Por isso, neste mundo carregado de estímulos e de rótulos, num tempo que muitos descrevem como uma mudança de época — ou mesmo como uma policrise —, o jubileu oferece três ideias — libertação, descanso e restauração — como lentes para reler o ano que passou e imaginar o modo como queremos habitar o tempo que aí vem.

Como podemos ensaiar a libertação nas nossas vidas?

Libertação

Tantas vezes somos nós que nos aprisionamos e adiamos a vida abundante que Deus nos dá e quer dar. Aprisionamo-nos em lugares que não nos correspondem, como a obsessão pelo controlo da nossa vida ou a ilusão de que somos nós que sustentamos tudo. Ficamos reféns de ideias de nós, dos outros e da realidade que nos põem à luta, nos consomem e que nos fecham. Escravizamo-nos a ídolos contemporâneos como o trabalho ou o bem-estar, confundindo meios com fins e esquecendo que somos feitos de muitas dimensões. Como podemos, então, ensaiar a libertação nas nossas vidas? Ajuda identificar o que nos aprisiona — por exemplo, reconhecendo onde sentimos decrescer a fé, a esperança e a caridade — e sublinhar aquilo que nos abre à vida e aos outros. Pode ser libertador voltar àquilo que é princípio e fundamento: somos filhas e filhos muito amados de Deus e esse é o lugar de onde vale a pena partir sempre. Não somos criadores: somos criaturas. Liberta deixar de querer ser, estar e fazer tudo, para escolher de acordo com o que já somos e com o que já vemos.  Liberta acolher a realidade tal como ela é, reconhecendo o tanto que já caminhámos, juntos, com o Senhor. Importa lembrar que nem toda a liberdade, porém, é verdadeira libertação. A liberdade pode ser uma fuga, na medida em que nunca aterramos na nossa vida concreta nem encarnamos na nossa história. Mas, à luz cristã, a liberdade é sermos mais quem somos, a partir da relação com aquele que nos devolve a nossa imagem mais nítida.

Descanso

Hoje dificilmente encontramos um contexto onde alguém não se queixe de cansaço. Seja ele físico, emocional, espiritual ou existencial, a queixa recorrente insiste que algo não está bem, mas uma imagem pode ajudar a imaginar o que pode ser diferente. A imagem do limite, pouco atrativa porque parece restringir a nossa liberdade, é na verdade libertadora. A matéria do nosso corpo tem limites, tal como uma célula ou até um caminho. Não há nada mais limitador do que não aceitar que há limites. Importa por isso ficarmos cada vez mais curiosos com essa fronteira como oportunidade de descanso e verdadeiro florescimento. Numa realidade hiperestimulada, hiperconectada e em que estamos mais distantes da terra, é urgente abrir um jubileu diário para voltarmos a pintar as linhas esbatidas dos nossos limites, e assim, reconhecê-los. O nosso ritmo natural, e o das nossas relações, não é o ritmo do digital, onde hoje habitamos demasiadas horas. E a nossa capacidade de processar e integrar informação e acontecimentos não é a de uma máquina. Podemos ter 3.000 amigos digitais e não será possível ter relações de amizade com todos. Podemos acordar às 4h da manhã todos os dias e ainda assim um dia só tem 24 horas. E se reconhecêssemos e respeitássemos o nosso ritmo identificando a partir de onde começamos a ferir as nossas relações connosco e com os outros? E se ensaiássemos novas formas de viver coletivamente nas quais o descanso fosse sinónimo de experiências de cuidado e de paz? E se a relação e o contacto com a terra não forem apenas pontuais, mas escola de pertença, ritmo e relação?

Uma vida ecológica, hoje, é muito mais do que um desafio ambiental. É um desafio relacional.

Restauração

Os sinais da realidade parecem dizer claramente que somos chamados a procurar novas formas de vida. E por isso já é tarde para continuarmos a achar que a questão da ecologia é lateral à fé católica, por medos ou resistências que possamos ter. Será cada vez mais magistério da Igreja e desafio existencial coletivo, porque tudo na realidade nos pede outro modo de ser e de estar. Uma vida ecológica, hoje, é muito mais do que um desafio ambiental. É um desafio relacional. E a vida só é ecológica se for inteira. Trata-se de acolher os equilíbrios frágeis da vida e de cultivar o cuidado. Não se trata de vivermos à procura de estados imperturbáveis, onde nada nos toca, dói ou cansa, já que isso seria amputarmo-nos de uma dimensão importante da nossa existência. Mas sim de vivermos com mais sentido. Para isso é preciso que cada um de nós dê passos, o que aliás se liga à nossa condição de peregrinos. O encontro com Jesus é sempre oportunidade de um tempo e de um espaço para olhar, escolher e viver de forma diferente. E por isso a nossa fé é movimento e transformação. Mas tantas vezes retemos a vida quando negamos que tudo é frágil ou quando nos concentramos apenas nas fragilidades, ignorando a força do amor. Na Ressurreição de Jesus, Deus revela como podemos recomeçar sempre. É Ele quem nos dá um horizonte largo, e é por isso que podemos esperar sem nos cansar. É também Ele quem pode restaurar, pela sua graça e misericórdia, tudo o que está ferido bem como o nosso olhar sobre o mundo. Que relações precisamos que o Senhor nos ajude a restaurar? Que sinais da realidade pedem que recomecemos com criatividade?

Perante um tempo que tantas vezes se apresenta como opressivo ou assustador, a nossa fé pode ajudar-nos a olhá-lo com espírito crítico e como oportunidade. Isso implica questionar e denunciar narrativas catastrofistas, paralisantes ou de fechamento, e procurar palavras capazes de gerar mais vida, ensaiando realidades novas. É também neste movimento que somos chamados a amadurecer na fé, deixando cair imagens e discursos que nos mantêm numa relação infantil com Deus, para assumirmos, com responsabilidade batismal, o lugar de protagonistas da vida que nos foi dada viver. É assim que o jubileu não perde o seu sentido profético. Somos, de facto, peregrinos da esperança: chamados a trabalhar pelo Reino de Deus, onde os coxos andam, os cegos veem e os surdos ouvem — e onde a vida pode ser melhor, diferente e com mais sentido.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.