Discernimento numa segunda volta apertada - Ponto SJ

Discernimento numa segunda volta apertada

Talvez a questão decisiva desta eleição não seja apenas qual dos dois candidatos será eleito Presidente, mas que tipo de comunidade política estamos dispostos a construir e a cuidar

Os portugueses votaram naquelas que foram as eleições presidenciais mais disputadas e participadas dos últimos 20 anos e, para além das análises políticas, sociológicas e pós-ideológicas, a segunda volta das eleições presidenciais coloca o país perante uma escolha exigente.

A oposição entre António José Seguro e André Ventura não representa apenas duas candidaturas concorrentes, mas revela tensões mais profundas na forma como a sociedade portuguesa se vê a si mesma, como lida com as suas fragilidades e como projeta o seu futuro comum.

Quando o espaço de escolha estreita, cresce a tentação de reduzir o voto a uma reação imediata, não poucas vezes marcada pelo medo e pela rejeição. No entanto, é precisamente nestes momentos que o discernimento se torna mais necessário. Não para negar os conflitos existentes, mas para os enquadrar à luz de critérios que preservem a dignidade das pessoas e a nossa coesão enquanto comunidade.

Quando o medo, a divisão ou a desconfiança são normalizados como método, o bem comum torna-se refém das lógicas de confronto permanente.

A emergência de discursos polarizadores não acontece no vazio. É a expressão de erros e de desigualdades que persistem, de experiências de exclusão, de perceções de injustiça e de insegurança e de uma relação fragilizada entre cidadãos e instituições. Reconhecer estas realidades é um dever político e ético. Ignorá-las é irresponsável.

Há uma diferença fundamental entre enfrentar os conflitos com sentido de responsabilidade coletiva ou explorá-los como instrumento de mobilização política. Quando o medo, a divisão ou a desconfiança são normalizados como método, a coesão social fragiliza-se e o bem comum torna-se refém das lógicas de confronto permanente.

Num regime democrático, o Presidente da República é chamado a ser mais do que um ator político entre outros. Cabe-lhe uma função simbólica e moderadora, orientada para a salvaguarda do regular funcionamento das instituições, para a promoção da unidade e para o respeito pela pluralidade da sociedade. Para além das mais elevadas funções de Estado, diplomáticas e de chefia militar.

Sob esta perspetiva, a eleição presidencial não se reduz à avaliação de propostas ou afinidades ideológicas. Trata-se de discernir que tipo de liderança melhor respeita a dignidade de todas as pessoas, que melhor contribui para uma maior confiança institucional e que favorece uma cultura marcada pela responsabilidade, pela verdade e pela moderação no uso da palavra.

O voto é um momento decisivo, mas não substitui um trabalho continuado de escuta e participação.

No contexto de uma segunda volta, é compreensível que muitos eleitores se sintam empurrados para um voto defensivo. Ainda assim, a responsabilidade cívica não se esgota na rejeição de um mal maior. Exige critérios positivos de discernimento.

Entre esses critérios, alguns assumem particular relevância. Desde logo o reconhecimento incondicional da dignidade humana, sem exclusões nem hierarquias implícitas.

Mas também a centralidade do bem comum, acima de interesses particulares ou estratégias de curto prazo. A valorização das instituições democráticas como espaços de mediação e participação. A recusa da instrumentalização do medo, do ressentimento ou da desinformação e a promoção da solidariedade social num país, infelizmente, ainda marcado por desigualdades estruturais.

Estes princípios não pertencem a uma visão confessional da política. Correspondem a fundamentos éticos amplamente partilháveis, essenciais para uma democracia que não abdica da justiça nem do humanismo.

O voto é um momento decisivo, mas não substitui um trabalho continuado de escuta e participação.

Nenhuma eleição, por si só, resolve os desafios estruturais da sociedade. A segunda volta presidencial não é exceção. O combate às desigualdades, a atenção aos mais vulneráveis e o reforço da confiança democrática exigem políticas consistentes e um compromisso cívico que vá muito além do próximo dia 8 de fevereiro.

O voto é um momento decisivo, mas não substitui um trabalho continuado de escuta e participação. A construção de uma sociedade justa não depende apenas das instituições, mas também da qualidade moral da vida pública e do envolvimento ativo de todos enquanto cidadãos.

Talvez a questão decisiva desta eleição não seja apenas qual dos dois candidatos será eleito Presidente, mas que tipo de comunidade política estamos dispostos a construir e a cuidar. Em causa está a escolha entre duas atitudes perante a democracia: de um lado, uma visão que reconhece a Constituição, o Estado social e as instituições democráticas como património comum, imperfeito mas indispensável, a proteger e a servir. Do outro, uma lógica de rutura permanente, marcada pela desvalorização das instituições, pela suspeição sistemática e por uma relação instrumental com as regras do jogo democrático. Esta diferença traduz-se também no modo como se concebe a comunidade: se como um espaço fundado no medo, na divisão e na exclusão, ou como um projeto orientado pela dignidade de todas as pessoas, pela solidariedade e pelo cuidado do bem comum.

Numa eleição presidencial, em que está em causa a salvaguarda da ordem constitucional e a confiança coletiva, este não é um detalhe secundário, mas um critério essencial de discernimento.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.