No já longínquo ano de 2011, o Papa Bento XVI, na preparação para a Jornada Mundial da Juventude, em Madrid, escreveu no prefácio do YouCat um pedido muito simples e concreto aos jovens: o de estudarem o Catecismo. O desafio continua lançado, fazendo eco até ao dia de hoje. É inegável que há, nos jovens de agora, uma vontade de conhecer mais e melhor a Igreja, os seus ensinamentos, a sua organização, a sua história. Melhor dizendo, podemos afirmar que há um caminho de (re)descoberta do tesouro da fé, guardado e transmitido pela Igreja.
O pedido do Papa Bento XVI tem uma finalidade muito concreta: a santificação daquele que estuda. Conhecendo de forma mais completa a fé que lhe é transmitida por intermédio da Igreja, descobre a proposta de um caminho de santidade que conduz à felicidade, concretizada no Reino dos Céus. Não podemos ignorar que a maior vivência espiritual dos jovens parte do maior conhecimento do Catecismo, alastrando-se à descoberta da riqueza da tradição da Igreja, concretizando-se na relação com Cristo.
O encontro com Cristo passa, também, pelo do estudo da doutrina ensinada pela Igreja, enquanto mãe e mestra.
Nos últimos 15 anos da vida da Igreja e do mundo, muitos foram os aspetos que mudaram. Ainda assim, o apelo continua atual. Sendo mais ousado, digo que se estende aos “jovens” com mais juventude acumulada. Alarga-se a todo o povo de Deus. É feito a toda a humanidade: descubram Cristo, vivam na Sua Igreja, estudem a Sua doutrina.
É igualmente inegável a sempre presente sede de conhecimento na humanidade. Há uma maior sede de conhecer aquilo que é desconhecido; o que era dos nossos avós e que se perdeu nos nossos pais. A fé, vivida na sua simplicidade e integralidade, é um mundo novo para os jovens nascidos num Portugal católico-não-praticante. De uma forma mais exigente, mais séria, quiçá mais solene. Este estudo não é uma busca de doutrina passada, mas a procura do encontro de cada um com Cristo, de forma cabal e radical. Este encontro passa, também, pelo do estudo da doutrina ensinada pela Igreja, enquanto mãe e mestra. Estudo esse que começa no Catecismo e alarga-se a todo o magistério da Igreja Estes ensinamentos têm como fonte o próprio Deus, que, pela ação do Espírito Santo, guia e inspira a própria Igreja.
O viver autêntico da fé somente é possível com o seu conhecimento.
A Igreja, feita de pessoas individuais, concretas e pecadoras, na missão própria que lhe é confiada, deixa-se guiar por Aquele que tudo conhece e tudo governa. A sua ação deve – e tenta – repercutir a fé recebida, de modo que, vivendo-a na sua inteireza, a transmita a todos os povos, contemporâneos e futuros. O viver autêntico da fé somente é possível com o seu conhecimento. O estudo do catecismo promove e provoca um viver mais autêntico da fé proposta e transmitida pela Igreja. A fé deixa de ser um tabu. Vivida em comunidade, é fonte de amizade. Partilhada, é alegria. Refletida em conjunto, assume naturalidade no quotidiano de cada crente. Alimentada, provoca uma maior sede de conhecimento. Na transmissão da fé, não se podem esconder os ensinamentos “que incomodam”, mas antes assumir a fé na sua integralidade.
A busca do sentido para a vida não se faz nas futilidades do quotidiano, mas nas raízes de cada pessoa singular. O interesse pela fé prende-se num caminho de (re)descoberta das raízes de cada um, na procura incessante das respostas para as questões mais inquietantes da humanidade. Os jovens anseiam por descobrir uma fé adulta, fortalecida, que abordando as questões mais complexas com a profundidade que lhe é inerente, penetre no coração de cada crente. Neste contexto, há duas razões principais para estudar o Catecismo.
A primeira, a grande quantidade de desinformação ou informação falsa circulante acerca da Igreja e da sua doutrina. Ou por desconhecimento, ou por “eu acho que é assim”, ou porque “toda a vida me disseram isto…”. Os jovens têm o direito de receber a informação mais completa sobre os mistérios da fé. A Igreja tem o grave dever de anunciar a inteireza da fé, sendo sal da terra e luz do mundo. O Catecismo não está reservado só a padres e freiras, mas deve ser conhecido de todos os fiéis. Mas mais do que conhecido, deve ser vivido. Não só o Catecismo, mas sobretudo aquilo a que ele leva: o Evangelho.
A segunda, a falta de conhecimento profundo sobre a doutrina católica. Com medo de críticas, de parecer conservador ou desajustado, a doutrina católica escondeu-se, guardou-se, esqueceu-se. Com medo de ser incompreendida, deixou-se de falar dos mistérios mais profundos, e mais belos, do amor de Deus. Assistiu-se a uma catequese truncada, em que era dada a catálogo seletivo, em que se falava de uma coisas, mas de outras já não era necessário.
É, assim, grande o número das pessoas que desconhecem os aspetos mais centrais do catolicismo. É ainda maior o número daquelas que sabem coisas erradas acerca da doutrina ou da fé católica. A sociedade é cada vez mais exigente, nos seus múltiplos aspetos. As pessoas precisam e exigem uma fé abrangente, que lhes responda às inquietações com a mesma profundidade que elas penetram na existência de cada um. A Igreja, no agora em que é chamada a cumprir a sua missão, tem de dar, e dá, resposta às exigências atuais, sempre presentes.
Este caminho de (re)descoberta é proposto, não imposto.
O caminho da Nova Evangelização, no contexto europeu, faz-se mediante uma (re)descoberta da fé. Num caminho doutrinal e espiritual, singular e pessoal, feito em comunidade. Com um mapa concreto: a doutrina da Igreja. Com uma guia específica, a Igreja, com todos os seus membros: bispos, padres, diáconos, catequistas e todo o povo de Deus, cumprindo a sua missão profética. Com uma meta pré-anunciada: a felicidade em Cristo na vivência da santidade. Com a seriedade que existe. Com a naturalidade do que é.
Este caminho de (re)descoberta é proposto, não imposto. Na inteireza da liberdade de cada pessoa, a predisposição para o fazer conduz a uma curiosidade cada vez maior no indagar os mistérios mais profundos que foram revelados ao ser humano. Só assim é que pode ser feito, na inteireza de um Deus que se propõe e não impõe.
A sociedade atual está repleta de superficialidades. O acesso ao conhecimento, a informação excessiva e a desinformação dominam o quotidiano de cada pessoa. Os tempos, na sua natureza, são incertos e voláteis. A Igreja não precisa disso para atrair os jovens. Precisa simplesmente de fazer o anúncio da fé, na sua integralidade. Propor o caminho do amor de Deus que Se entregou por nós. E este anúncio é uma missão não reservada aos clérigos, mas confiada a cada um dos batizados.
A fé é o bem mais precioso que podemos cuidar e cultivar. O rochedo firme sobre o qual poderemos construir a nossa casa. Exercita-se, alimenta-se, vive-se e desenvolve-se. É exigente; o tesouro mais exigente que podemos ter, mas ao mesmo tempo o mais belo!
Aos ousados, deixo como desafio o apelo do Papa Bento XVI: estudai o catecismo com paixão e perseverança! Aos céticos, lanço a proposta: permitam a vós mesmo indagar o caminho que é apresentado. Aos convertidos, deixo o repto: amem a Cristo, procurem sempre conhecê-Lo mais e melhor.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
