Precisamos de conviver melhor com o mistério - Ponto SJ

Precisamos de conviver melhor com o mistério

Convivemos mal com a ideia de que possam acontecer coisas extraordinárias. Temos dificuldade em admitir que o mundo não se esgota no que é mensurável, verificável e imediatamente explicável.

No primeiro domingo depois da Páscoa, enquanto comungava, dei por mim a pensar no mistério do que estava a viver: a Eucaristia. Bem sei que começar um texto assim tem qualquer coisa de embaraçoso, como se um católico só se lembrasse, de vez em quando, do centro da sua própria fé. Mas a verdade é que a reflexão é menos episódica do que a frase faz parecer.

Mas sim, dei por mim a pensar no corpo de Cristo feito pão, aquele pedaço circular de farinha de trigo pura e água que se transforma em alimento espiritual. E, ao mesmo tempo, entre as patifarias das minhas filhas de dois anos sentadas no banco de trás, pensei numa pergunta muito simples e muito difícil: como se explica isto a uma criança sem parecer que se está a mentir?

Mais tarde ou mais cedo, qualquer pai ou mãe se vê obrigado a explicar aos filhos coisas que parecem escapar às categorias normais do mundo. A diferença é que, quando falamos da fé, o problema torna-se mais sério. Já não estou a falar da história do Grufalão, ou de um truque para adormecer crianças. Estou a falar de uma realidade que a Igreja proclama como verdadeira, mas que desafia a lógica comum e, por isso mesmo, põe à prova até quem acredita, como eu.

Crescemos e dizem-nos que é para deixar de acreditar nessas coisas.

E é precisamente aqui que me parece estar uma das maiores dificuldades do nosso tempo: convivemos mal com a ideia de que possam acontecer coisas extraordinárias. Temos dificuldade em admitir que o mundo não se esgota no que é mensurável, verificável e imediatamente explicável. O sobrenatural tornou-se, no melhor dos casos, uma superstição simpática; no pior, um embuste. E, às vezes, temo que seja assim mesmo que alguns dos meus amigos não crentes me vejam: a cair, com toda a seriedade, num embuste. Crescemos e dizem-nos que é para deixar de acreditar nessas coisas.

Há de facto uma estranha associação entre maturidade e desconfiança. Como se amadurecer fosse, por definição, desaprender a admiração. Como se ser adulto implicasse olhar para tudo com um leve encolher de ombros, como quem já percebeu o mecanismo da ilusão e, por isso, se imunizou ao espanto. Foi talvez por isso que me veio à cabeça a figura do Pai Natal ou do coelho da Páscoa: primeiro, apresentamo-los às crianças como uma presença real; depois, mais tarde, “desfazemos a mentira”, como se ajudar alguém a crescer fosse necessariamente retirar-lhe a capacidade de acreditar no invisível. E, convenhamos, o Pai Natal ou o coelho da Páscoa não são os melhores dos exemplos para defender a fé, mas são perfeitos para mostrar a pressa com que declaramos certas coisas “resolvidas”.

O problema é que a fé nunca foi a mesma coisa que ingenuidade. A fé cristã não pede credulidade fácil; pede abertura. Não pede que fechemos os olhos à realidade, mas que aceitemos que a realidade é maior do que aquilo que conseguimos medir. E isso é muito diferente.

O humano não deveria viver só de utilidade. Deveria viver também de assombro.

E caramba (e isto devia espantar-nos mais do que espanta) o mundo está cheio de acontecimentos que desafiam a nossa primeira leitura. Vivemos rodeados de coisas que, se formos honestos, não cabem na explicação rápida que lhes queremos dar. Às vezes chamamos-lhes coincidência, outras vezes acaso, outras vezes apenas “a vida”. Mas há momentos em que isso soa a fuga. Uns mais “pequenos”, como o milagre de um orgulho engolido a tempo numa discussão entre marido e mulher, ou o miúdo popular que decide sentar-se ao lado do rapaz sozinho no intervalo. Ou maiores, como a pessoa que, contra todas as previsões, se salva de uma doença grave. E há ainda os milagres que a Igreja reconhece e que, goste-se ou não, nos obrigam a admitir que a realidade é mais vasta do que a nossa vontade de a encurtar.

Não estou a dizer que se deva acreditar em tudo. Nem que a fé seja um convite à credulidade. A fé, pelo menos a fé cristã, não é isso. Não é fechar os olhos e aceitar qualquer coisa porque sim. Também não é um truque emocional para nos sentirmos melhor. A fé é outra coisa: é a disposição para reconhecer que há uma realidade maior do que a nossa cabeça, e que nem tudo o que é verdadeiro precisa de caber numa fórmula. E a linguagem do nosso tempo tende a reduzir tudo ao que é funcional, mensurável ou útil. Só que o humano não deveria viver só de utilidade. Deveria viver também de assombro.

A própria tradição cristã sempre soube isto. Os milagres da Igreja são sinais, não truques para impressionar os céticos. Sinais de uma presença que nos ultrapassa. Sinais de que Deus não abandonou o mundo à sua própria lógica. Sinais de que a matéria pode ser atravessada pela graça. A Eucaristia é talvez o sinal maior dessa força: Deus não fica longe, não se limita a observar, não se contenta em inspirar à distância. Faz-se alimento. Dá-se. Aproxima-se. Entra na nossa pobreza pela porta mais humilde possível: o pão.

Precisamos de conviver melhor com a ideia do sobrenatural.

E, no entanto, quanto mais se insiste em dizer isto, mais nos apercebemos de que a dificuldade além de estar em explicar o mistério aos outros, está também em aprendermos nós a habitá-lo. Porque o nosso instinto moderno, o qual tantas vezes me conduz, é frequentemente o de domesticar tudo. Ou entendo, ou rejeito. Ou provo, ou desconfio. Ou controlo, ou ridicularizo.

É por isso que precisamos de conviver melhor com a ideia do sobrenatural. Não para abandonar a razão, mas para lhe reconhecer limites. Não para acreditar em tudo, mas para não perdermos a capacidade de acreditar no mais importante.

Assaltou-me o pensamento que o que está em causa, além da forma como explicamos a fé aos nossos filhos, é também a forma como a apresentamos a quem não a partilha. Escrevo isto a pensar nas minhas filhas, que vão crescer dentro desta fé, e gostava de lhes poder deixar textos como este, mas também penso nos meus amigos não crentes, sobretudo os do trabalho, de quem gosto muito, com quem passo os dias e com quem falo de quase tudo. Gostava de lhes poder enviar um texto assim sem que parecesse uma tentativa de conversão à força, mas simplesmente como uma maneira honesta de dizer: é isto que quero dizer quando falo de fé.

Se lhes dissermos – ou se nos disserem – que crescer é deixar de acreditar em coisas invisíveis, então estamos a educá-los para uma vida mais pequena. Mas se lhes mostrarmos que o mundo está cheio de sinais de graça, alguns discretos, outros espantosos, talvez lhes estejamos a ensinar que a realidade é mais vasta do que o cinismo permite ver e talvez lhes estejamos a abrir a porta a uma vida mais feliz.

E talvez seja esse o grande desafio: não escolher entre ingenuidade e descrença, mas recuperar a inteligência do mistério. Uma inteligência que saiba que nem tudo o que é verdadeiro se prova, nem tudo o que é real se mede, nem tudo o que conta se explica.

Ao escrever este texto, provavelmente com o benefício da distância, percebi que, naquele domingo, entre o Corpo de Cristo e a balbúrdia das minhas filhas, a questão não era tanto como explicar um milagre, mas como não perder eu próprio a capacidade de o reconhecer.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.