Eu e quase de certeza muitos outros que, já há muito tempo, fazemos Exercícios Espirituais de 7 ou 8 dias anualmente, confrontamo-nos frequentemente com uma certa desilusão: cada retiro parece que nos vai deixando mais ou menos na mesma. E, no entanto, mantemos viva a esperança de que na próxima vez é que vai acontecer a ambicionada transformação radical e definitiva.
Alimentamos esta expectativa na convicção de que uma semana de oração intensa será tempo suficiente para efetuar em nós uma mudança decisiva. Por trás, estará talvez a ideia de que conversão a sério tem de ser uma coisa bombástica e quase milagrosa, segundo o modelo da queda de Saulo a caminho de Damasco, que o transformou instantaneamente de perseguidor em convicto proponente do caminho de Jesus.
Subitamente, caí na conta que estava nesse momento a colher o que tinha desejado fortemente e pedido com insistência nuns outros Exercícios cerca de dez anos antes.
Se um retiro pode bastar, então tendemos a ver cada um dos Exercícios anuais como uma nova oportunidade para este recorrente, mas esperançoso processo, um evento que começa e acabará dentro de si mesmo, uma coisa estanque. Criam-se, assim, as condições para um ciclo anual repetitivo, que a médio prazo dá a impressão de uma estagnação de fundo que os frutos superficiais de curta duração no fim de cada retiro não conseguem transpor.
Há quase dez anos, ao aproximar-me do fim de uns Exercícios, experimentei um particular sentido e consolação que me pareciam resolver lutas e impasses de há muito tempo. Subitamente, caí na conta de que estava nesse momento a colher o que tinha desejado fortemente e pedido com insistência nuns outros Exercícios cerca de dez anos antes, e que já me resignara a que, mais uma vez, não tinham dado em nada. A essa nova luz, olhando o percurso completo, do fim para o princípio, tudo fazia sentido como um processo de transformação e aprofundamento que Deus tinha pacientemente construído em mim, sem eu notar o que se estava a passar.
Afinal, aqueles anos de aparente marasmo, às vezes de luta e provação, não tinham sido tempo perdido, embora os tivesse atravessado como falhos de sentido.
Esta experiência levou-me a voltar atrás e fazer a releitura, com olhos novos, das notas que tinha guardado dos vários Exercícios Espirituais desse período. Ainda mais se abriu diante de mim, ao ligar os conteúdos de momentos de oração marcantes que já tinha esquecido ou cujo alcance, na altura, me passou despercebido. Afinal, aqueles anos de aparente marasmo, às vezes de luta e provação, não tinham sido tempo perdido, embora os tivesse atravessado como falhos de sentido, sentindo-me atolado na minha tibieza espiritual, vencido muitas vezes pelas debilidades da minha fidelidade.
O que se revelou foi uma pedagogia suave, respeitosa, mas insistente, de Deus, que me tinha indo conduzindo, pouco a pouco, para a graça que, lá atrás, me tinha feito desejar e pedir com empenho. Já que rapidamente me esqueci desse desejo e pedido, caminhei os anos seguintes interpretando muitas vezes as coisas ao contrário, porque olhava isoladamente para o que se passava em cada momento do caminho por que estava a ser conduzido. Mas Deus não se esquece, e quando chegou a altura de colher os frutos, olhando para o percurso inteiro de desenvolvimento no tempo longo (o tempo de Deus), tudo aparecia cheio de sentido, e cada passo, mesmo os mais duros, ganhava um significado consolador.
A grande lição que retirei desta aventura é que os frutos de cada um dos Exercícios Espirituais anuais são também blocos de uma construção maior, oferecendo marcos significativos num processo de crescimento e transformação lento, discreto, mas fundo, que vai acontecendo num tempo muito mais extenso que os ritmos da nossa atenção e da nossa memória operativa. Se os olhamos apenas cada um por si, em ciclos curtos, facilmente poderemos estar a perder o mais importante. As moções, mesmo as mais intensas, de uns Exercícios, parecem rapidamente esgotar a sua força mobilizadora, caem no esquecimento e, passado mais algum tempo, deixam a aparência de ter sido fúteis. Mas os movimentos de longa duração que esses momentos relevantes em Exercícios sucessivos vão compondo, apesar de menos óbvios ou mesmo escondidos, porque mais profundos, são muito mais importantes e fecundos. Só precisamos de estar despertos para os reconhecer a seu tempo e aprender a lê-los.
Os princípios da ação de Deus em nós são quase sempre muito discretos, facilmente passam despercebidos e rapidamente os esquecemos. Mas Deus não se esquece e é fiel em levar à consumação tudo aquilo com que se compromete.
Não basta fazer, de ano a ano, cada um dos retiros de Exercícios Espirituais com «grande ânimo e liberalidade». Esse empenho, sustentado na confiança no método inaciano, leva-nos mais longe se motivar também atenção e releitura de toda a experiência espiritual acumulada num prazo mais largo.
As técnicas do examinar-se, fazer repetições e resumos não servem só para cada dia de oração nem se circunscrevem ao âmbito de um só retiro. Muito se ganha se forem aplicadas também à sequência de retiros anuais e ao que vai acontecendo nos tempos intermédios. Para isso, é essencial fazer e guardar notas detalhadas dos momentos de moções espirituais mais intensas, especialmente durante os Exercícios. Depois, pode-se voltar a esses registos, redescobrindo como crucialmente importante o que, no momento, muitas vezes tinha parecido pouco importante e que, entretanto, já se olvidou. A nossa memória não consegue guardar tudo. Até porque, à maneira da parábola do grão de mostarda, os princípios da ação de Deus em nós são quase sempre muito discretos, facilmente passam despercebidos e rapidamente os esquecemos. Mas Deus não se esquece e é fiel em levar à consumação tudo aquilo com que se compromete, incluindo também os nossos desejos que nos impelem a insistentes pedidos de graças concretas. Nos tempos de Deus, não nos nossos.
A nossa colaboração com este compromisso fiel de Deus pede-nos trabalho de atenção e registo, guarda e cuidado das experiências espirituais que vamos recebendo ao longo do tempo. Como bons administradores, aplicando a este tesouro pessoal os diferentes «exercícios espirituais» que conhecemos, recorrendo às nossas faculdades de memória e análise, releitura e procura ativa de continuidades e padrões, abrimos a possibilidade que se revelem um sentido e frutos de maior dimensão e alcance.
Porque não arriscar um encontro de fim de semana para refletir em conjunto e partilhar experiências, explorando o potencial que esta consideração dos tempos longos nos pode abrir?
Será que isto é uma experiência só minha, parte da minha idiossincrasia, ou haverá outros que se reveem no mesmo modelo e poderão também aproveitar do que estou a começar a aprender? Porque não arriscar um encontro de fim de semana para refletir em conjunto e partilhar experiências, explorando o potencial que esta consideração dos tempos longos nos pode abrir?
Assim, a proposta do fim de semana de 24-26 de outubro de 2025 em Soutelo (Casa da Torre), que no programa se chama: “Deus não se esquece: Recuperar as graças dos EE anteriores”. Oferecer-se-ão enquadramentos bíblicos, teológicos e inacianos para ajudar a ler a ação transformadora de Deus nos tempos longos; tempos de apropriação pessoal recordando a experiência própria; e serão, finalmente, consideradas ferramentas para auxiliar a integração dos percursos de crescimento espiritual profundo, mas lento e discreto, no caminho inaciano.
As inscrições estão abertas!
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
