Este é um texto sobre cancro.
Este é um texto pascal.
Este é um texto escrito de forma semelhante àquela que o Escritor escreveu o livro.
Andava a ler Murakami. Tinha talvez pousado os olhos na capa de um livro que a minha mãe tinha no topo de uma torre de lombadas de diferentes cores e tamanhos, em cima da escrivaninha da sala. Cada um com uma tipografia própria, uma gramagem única, um universo inteiro a mergulhar. Não sei o que me fez pegar nele e começar a ler. Kafka à beira-mar foi o primeiro. Talvez por Kafka e Murakami serem nomes que reconhecia, talvez a alusão ao mar. O azul do mar. Sempre o azul. Naveguei pelo surrealismo japonês e apaixonei-me pela desconstrução a que era obrigado quando olhava a vida através daquelas linhas impressas em papel.
Em outubro do ano passado, tinha deixado a leitura de romances de lado há uns meses, para me concentrar nos estudos para a Prova Nacional de Acesso ao Internato Médico. Nesta altura, a minha mãe andava a ler três ou quatro livros enquanto trazia outros tantos para casa. No meio da nova pilha de aquisições, estava o livro que será tema deste texto. No fim de o ler, a minha mãe emocionada disse-me que tinha de o ler. Que era importante que eu o lesse. A minha mãe dizia isso de quase todos os livros, mas houve algo naquele que a tinha tocado. Transformado, talvez. Disse-lhe que sim, como digo sempre. Mas o livro teria de esperar. A prova era em fins de novembro e até lá não haveria tempo nem disponibilidade, ou melhor, pelo menos que eu quisesse. Depois seguiam-se umas merecidas férias na Tailândia, talvez aí fosse comigo na bagagem.
De malas prontas, agarrei no livro e li-lhe a contracapa.
Este é um romance habitado por homens e mulheres de várias idades, com origem em diversos contextos, de Moçambique à Venezuela, de Ponte de Lima a Oliveira de Azeméis, que têm em comum a sua condição de pacientes do Instituto Português de Oncologia do Porto.
Revirei os olhos. Um livro sobre cancro. De certeza que seria um daqueles romances sentimentais e fatelas como os filmes de Hollywood. De certeza que falaria de Medicina e doenças, que era tudo o que queria esquecer depois de meses a fio a estudar para o exame. De certeza que falaria de morte, porque quase todos os cancros acabam assim, ou pelo menos aqueles que lembramos. Decerto não seria uma boa companhia nas praias paradisíacas do outro lado do mundo. Deixei-o em casa e levei comigo um Murakami.
§
Falemos do Leitor do livro. O Leitor daquele livro que é quem escreve este texto. Poderíamos chamá-lo de Escritor, mas ele não tem essa pretensão e corríamos o risco de o confundir com o Escritor do livro. Por isso, a partir daqui vamos chamá-lo de Leitor.
O Leitor não levou consigo o livro. Obviamente tinha razões para o fazer, ou melhor, para não o fazer. Mas o livro continuou pousado na mesinha de cabeceira do seu quarto, do lado da cama em que dormia o Leitor, a observá-lo, expectante. Por vezes, o Leitor fitava-o. Sentia a capa de cartão maleável dobrar-se nas suas mãos, o relevo do título e do nome do Escritor sob a ponta dos seus dedos. Observava a colagem de recortes e imagens que compunha o design da capa. Partes de corpos, desenhos anatómicos como os dos livros de estudo, depois o esboço de uma célula cancerígena e de um inseto voador, um mosquito talvez, e em baixo o contorno de uma montanha. Por vezes, chegava mesmo a abrir o livro e deixava que as páginas deslizassem rapidamente sob a passagem do seu polegar pela margem das folhas só para sentir o cheiro e a textura da gramagem. Mas depois voltava a pousá-lo milimetricamente no sítio onde estava.
O Leitor conhecia pessoas que tinham ou tiveram cancro. O Leitor tinha perdido pessoas para o cancro. E talvez isso o incomodasse. Talvez o tivesse tornado numa pessoa mais fria, num médico mais frio. Talvez fosse por isso que não se decidia em ler o livro. Talvez tivesse medo.
§
Encostei o corpo cansado na cabeceira da cama. O turno de doze horas de urgência tinha sido horrível. Estava há três meses naquela casa, naquele hospital, naquela cidade. Olhei para a direita. A cama ao meu lado, vazia naquele dia, com a janela fechada ao fundo. À esquerda, uma mesinha de cabeceira com um candeeiro aceso e uma pilha de meia dúzia de livros. À luz ténèbre da lâmpada distinguiam-se as letras que escreviam o título do primeiro. A Montanha. Peguei nele. A mão esquelética da capa lembrava-me o corpo consumido pelo cancro de um doente que tinha visto naquela tarde. Abri o livro na primeira página, uns agradecimentos. O Escritor agradecia ao João, à Alice, ao Filipe, ao Jorge, ao Daniel e à Fátima, assim como às suas famílias. Com certeza os nomes dos doentes retratados no livro, ou pelo menos em quem se baseava a história. Tentei perceber se me lembrava do nome do meu doente. Avancei para a página seguinte, duas citações. A primeira, nada mais, nada menos, que Murakami.
Mountains, according to the angle of view, the season,
the time of day, the beholder’s frame of mind,
or any one thing, can effectively change their appearance.
Thus, it is essential to recognize that we can never know
more than one side, one small aspect of a mountain.
Sorri devido à ironia daquela coincidência e entreguei-me ao livro.
§
O Leitor está neste momento a escrever este texto. Escreve-o num caderno A5, sem linhas, com uma esferográfica azul, que mais tarde irá passar a computador. À sua frente, o livro pousado para que possa reler algumas passagens consoante a necessidade. Falta um minuto para a uma da manhã da noite de Sexta-feira Santa para Sábado de Aleluia. O texto que o Leitor escreve devia ter sido entregue nesse dia. O Leitor não sabe como há de continuar o texto e por isso faz este desabafo. Pelo canto do olhar, vislumbra o crucifixo que tem pregado na parede em frente à secretária. Pede inspiração ou o que quer que se peça nestes casos, mas apenas sente fome. A barriga a contorcer-se, reclamando do estômago vazio após aquele dia de jejum. E então lembra-se de Alice.
§
Alice não tinha estômago, tinha feito uma gastrectomia. Alice não tinha cancro, nem tivera. Precisara de sujeitar-se àquela operação porque era portadora de uma mutação genética que aumentava muito o risco de ter cancro do estômago. Os médicos acharam melhor prevenir. Enquanto lia o livro, imaginei-me sem estômago como Alice. Sabia perfeitamente como era a cirurgia na teoria. Depois de remover o estômago, o intestino delgado era cortado em dois pedaços. A parte maior unia-se diretamente ao esófago e a parte menor à maior. Gastrectomia total em Y de Roux com esófago-jejunostomia e jejuno-jejunostomia. Mas isso era muito diferente de me imaginar sem estômago. De me imaginar sem digestão, condenado a uma dieta pastosa, sem fome.
Pensava também em Fátima, 23 anos, mais nova que eu. Católica, como eu. Sem os dedos da mão, mais tarde sem o braço, como se um veneno que lhe corroesse a carne e os ossos a consumisse aos poucos, membro acima. Como é que eu poderia viver sem um braço? Por momentos fechava os olhos e contemplava a minha rotina com essa nova condição. Seria impossível atar uns atacadores ou puxar um fecho, comer de faca e garfo, conduzir, colher sangue a um doente, ser médico de todo.
E amar e deixar-me amar assim? Ferido. Com o cabelo encaracolado a cair, queimado pelas injeções de químicos nas veias, o corpo definido a minguar, a pele vincada e apertada contra os vértices do esqueleto. João casou assim, num quarto do IPO do Porto, com Susana, aos 34 anos. Penso em Casa. O contacto telefónico com que o Escritor vai falando ao longo do livro quando está longe. Só para partilhar o dia, perguntar se está tudo bem, mandar uma foto daquele lugar. E penso na minha Casa. Se me deixaria amar assim.
§
O livro do Escritor é composto por relatos soltos, fragmentados, sem ordem cronológica. Assim como este texto. São perspetivas diferentes da Montanha, olhares únicos. Alguns existem no passado, outros são o presente e outros existem apenas no campo da imaginação ou do futuro. O Escritor fala muito no pai que morreu de cancro. A vida do Escritor é vivida a partir daquela dura realidade. Com os olhos postos no pai e a partir do olhar do pai. Ele e o pai são por vezes dois num só. O Leitor pensa naqueles que perdeu para o cancro e não sabe se os deve mencionar, contar as suas histórias e dizer os seus nomes. Será que tem esse direito? O Leitor pensa nos seus nomes. O Leitor pensa nos leitores deste texto e naqueles que também perderam para o cancro. Os leitores deste texto pensam nesses nomes. E talvez isso seja suficiente.
§
Penso em Deus e no porquê de permitir que o cancro exista. Vou subindo a Montanha surreal de Murakami e são mais as perguntas que as respostas. A dúvida trespassa-me o peito. Olho para esta face da Montanha, a que existe e conheço. Mas logo surge a penumbra ou um feixe de luz e a Montanha muda de feições. Imagino os meus pais com cancro. Imagino que Deus possa permitir isso. Conduzo pela autoestrada entre Braga e Coimbra. Entre Casa e os meus pais. Entre o trabalho no hospital e a doença dos meus pais. Entre a manhã que se levanta e um entardecer sombrio. Mais uns passos e a Montanha pinta-se de outros tons. Casa está doente. Imagino o casamento num quarto de hospital, o pedido no leito de uma maca de hospital. Pergunto-me se irei ser pai como Jorge e Daniel. Qual o nome deste filho que vou ter? Será o fruto de um amor tão grande, impenetrável à doença, ao cancro, à morte? Olho de relanço o crucifixo. Aquele filho. De um Amor maior que o meu.
Fecho os olhos. Abro-os. Estou deitado numa cama, num quarto que não conheço. Os lençóis pesados em cima do corpo. As luzes no teto, cálidas, espalham a sua brancura queimando as paredes. O som de solas de borracha a aproximarem-se mistura-se com uma sinfonia de alarmes e vozes distantes. Pela janela do quarto avisto uma montanha recortada na paisagem.
§
«O meu pai chama-me: tu não ouves?
A palestra é a conclusão, eu sei que a palestra é a conclusão e, por isso, começo a despedir-me de tudo, sei que agora é agora. Tenho pena de tudo o que começo agora a perder para sempre, até os objetos mais comuns. Olho para a cama, esforço-me por vê-la. De todas as camas em que estive, tantas, esta é a última. O meu coração ainda bate, e tenho pena de saber que nunca mais vou encontrar as camas em que estive, as noites que dormi em todas essas camas, as idades que não sei se valorizei.
Não tenhas medo, diz o meu pai.
Despeço-me da montanha durante muito tempo. Mesmo quando já estou longe da janela, quando a cadeira de rodas desliza pelo corredor, os pneus de borracha a serem silenciosos no chão, os sapatos de borracha a serem silenciosos no chão, continuo a despedir-me da montanha. O único ruído são as luzes que se alternam sobre a minha cabeça, as lâmpadas fluorescentes que, à minha passagem, entre um e outro clarão, piscam, piscam, piscam. A voz do meu pai acompanha-me, trata-me pelo nome, sossega-me, é um murmúrio que persiste. Digo: pai, e não consigo dizer mais nada, deixo só esta palavra dentro de mim.
Passo por lugares do hospital que não conheço, hospital?
Estou de pé, não sei como. À minha frente, a cobrir-me todo o campo de visão, está uma parede de luz, não sou capaz de olhá-la diretamente. Serão os holofotes apontados para este palco, demasiado intensos, holofotes para cegar. Sei que por trás desta incandescência, está uma multidão. Este é o momento em que começo a ler o que escrevi para a palestra, a conclusão: Não se pode explicar tudo.
O meu pai chama-me.
É este o fim? Não tenho a certeza. Percebo agora que foi sem certezas que vivi toda a vida. Não tenhas medo, diz o meu pai. Não tenho medo, não tenho medo. Digo, pai, e, tão leve, sem medo, caminho na sua direção.»
in José Luís Peixoto, A Montanha, Quetzal Editores, outubro de 2025.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
