A distância do conforto, mesmo que por escolha — privilegiada e repleta de sorte — é sempre um desafio. A distância da família, dos amigos, das rotinas, do cheiro dos lençóis de casa e da igreja (física) da nossa rotina são todas elas adversidades para qualquer estudante em Erasmus.
No último mês e meio, cada domingo tem sido celebrado numa capital europeia diferente. Esta experiência serviu para aprender algumas coisas sobre a fé e sobre a Igreja. De Budapeste a Varsóvia, todas as comunidades com que me cruzei eram tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão iguais. Diferentes, porque — tal como o mundo é diverso — a Igreja também o é, como parte deste mundo. E isso é sempre um bom lembrete, num tempo com ventos tão “puros” e individualistas. E iguais, no conforto. Em todas elas sentia-me profundamente aquecido. Na porta da igreja deixava o peso da ansiedade e as saudades de casa — essa porta, umas vezes mais dourada, outras vezes mais simples — mas que, no fim, pouco relevava para a dimensão do que guarda.
Entre a distância, o desconforto e o encontro com a diferença, o Erasmus é um verdadeiro teste à confiança e à entrega ao Pai. É um período especialmente propenso ao imediato, ao supérfluo e ao sentimento de inconsequência das nossas ações. Não é apenas uma questão de resistir aos impulsos e às pressões do mundo — essas, curiosamente, não têm sido o meu maior desafio. A adversidade, dadas as diferenças entre todos os que me rodeiam nesta aventura, é não cair na tentação de julgar, criticar e, por isso, colocar a minha mundividência num pedestal acima dos outros.
Este caminho longe de casa exigiu — e continua a exigir — todos os dias o despojamento do que não é essencial.
Como afirmou o Papa Francisco, “o único momento em que é lícito olhar uma pessoa de cima para baixo é para a ajudar a levantar-se”.
Ser crítico dos outros com severidade é sempre uma tentação. E esse pensamento farisaico — de quem se julga superior — não só impede de viver a oportunidade na plenitude, especialmente a nível espiritual, como entra em contradição com todo e qualquer esforço de levar e anunciar a mensagem de Cristo durante estes meses de distância.
Outro desafio tem sido o despojamento. Mesmo que pelos melhores motivos, este caminho longe de casa exigiu — e continua a exigir — todos os dias o despojamento do que não é essencial. Quando comecei a escrever, achava que o despojamento dizia respeito apenas a objetos. Mas não: é também deixar para trás as conversas sem interesse, as dinâmicas do dia a dia que nos afastam do essencial e que, vistas a 2 350 quilómetros de distância, revelam a sua verdadeira dimensão.
Tudo é tão pequeno visto daqui. Tão irrelevante. Menos o quê? A mãe, o pai, os manos, o avô, os amigos — e, claro, Ele.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
