A casa das bonecas - o mecanismo dos afectos - Ponto SJ

A casa das bonecas – o mecanismo dos afectos

"Valor sentimental" é a história e o filme que eu gostaria de ter escrito e realizado se a minha vida não fossem sentenças e poemas.

Chama-se Nora.

Como a heroína de Ibsen, dramaturgo norueguês que tem enchido a minha vida de beleza.

Uma das suas peças modernas mais conhecida e encenada, «A Casa das Bonecas» define na perfeição o génio com que Henrik Ibsen foi pioneiro da prosa dramática e realista.

Nora personifica a luta humana contra a humilhante pressão das convenções da sociedade.

Jane Fonda já o foi no cinema.

No filme «Valor Sentimental», estreado agora em Portugal, foi Renate Reinsve, actriz norueguesa de quem se fala – falo da obra de Joachim Trier, nascido dinamarquês, nacionalizado norueguês, que já nos tinha dado o superlativo «A pior pessoa do mundo».

Aqui a casa – aquela casa – é uma personagem.

Passam as estações, o frio passa a deserto, as idades atropelam-se e as histórias das gentes que a habitam dilaceram-nos.

Há bons momentos.

De veludo e alecrim.

Há chuva ácida.

De muita solidão e desamor.

Há ali um pai abandonante, artista como poucos, capaz de inventar pétalas de ouro no Cinema, incapaz de abraçar as filhas que gerou e a mulher Sissel (esta que optou por desistir da vida).

Sissel, psicoterapeuta, consultava pacientes na casa, naquela casa.

E Nora tudo ouvia, de forma clandestina (em registo e memória a lembrar Woody Allen em «Uma outra mulher»), como se aqueles desabafos de vida lhe servissem de alibi para a tristeza.

E ali conhecemos a infância de Agnes e Nora, filhas improváveis de um casal desavindo, unidas pela desdita e pelo abandono emocional.

Arte havia aos montes, ternura nem por isso.

E aquela casa torna-se pesada ou leve, depende dos dias e das monções.

Como se houvesse uma varanda vermelha que afugenta a felicidade, por mais que ela seja procurada.

Há uma avó resistente anti-nazi, uma tia libertária e hippie, uma actriz que tem ataques de ansiedade à entrada da boca de cena, um menino louro de morrer a quem o avô oferece filmes impróprios para a sua idade, protagonizados pela Isabelle Huppert ou a Mónica Bellucci.

Porque a Arte tudo perdoa, tudo permite.

Há neste filme muitos rostos.

Os que salvam a vida.

E neles reside a magia do Cinema.

Num argumento absolutamente brilhante, verdade e ficção misturam-se como água e azeite, num jogo de espelhos incapaz de nos sossegar.

Serei eu capaz de me interpretar a mim própria? É tão difícil fazermos de nós próprios…

Nora recusa fazer de si própria no último filme do pai realizador, Gustav Borg.

E refugia-se nas suas teias e nas suas tábuas de sempre, teatro salvífico que a cura do desespero suicida, herdado da mãe.

Não entende aquele Pai.

Não perdoa àquele Pai.

Por o amar desmesuradamente.

Gustav escolhe Rachel, ícone da actualidade, para personificar Nora.

E é a própria Rachel (fantástica Elle Fanning) que reconhece que tem de sair de cena para dar lugar ao espaço emocional e ao bailado de balanço de vida entre pai e filha, capaz de enternecer o mundo, naquele sorriso final onde as pazes se fazem, onde a tristeza ganha foros de alegria.

Como Julieta Monginho escreveu:

«Quem chega mais fundo? A actriz que deseja entender a personagem ou a personagem que se surpreende com um súbito reconhecimento de si mesma, depois do tormento a tentar encontrar-se? Ou a personagem/actriz reconhecida? O impacto destas interrogações no olhar atento mas sempre desprevenido do espectador – pelo menos do meu – vale bem duas horas e tal de atracção pelo ecrã».

Esta Obra invoca-me Deus.

E aquilo que ele nos entrega na alma, como as coisas mais importantes do mundo.

Todos nós preferimos as outras.

As que magoam.

As que ferem de morte e deserto o nosso encontro com os Outros.

Naquele filme há utopias – no tempo das opalas e das cobaias, das cigarras e das formigas, das preces a Deus e das revoltas de estados de alma.

Gigantes os actores (Stellan Skarsgard merece aqui o OSCAR de uma vida), poética a encenação, montagem e direcção artística, portentosa a luz e a fotografia, a lembrar Bergman dos melhores anos.

Opereta perfeita, com banda sonora excelente, SENTIMENTAL VALUE vale todo o nosso tempo.

A vida é um romance, sabemo-lo desde Resnais.

Hoje sei que é uma peça encenada, com brilho e muita mágoa, salpicado por confettis e vinho azedo, depois de ver Trier.

Valeu a pena?

Tudo me fez ali reencontrar com a grande Beleza.

Toda a melancolia do mundo cabe naqueles olhares nórdicos, naquela sinfonia de amor, contradição, disfunção e garra que só as famílias têm (e o mecanismo dos afectos, o tal que tem de comandar o futuro, aqui funciona na perfeição, naquele abraço de irmãs, naquele pedaço de sorriso final entre Gustav e Nora, naquelas casas de bonecas que nunca se chegam a desmontar).

Tudo o que passa na infância não fica na infância, lembram-se?

Por ali sentimos a necessidade de acreditar que o afecto é a âncora de segurança da criança e que o amadurecimento de habilidades como raciocínio, memória, atenção e criatividade tem relação directa com o afecto.

Crianças perseguidas por um passado que dói, adultos angustiados por um presente que não chega a redimir aquilo que tanta falta lhes faz.

Esta é a história e o filme que eu gostaria de ter escrito e realizado se a minha vida não fossem sentenças e poemas.

Uma única perplexidade – a que me assolou, entristecido, por ver que na sala ao lado se projectava um filme intitulado MELANIA com mais espectadores do que o meu (sim, é alusivo à boneca que casou com aquele que governa o mundo).

Não consigo comentar esse facto insólito.

Faltam-me as palavras.

E as casas de bonecas.

Já não me faltam as palavras para este filme.

Porque falar dele também pode ser – e é – um acto de AMOR, o mesmo que o Senhor Deus nos deu para ofertar sem saldos ou meias-palavras…

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.