A busca de Deus em António Lobo Antunes - Ponto SJ

A busca de Deus em António Lobo Antunes

António Lobo Antunes lutou com Deus toda a sua vida. Como é que biografia e Deus se cruzam no conjunto da sua obra literária?

“Há alturas em que o sinto tão fortemente em mim, alturas em que o sei tão longe”.

A morte de António Lobo Antunes (1942-2026) fez-me voltar a umas fichas de leitura sobre a sua obra. O foco central das minhas notas é a relação entre literatura e espiritualidade. Concretamente pretendi analisar como biografia e questão de Deus se cruzam no conjunto da sua obra literária.[1] Assim, proponho um percurso que começa com a relação entre autobiografia e referências ao universo religioso do autor. Parece-me relevante articular estes dois aspetos dado que se podem ler como o pano de fundo para problematizar o lugar de Deus no itinerário de Lobo Antunes. Deus surge como alguém a ser confrontado e permanente questionado. Como que a recordar uma luta do homem com os deuses, é possível desenhar os traços de um itinerário espiritual onde nos questionamos quem sairá vencedor.

1. Autobiografia e escrita

A obra literária de Lobo Antunes não pretende ser autobiográfica em sentido estrito. Todavia, da leitura dos seus escritos fica patente uma conexão entre o seu itinerário existencial e as marcas religiosas recebidas por herança cultural. Neste sentido, parece-me importante destacar dois aspetos. O primeiro tem a ver com a experiência de vida, que é determinante na construção da sua obra. Mais que uma intenção autobiográfica, a sua vida preenche os seus escritos. O segundo é de tipo sociológico, ou seja, não se refere apenas ao caso do autor, mas às grandes questões políticas, culturais e sociais das últimas décadas do século XX português (o salazarismo, a guerra colonial, o conservadorismo etc.), bem como os problemas emergentes do mundo contemporâneo: as dificuldades de comunicação, o malogro nas relações afetivas, a mutação na conceção de família etc.

Tudo isto está presente na vida do autor. É-lhe dada uma educação política e religiosa convencionais; cresce numa família que vive segundo preceitos tradicionais. Quer ser escritor, mas o pai rejeita essa profissão obrigando-o a seguir medicina. Lá vai fazendo o curso, com faltas e cábulas, mas é atirado para a guerra em Angola. Casa-se como tantos outros antes de embarcar e mergulha numa experiência de guerra que o desperta para um “horror que não é só o da guerra, mas atinge na sua mente a política, a sociedade, as relações humanas, o cerne do sentido de viver”.[2]

A vida de António Lobo Antunes é ainda marcada por crises: afetiva, profissional e psicológica. A crise afetiva traduz-se na separação conjugal, na má consciência em relação às filhas e nas relações ambivalentes com a família. A crise profissional carateriza uma clivagem depressiva entre a profissão de médico e a de escritor, emergindo em momentos de revolta e de sucesso. A crise psicológica está profundamente ligada à memória de tudo o que se cristaliza na escrita, mas permanece em carne viva na vida do escritor. A autobiografia interessa, sobretudo, no que se refere às fases da sua vida que têm implicação comunitária: a infância em família conservadora e culta; o sofrimento na guerra colonial e na doença; a experiência clínica em psiquiatria; a condição fundamental e contínua de escritor.

2. Universo religioso católico

O conjunto da obra literária de António Lobo Antunes espelha um universo em que as personagens apresentam uma relação de proximidade com os preceitos, rituais e formas de devoção da religião católica. A vida familiar, sobretudo na infância das personagens, é pautada pelo calendário religioso e pelas vivências religiosas praticadas pela burguesia católica portuguesa que o narrador de Os Cus de Judas sintetiza da seguinte forma: “a mim, filho da Mocidade portuguesa, das Novidades e do Debate, sobrinho de catequistas e íntimo da Sagrada Família que nos visitava a domicílio numa redoma de vidro”.[3] Dessa prática, destacam-se ainda algumas cenas, recorrentes ao longo das obras: as visitas do padre, as conversas sábias e os doutos ensinamentos, a referência às atividades de benevolência e aos objetos de devoção que recheiam a casa, as representações de uma certa forma de viver a religiosidade.[4] Por fim, muitas personagens rezam, umas quando assistem a missas, outras, quando sentem estar em situações difíceis e apelam, por isso, à ajuda divina como “as duas catequistas que aguardavam vez principiaram a rezar o Padre Nosso em voz alta”, temendo a violência da “maluca do Bombarda”.[5]

São sobretudo as crónicas que afloram certos momentos do calendário católico, com especial relevo para as festas religiosas da infância, como a primeira-comunhão[6] e para as épocas mais significativas do ano, como o Natal e a Quaresma. Referem-se normalmente ao período da infância, considerado pelo autor como o período mais feliz da sua vida: “Nesta altura do ano, quando chega o Natal lembro-me sempre do meu avô. Quer dizer lembro-me muitas vezes do meu avô, mas lembro-me imenso do Natal porque enquanto o meu avô viveu foi a época mais feliz da minha vida”.[7] O Natal no tempo da infância está povoado de simbolismo: o perú, os presentes, o presépio “com montanhas de cartolina, musgo e pedaços de espelho a fingir de lagos”, os vestidos, “as bolas que partiam vidros e terrinas”, os rebuçados e o “avô de boquilha que presidia à confusão com um sorriso”.[8]

Contudo, depois da morte do avô, “os Natais acabaram”. Ele representava uma espécie de suporte familiar e afetivo que garantia uma quase harmonia primordial e universal. A sua morte instaura um vazio existencial que destitui de simbolismo a própria memória do Natal: “Os Natais agora são o que vejo nas montras das lojas”, “sou eu atrás de palavras de um romance”.[9] Todavia, o narrador vive permanentemente da saudade de um paraíso perdido, ou seja, o de voltar a viver o que viveu na infância: “Mas pode ser que para o ano me ofereçam uma pistola de raios fulminantes e ao disparar o primeiro o meu avô reapareça, me volte a pousar a mão no ombro… e eu sinta de novo a sua força e ternura, sinta de novo, como sempre senti, que estando junto dele nunca nenhuma coisa má, nenhuma coisa triste me poderia acontecer porque o meu avô não havia de deixar”.[10]

Se o período do Natal é engrandecido pelas vivências familiares, o que confere à memória deste tempo um carácter positivo, quando o autor se refere à Quaresma, retrata-a como o lado obscuro da religião católica: “A seguir ao Carnaval, vinha o período medonho da Quaresma. Eu era menino de coro e apavorava-me com a igreja cheia de ecos, as imagens aterradoras dos santos”.[11] Além do ambiente litúrgico quaresmal, o autor refere-se também, com alguma ironia, às suas consequências na vida social: “Durante a Quaresma não se podia fazer barulho, acender a telefonia, brincar visto ser de mau gosto divertir-me numa altura em que Jesus, todo picado de espinhos, andava com resignada paciência a morrer pela gente. A mim parecia-me um pouco exagerada e sem sentido aquela agonia anual que durava que tempos e nos obrigava a todos a um silêncio triste”.[12]

A rigidez dos ritmos cristãos contrastava com a vida de outras pessoas, tal como a do jardineiro que na Quaresma “cantarolava enquanto regava as flores, a comer com descaro sanduíches de paio à sexta-feira”.[13]

De um modo geral, o período da infância marca para o autor uma certa ambivalência entre a vida em família, assente em valores e práticas de tradição católica, e a vivência do catolicismo “militante” obscuro e associado ao regime político da época: “os que não gostavam dele [do doutor Salazar] não gostavam de Deus e era mais que certo irem para o inferno. Se eu por exemplo me atravesse, na Quaresma, a fazer um puzzle na mesa da sala de jantar ofendia simultaneamente a Virgem Maria e o Presidente do Conselho, que me apresentavam sempre como amigos íntimos”.[14]

Face a estas afirmações parece legítima a pergunta: as Crónicas são relatos do que o sujeito viveu, ou fruto de uma reflexão posterior que traduz uma atitude reflexiva e crítica, contemporânea ao autor, face à religião?

Verificamos que no conjunto da obra literária de Lobo Antunes, os diferentes narradores, mesmo não assumindo qualquer simpatia pela religião e suas práticas, manifestam que o universo religioso povoa os caminhos existenciais das personagens, influenciando a sua forma de pensar e caracterizando as suas atitudes.

3. A questão de Deus

A questão com Deus está presente no universo literário do autor, quer nos romances quer nos livros de crónicas. Na crónica “A existência de Deus”, o narrador retrata-nos o seu percurso de relação com Deus. Em primeiro lugar afirma a existência de Deus e faz uma descrição da sua imagem: “Não preciso que ma provem porque conheço Deus desde que nasci, ainda antes do catecismo, ainda antes das aulas de moral no liceu, ainda antes de ser menino de coro”.[15] A imagem do Deus da infância era a de um “senhor de idade, cerca de sessenta anos, barba comprida e cabelo branco comprido também”.[16] Em segundo lugar afirma que esta representação de Deus “Daí para cá mudou um pouco”.[17] Embora não explicando o significado dessa mudança em termos de relação com Deus, o narrador associa essa descrição de Deus aos artistas que se parecem com Ele, se não na produção de obras de arte, pelo menos na descrição física, pois “Gide espantava-se sempre de haver mais artistas do que obras de arte”.[18] Depois, o narrador critica a forma como lhe ensinaram as coisas sobre Deus, sobretudo no que tocava à vida social assente na dicotomia pobres/ricos e na sua repercussão na vida futura, assente no sistema tradicional da retribuição céu/inferno. A crítica ao simplismo com que lhe falavam destes temas é expressa em afirmações como estas: “Deus amava os pobres aos quais em morrendo seguiam direitinhos em flecha para o Céu”, ou “Deus detestava essencialmente três coisas, todas elas conducentes ao Inferno em consequência das sua gravidade indesculpável: não comer a sopa até ao fim, arreliar as tias e chamar nomes à cozinheira”, ou ainda, “os adultos não pecavam porque não partiam vidros, lavavam as mãos antes de se sentarem à mesa”.[19]

A visão tradicional do céu e do inferno, como sistema de retribuições futuras, onde o que é bom hoje não corresponde ao lugar onde se estará, conduz o autor a “pensar que o Paraíso era uma espécie de Casa do Povo, cheia de jardineiros e mulheres-a-dias, todos de palito nos dentes e cotovelos na toalha”. Por isso, nunca entendeu o motivo pelo qual a sua família queria que ele “fosse membro daquela possidoneira pegada”.[20]

A mudança na representação de Deus referida pelo narrador parece estar relacionada com uma reflexão crítica acerca da forma como se vive o presente como determinação da vida futura, pois “hoje, entre o Céu e o Inferno, hesito na escolha. Começo a suspeitar que a solução é não cair na asneira de morrer”.[21]

No Segundo Livro de Crónicas, na «Crónica sobre Deus» encontramos uma das definições mais completas da relação que o narrador estabelece com Deus: “Quando perguntaram a Voltaire como era a sua relação com Deus respondeu – Cumprimentamo-nos, mas não nos falamos e julgo que pela minha parte, não ando longe disso, dado haver coisas que me parecem tão injustas. Fui menino de coro e a igreja assustava-me, grande, solene, cheia de mistérios e correntes de ar, que me faziam aparentar a religião a um sítio ventoso de onde se saía aos espirros”.[22]

Em ambas as Crónicas a personagem aparece “dividida entre, por um lado, o que em si persiste de fé e as práticas ensinadas pela família que, desde menino lhe custaram a aceitar e, por outro, essa ténue fé e a injustiça dos males de tantos seres humanos”.[23] O recurso literário utilizado para expressar o desinteresse pessoal do autor e o distanciamento emocional das crenças comuns é a ironia. O tom irónico é usado invariavelmente nas referências às práticas religiosas. Por exemplo, o narrador de Os Cus de Judas, em Angola, imagina a sua morte após prolongadas “orações ao Divino Espírito Santo, e promete a si mesmo, num fervor de peregrino de Compostela, se conseguir regressar com vida, afadigar-se a construir, a partir do [seu] nada confuso, a digna estátua de bronze do marido e do filho ideais, talhado segundo o modelo das pagelas dos mortos no missal da avó, criaturas repletas de qualidades e virtudes à Santa Teresinha e das quais conhecia apenas os sorrisos resignados”.[24]

Nos romances Não entres tão depressa nessa noite escura (2000) e Boa tarde às coisas aqui em baixo (2003), surge um novo recurso literário para dizer a relação de proximidade com a religião, a citação. Até aqui os textos sagrados não faziam parte das fontes usadas por António Lobo Antunes, registando-se o uso privilegiado de letras de canções e textos literários. Essa prática é contrariada, em Não entres tão depressa nessa noite escura, com a aposição[25] de epígrafes extraídas do Livro do Génesis, introduzindo os sete capítulos[26] que compõem o livro cuja “relevância não consiste apenas na tonalização da criação literária de acordo com uma ideia de criação do mundo, mas sobretudo no facto de que os primeiros parágrafos do Pentateuco nos são aqui comunicados na íntegra, em parcelas de transição seguida, de acordo com a arrumação capitular”.[27] Em Boa tarde às coisas aqui em baixo, surgem sucessivas transcrições no corpo do texto narrativo de excertos parciais do Cântico dos Cânticos, onde se refere, num discurso de primeira pessoa de voz feminina, o desejo de união com o ser masculino, designado por “o meu amado, cabrito montês ou cerdo novo”.

4. A experiência da doença e da morte

O tema da doença anuncia-se como algo naturalmente presente na obra de Lobo Antunes. O protagonista dos três primeiros romances é médico e, como tal, lida diretamente com a doença. Também o facto de o autor ser médico psiquiatra contribui para que em toda a obra haja uma noção de doença relativa à mente, à consciência, às emoções e aos sentimentos. Na obra Conhecimento do Inferno, a doença decorre de a personagem não conseguir harmonizar o seu sentir com o mundo circundante. Em casos como este, na infância a personagem não é doente, mas o seu viver de adulto vai desenvolvendo patologias. Predomina nesta obra a noção de doença como desamparo, uma “doença incurável”; o ser humano é o menos acabado dos seres vivos e deseja encontrar o equilíbrio que só o ser amado lhe confere. O estado de desamparo pode ser o do doente terminal, como é o caso de mãe de Rui, em Explicação dos Pássaros.

Existem também doenças que podem mudar o rumo da vida, como são os casos do Tenente-Coronel, em Fado Alexandrino, que sendo causa de morte na véspera do seu regresso da guerra em Moçambique, lhe impossibilita uma vida equilibrada. Nos Livros de Crónicas, algumas referem o cancro, que levou à morte pessoas que o autor amou e admirou. Tais são os casos de Esta noite não estou para ninguém que refere os últimos dias de vida da primeira mulher do escritor, Maria José, antes de morrer por cancro. Também a crónica dedicada a Ernesto Melo Antunes Não se desce vivo de uma cruz, o descreve doente de cancro, muito cansado e muito magro, pouco antes de morrer.[28]

Se estas experiências tocaram profundamente o autor, o que não terá significado a sua própria experiência de cancro, descoberto em 2006? As crónicas que escreveu durante o período da doença descrevem o que sentiu e a forma como tal experiência abalou os fundamentos da sua existência. Em Morto cobrido de amor de sete de Julho de 2008, escreve: “Considerava-me imortal; soube, com horrível violência, que o não era. Ter passado o que passei alterou-me por completo a existência e suponho que modificou também o que produzo. Os médicos não tratam: tornam a dar-nos a eternidade sob a forma de um infinito futuro, isto é uma porção limitada de dias que apesar de tudo acreditamos, contra a evidência, não terminar nunca”.[29]

É no contexto desta experiência limite que o tema de Deus surge de forma veemente nos escritos do autor. Na crónica De profundis, Lobo Antunes adensa o que já tinha escrito acerca da sua relação com Deus: “A minha relação com Deus tem sido sempre tumultuosa, cheia de desacordos e discussões: longos períodos em que me afasto, alturas em que me aproximo, amuos, quase insultos, discussões”. Como escritor que cria uma obra de arte, sente-se nomeado para uma missão divina: “Creio firmemente que, nos livros que escrevo, é Ele que guia a minha mão e não passo de um instrumento da Sua vontade. Quantas vezes me vem à cabeça aquele pequenino poema de Sebastião da Gama: «a corda tensa que eu sou o Senhor Deus é quem a faz vibrar; ai linda longa melodia imensa: por mim os dedos passa Deus e então já sou apenas som e ninguém se lembra mais da corda tensa»”.[30]

A experiência da doença constitui para Lobo Antunes uma forte presença de Deus: “há alturas em que [o] sinto [Deus] tão fortemente em mim, alturas em que o sei tão longe. O cancro, por exemplo: o Henrique, que é um homem de Fé, diz que me salvei porque nasci com um sistema imunitário fenomenal. Palavras dele. No meu modesto entender esse sistema imunitário fenomenal tem um nome, e esse nome entendeu que eu ainda era necessário aqui”.[31]

Por outro lado, o estado de desamparo que conheceu fê-lo tomar consciência dos seus limites e da presença reconfortante dos outros. Escreve: “Se os meus amigos não tomassem conta de mim com tanto desvelo não estava aqui a escrever isto”.[32] A sua experiência de conforto alcança um horizonte universal. A sua experiência de doença fá-lo unir-se a experiências limites de sofrimento. Num sentido solidário recorda “as lágrimas de um homem pela agonia do filho” e de “uma mulher a caminhar diariamente quilómetros na esperança de que Deus o curasse”.[33]

É neste mesmo mês de Outubro de 2009 que, numa entrevista, descreve a sua experiência de doença: “- O que se sente com o cancro é um vazio imenso. Dizem que estou curado. Olhe, aí aprendi muita coisa sobre a vida. E que a maior parte das pessoas são melhores do que eu. Fala na dignidade das pessoas com quem se cruzou na quimioterapia.

– Talvez a grande função da arte seja dignificar o homem, e talvez seja o triunfo sobre o sofrimento, a dor, a morte. Em face disto… Agora estou a ficar comovido e é uma gaita…”.[34]

5. Todos saem

Sôbolos rios que vão, obra publicada em 2010, retoma o primeiro verso das mais célebres redondilhas de Camões, também conhecidas por “Babel e Sião”, que por sua vez é uma glosa do Salmo 137. Este é um dos casos em que podemos falar de autobiografia em António Lobo Antunes, pois a reflexão sobre a vida pessoal consegue aliar-se à expressão literária. Contudo, mesmo salvaguardando o facto de que uma coisa é a vida de uma pessoa, outra é a obra que crie, este livro está diretamente relacionado com a experiência da sua doença: “Quanto a Sôbolos, houve uma dor pessoal muito violenta durante o processo de escrita: ‘Estar a escrever o livro fez-me reviver aquilo que passei [quando foi operado a um cancro em 2007]. É claro que é muito diferente porque eu não fui operado pelo dono do hotel como acontece no livro’”. Mais que uma autobiografia, este livro é “uma viagem ao coração”.[35]

É numa outra entrevista, conduzida por Ricardo Araújo Pereira, que Lobo Antunes aborda os temas fundamentais do livro. Acerca da morte e da tentativa de a compreender, afirma: “É uma incompreensão perante a morte… Eu nunca tinha visto morte. Vi esse enterro de criança, em Nelas, e não voltei a vê-la. (…) Nunca ninguém morre nos meus livros, passam é a viver de maneira diferente. O meu pai, depois de morrer, continuou a mudar, a existir dentro de mim. E continuámos a falar. Até que chega uma altura em que estamos em paz e o nosso diálogo é de tal maneira perfeito que nem sequer necessitamos de palavras. E depois sentimos que estamos a viver também por eles. Eu estou a viver pelas pessoas de quem gostei e que, para mim, continuam vivas”.[36]

Sobre a sua relação com Deus e o facto de ter escolhido tal título para o livro pergunta o entrevistador: “Há outro livro de um escritor português – aliás, seu amigo -, José Cardoso Pires, também escrito a partir de uma situação em que o autor se confronta com a morte, que se chama De Profundis, Valsa Lenta. “De profundis” são as primeiras palavras do salmo 130. “Sôbolos rios que vão” são as primeiras palavras de um poema de Camões que é uma glosa do salmo 137. É uma coincidência que dois ateus, quando colocados perante a morte, invoquem a Bíblia?”.[37]

Ao que Lobo Antunes responde: “Eu acho que não há ateus. Não há, não acredito que haja. Há um provérbio húngaro muito antigo que diz: «Não há ateus na cova no lobo.» E há outro que eu acho do caraças, que é: «Qualquer bocadinho acrescenta, disse o rato, e fez chichi no mar.» É magnífico, não é? Talvez seja isso que nós fazemos. Fazemos chichi no mar, mas, porra, acrescentámos. Isso dá-nos algum consolo. Mas são duas situações muito diferentes. O Zé podia ser meu pai, quase, e, no entanto, era o melhor amigo que eu tinha. Era um homem excecional. Telefonava todos os dias. Era um homem duro, cheio de arestas. Uma vez mostrou-me uma coisa do Redol, que era uma pessoa que ele admirava muito. Eu lia os livros do Redol e não gostava nada. E um dia percebi. Ele mostrou-me uma carta que o Redol, que estava a morrer em Santa Maria quando eu era estagiário, lhe escreveu. Uma carta em papel timbrado de um hotel. O timbre era uma coisa muito pomposa. E o Redol despede-se. Zé, nunca mais te vou ver, fui muito teu amigo, e tal…P.S.: Já viste papel de carta com mais mania? O Zé disse: «Foi a única vez que eu chorei como uma criança.» E o Zé, quando chega a altura do De Profundis, escreveu aquele livro pequeno porque já não era capaz de o escrever grande. Foi muito diferente disto, porque eu estava cheio de força quando estava a escrever o livro, embora me tenha custado muito. Eu li, há dias, uma entrevista do escritor [José] Rodrigues dos Santos, julgo que na Visão, em que ele dizia que, se o escritor não tem prazer em escrever, o leitor não tem prazer em ler. Qualquer coisa desse género. Meu Deus… O Zé dizia: «É preciso que a gente sofra para que o leitor tenha alegria.» Lembro-me sempre daquele primeiro verso do Endymion, do Keats: «Uma coisa bela é uma alegria para sempre.» O que eu devo aos livros, e à pintura, e à música…”.[38]

A atitude do doente face à doença parece fundamental para a ultrapassar, como se refere em Sôbolos, “Pode ter-se um cancro e estar alegre, ora essa”.[39] Contudo, mesmo assim Lobo Antunes sente-se um infeliz: “Eu, infelizmente, não sou uma pessoa feliz nem alegre. Tenho dois ou três amigos que são, e tenho uma inveja imensa deles. Primeiro, porque pertenço à classe dos eternos culpabilizados. Culpado de tudo. E, depois, às vezes, penso: porque é que a gente sofre tanto? E sofrer por nadas”.[40]

Mesmo se no início do livro se diz: “que terrível e cómica, a morte”,[41] a resposta de Lobo Antunes é esta: “Ó Ricardo, não sei, ainda não morri. Mas a gente não pode levar a morte a sério. Há que aceitar a morte como a impostora que é. Uma vez perguntaram ao Hemingway o que é que ele achava da morte, e ele disse: «Outra puta.» E venceu-a. Ele dizia: um homem pode ser destruído, mas não pode ser vencido. [Pausa.] Tinha razão, não tinha?”.[42]

Este livro introduz uma novidade na obra de Lobo Antunes, há afinal uma saída. A frase final “todos saem” em latim, quer dizer que saem de cena, mas que, saindo, continuam a existir, isto é, “o livro acaba, mas a vida afinal prossegue, sai-se do hospital e fica-se vivo, e não há morte, há continuidade e duração”. [43]

Sôbolos rios que vão é um livro libertador que liberta o próprio leitor. Há aqui um paralelo com a salvação trazida por Jesus, que também caminhou sobre as águas. A imagem soteriológica da bíblia é fundamentalmente simbolizada pela passagem pelas águas. Jesus opera uma redenção, papel aqui atribuído à Palavra poética. A criação literária exerce uma função salvadora em todos os cancros da humanidade.

Estes rios são no fundo “o grande rio que não para, não se extingue, o rio do pensamento e da arte, (…) e por isso o título contém esses “rios que vão”, cuja água corre sempre, como a escrita dos grandes autores”.[44]

Contudo, este positivismo humano é atenuado na recente Crónica “Deste profundo abismo, Senhor”, onde Lobo Antunes faz uma meditação de cariz sapiencial sobre o valor da sua obra, ou seja, sobre a sua vida: “Queria deixar uma catedral de palavras e dou-me conta que a catedral não tem fim. Queria arredondar o edifício, fechá-lo, e dou-me conta, desolado, da impossibilidade desse fecho, dada a inevitável limitação da vida. Não morrerei satisfeito, morrerei com a dor de não ter tido tempo”.[45]

A sua dor é a dor de todos os criadores literários: “E não conheço, em tantos autores que li, um só para quem este problema não constitua o drama da sua existência. Não se alcança a praia por mais que se nade, não há fita de chegada para esta maratona angustiosa e exaltante. Quando a doença me filou pelo pescoço, essa ansiedade envenenou-me as horas. E, quando a mão me soltou, a marca dos seus dedos imprimiu-se-me na pele. Um dia, o conjunto de átomos que me compõem desintegrar-se-á sem remédio, e eu a meio da página de que não redigirei a última linha. Tenho o maior respeito pelos criadores visto que acabam sempre por perder e não mereciam perder. E tenho pena de mim porque triunfarei na derrota: um tiro bem acertado deitar-me-á ao chão a meio do voo, e serei uma perdiz esfarrapada numa moita, que um cachorro abocanhará para a entregar ao dono, o mesmo dono que traz, pendurados do cinto, aqueles que me precederam e enganchará no mesmo cinto os que vierem depois, com idêntica indiferença”.

Por fim a experiência do divino, a lembrança na eternidade: “Há uns verões, num mosteiro da Roménia, o bispo cantou, com os padres e os seminaristas, uma oração pelas almas eternas dos escritores falecidos. Era uma igreja belíssima, no alto de uma encosta batida pelo vento e pelos grandes bandos de corvos chegados da Ucrânia, cujos campos de trigo se viam muito ao longe, e o canto, de dezenas e dezenas de vozes, alargava-se pelas nogueiras à volta da igreja, profundo, comovente, cheio, em simultâneo, de tristeza e de esperança (…) É dessa maneira que gostaria de me ir embora: a escrever, com os dedos incertos, numa dobra de lençol, na tentativa falhada de completar o meu De Profundis necessariamente fragmentário. Oxalá, numa igreja da Roménia, cercada de corvos e nogueiras, um único seminarista, porque um único seminarista me chega, reze cantando pela alma eterna de mais um pobre escritor falecido”.[46]

[1] Esta pesquisa engloba obras até 2012.
[2] Maria Alzira Seixo, «Autobiografia», em Dicionário da obra de António Lobo Antunes, vol. 1 (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008).
[3] António Lobo Antunes, Os cus de Judas, O chão da palavra (Vega, 1979), 25.
[4] Destacam-se como elementos principais as figuras da Sãozinha, do Padre Cruz e de Nossa Senhora de Fátima.
[5] António Lobo Antunes, Conhecimento do inferno, 1.a ed., O chão da palavra (Vega, 1980), 239.
[6] [O meu Pai] “levou-me a Pádua fazer a primeira comunhão depois de devidamente confessado em sua casa pelo senhor prior”. António Lobo Antunes, «Crónica de Natal», em Livro de crónicas, 1.a ed., Autores de língua portuguesa (Dom Quixote, 1998), 229.
[7] Antunes, «Crónica de Natal», 230.
[8] Antunes, «Crónica de Natal», 231.
[9] Antunes, «Crónica de Natal», 231.
[10] Antunes, «Crónica de Natal», 232 No que se refere ao passado, o autor vive oscilando entre a memória do que viveu e o que isso determina o hoje da sua existência. Parece ser o passado que lhe dá autêntica identidade. A crónica “Descrição da Infância”, em que é narrada a experiência de férias onde o “levavam a ver nascer o Mondego”. Ibidem, 392. Ou também a crónica “Hoje apetece-me falar dos meus pais” onde acerca do futuro, refere-se do seguinte modo: “A verdade é que parte do meu futuro ficou atrás de mim. Na quinta-feira, que é quando os meus irmãos se reúnem em casa dos meus pais, vou até lá buscá-lo”. Ibidem, 343.
[11] António Lobo Antunes, «Crónica da Quaresma», em Livro de crónicas, 1.a ed., Autores de língua portuguesa (Dom Quixote, 1998), 337.
[12] Antunes, «Crónica da Quaresma», 339.
[13] Antunes, «Crónica da Quaresma», 339.
[14] Antunes, «Crónica da Quaresma», 339.
[15] António Lobo Antunes, «A existência de Deus», em Livro de crónicas, 1.a ed., Autores de língua portuguesa (Dom Quixote, 1998), 99.
[16] Antunes, «A existência de Deus», 99.
[17] Antunes, «A existência de Deus», 99.
[18] Antunes, «A existência de Deus», 99.
[19] Cf. Antunes, «A existência de Deus», 100–101.
[20] Antunes, «A existência de Deus», 102.
[21] Antunes, «A existência de Deus», 102.
[22] António Lobo Antunes, «Sobre Deus», em Segundo livro de crónicas, 1.a ed., Obras completas de António Lobo Antunes 17 (Dom Quixote, 2002), 99.
[23] Maria Alzira Seixo, «Religião», em Dicionário da obra de António Lobo Antunes (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008), 2:502.
[24] Antunes, Os cus de Judas, 31.
[25] Relação entre dois substantivos, um dos quais, o segundo, se refere ao primeiro, caracterizando-o com maior individuação.
[26] Número simbólico que nos remete também para a criação do mundo.
[27] Seixo, «Religião», 505.
[28] Cf. António Lobo Antunes, «Esta noite não estou para ninguém», em Segundo livro de crónicas, 1.a ed., Obras completas de António Lobo Antunes 17 (Dom Quixote, 2002); António Lobo Antunes, «Não se desce vivo de uma cruz», em Segundo livro de crónicas, 1.a ed., Obras completas de António Lobo Antunes 17 (Dom Quixote, 2002).
[29] António Lobo Antunes, «Morto cobrido de amor», Visão, 7 de julho de 2008.
[30] António Lobo Antunes, «De profundis», Visão, 1 de outubro de 2009.
[31] Antunes, «De profundis».
[32] Antunes, «De profundis».
[33] Antunes, «De profundis».
[34] Alexandra Lucas Coelho, «António Lobo Antunes descodificado», Público, 21 de outubro de 2009.
[35] João Céu e Silva, «De repente, percebi que sou mortal», Diário de Notícias, 21 de outubro de 2010.
[36] «Ricardo Araújo Pereira entrevista António Lobo Antunes», entrevistado por Ricardo Araújo Pereira, 28 de outubro de 2010.
[37] «Ricardo Araújo Pereira entrevista António Lobo Antunes».
[38] «Ricardo Araújo Pereira entrevista António Lobo Antunes».
[39] António Lobo Antunes, Sôbolos rios que vão: romance, 1.a ed. (Dom Quixote, 2010), 19.
[40] «Ricardo Araújo Pereira entrevista António Lobo Antunes».
[41] Antunes, Sôbolos rios que vão, 14.
[42] «Ricardo Araújo Pereira entrevista António Lobo Antunes».
[43] Maria Alzira Seixo, «Os rios de Lobo Antunes», em António Lobo Antunes: a crítica na imprensa 1980-2010. Cada um voa como quer, por Ana Paula Arnaut e António Lobo Antunes (Almedina, 2011), 469.
[44] Seixo, «Os rios de Lobo Antunes», 469.
[45] António Lobo Antunes, «Deste profundo abismo, Senhor», em Quinto livro de crónicas, 1.a ed., com António Bettencourt e Eulália Pyrrait, Obra completa 29 (Dom Quixote, 2013).
[46] Antunes, «Deste profundo abismo, Senhor».

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.