‘Conheço as tuas obras. Vê, coloquei diante de ti uma porta aberta, que ninguém pode fechar. Tens pouca força, mas guardaste a minha palavra e não renegaste o meu nome. (…) E saberão que eu te amei’ (Ap3, 8-9)
As palavras do Papa Leão XIV na sua primeira exortação apostólica falam direto ao coração de cada um de nós a partir do livro do Apocalipse. Dizem-nos que Deus nos ama, me ama… a mim… na situação em que estou. Não a um grupo indistinto de pessoas, mas à minha pessoa, como sou e como me encontro. Parece impossível este mistério, insondável. Acrescenta o Papa Leão XIV citando a encíclica do Papa Francisco Dilexit nos [1]: “a contemplação do amor de Cristo ajuda-nos a prestar atenção ao sofrimento e às necessidades dos outros (…) como instrumentos de difusão do seu amor”. Então quando me sinto amado, entrego-me e, através das minhas ações, saberão que fui amado por Deus.
A exortação apostólica Dilexi te [2] fala do amor de Deus por cada um de nós. O Papa Leão, ao falar pela primeira vez na varanda da Praça de São Pedro, disse à multidão que quis abençoar com uma voz emocionada: “Deus ama-nos (…) e o mal não prevalecerá.” A consciência de nos sentirmos amados por Deus é vital; mais ainda num tempo em que parece escassear o Amor, este pode – e deve – ser o critério para a nossa ação. O Papa Francisco, na sua encíclica Dilexit nos, mostra-nos que o mundo pode mudar a partir do coração e que o nosso coração unido ao de Cristo é capaz deste milagre social; o Papa Leão XIV lembra que Deus conhece as nossas obras e nos ama, exortando-nos sobre o amor para com os pobres. São sequenciais estes dois documentos do Papa Francisco e do Papa Leão XIV, no tempo e na reflexão que trazem para o mundo atual. Mudar o mundo a partir do coração e agir com a força de nos sabermos amados por Deus é o desafio que temos pela frente.
A Igreja desempenha um papel fundamental na erradicação da pobreza: na sua diversidade de carismas e na informalidade da sua ação cada um de nós é testemunha do tanto que a Igreja faz no silêncio da sua ação.
Desde os alvores do cristianismo que os pobres – que a Dilexi te coloca no centro do documento – são apresentados como a verdadeira riqueza da Igreja e fonte de sabedoria. O Papa escolheu percorrer a história bimilenária de atenção aos pobres e com os pobres para mostrar que ela é parte essencial do caminho da Igreja e diz-nos ainda que “não podemos considerar os pobres apenas como questão social: eles são uma questão familiar. Pertencem aos ‘nossos’”. Sob pena de nos transformarmos em agentes sociais sem coração, somos chamados a olhar para a pessoa em sofrimento com a dignidade que lhe pertence. Estes “nossos” constituem, em Portugal, 19,7% da população segundo o Estudo da Cáritas Portuguesa sobre Pobreza e Exclusão Social de 2025[3].
Mas o Papa vai mais longe e afirma que “se é verdade que os pobres são sustentados por aqueles que têm meios económicos, certamente também é possível afirmar o contrário. (…) revelam a nossa precariedade e o vazio de uma vida aparentemente protegida e segura”. Reafirmando que “o auxílio mais importante para uma pessoa pobre é ajudá-la a ter um bom trabalho ou, não existindo essa possibilidade concreta devemos prover com o indispensável para que tenha uma vida digna”, o Papa assinala a “esmola como momento necessário de contato, encontro e identificação com a condição do outro. A esmola convida a parar e a olhar nos olhos, (…) não será a solução para a pobreza no mundo, que deve ser procurada com inteligência, tenacidade e compromisso social. Mas precisamos de praticar a esmola para tocar a carne sofredora dos pobres.”
Que este Amor sem limites possa ser o combustível da nossa ação, para que saibam que Ele nos amou, a cada um.
A 17 de outubro assinala-se o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza que pretende mobilizar sociedade civil e governos para o primeiro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável estabelecidos pelas Nações Unidas e que se pretende cumprir até 2030. O tema proposto este ano é “Acabar com os maus-tratos sociais e institucionais, garantido respeito e apoio efetivo às famílias”. A Igreja desempenha um papel fundamental na erradicação da pobreza: na sua diversidade de carismas e na informalidade da sua ação cada um de nós é testemunha do tanto que a Igreja faz no silêncio da sua ação. O trabalho dos Centros Sociais e Paroquiais, projetos como a rede CLAIM (Centros Locais de Apoio à Integração de Migrantes), o RSI (Rendimento Social de Inserção), todo o apoio de atendimento e acompanhamento social, os jardins de infância, as escolas, os centros de dia, casas de apoio a migrantes e refugiados, apoio aos sem-abrigo, acompanhamento de idosos, o acolhimento e acompanhamento de pessoas com deficiência dentro e fora das instituições, apoio efetivo material e espiritual a pessoas doentes, a reclusos … Quer sejam formais ou informais, as respostas da Igreja para a erradicação da pobreza são mais do que podemos contar. A propósito do papel da Igreja na promoção do desenvolvimento integral o Cardeal Turkson[4], prefeito-emérito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, afirma que “as religiões são atores fundamentais também em termos de desenvolvimento (…) Mas, além disso, somos impelidos, como Igreja católica, pelo facto de que Deus nos amou, nos enviou ao mundo como missionários de amor.” Esta motivação da Igreja define a nossa ação de uma forma determinante.
O Papa Leão XIV no final da exortação Dilexi te escreve: “uma Igreja que não coloca limites ao amor (…) é a Igreja que o mundo hoje precisa”, possivelmente inspirada em Santo Agostinho que diz “a medida do Amor é amar sem medida”. Que este Amor sem limites possa ser o combustível da nossa ação, para que saibam que Ele nos amou, a cada um.
[1] Encíclica Dilexit nos, Papa Francisco (24 de outubro de 2024)
[2] Exortação Apostólica Dilexi te, Papa Leão XIV (4 de outubro de 2025)
[3] Pobreza e exclusão social em Portugal: uma visão da Cáritas 2025
[4] A contribuição das religiões para os objetivos do desenvolvimento sustentável – Vatican News
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
