Pudesse eu agora subir da carne. Retirar de mim toda a opacidade e tornar-me apenas transparência, sim, a transparecer toda a luz. Se me coubesse a mim hoje o movimento seguinte ao teu, como passo complementar da dança, posso imaginá-lo desse modo. Poder eu ir ao céu, que um anjo me anunciasse criança no seio do divino.
Responder desta forma, elevar a ti a escuridão impenetrável como tu baixaste a nós a tua luz inacessível. Assumir eu tudo o que é da ordem da luz por amor a ti que assumiste tudo o que é da ordem do que está sôfrego de luz. E penso que tudo isto, sim, tudo isto sem a mínima exceção ou falta ou já foi feito, feito não porque o fiz pelo meu poder mas porque já o fizeste em mim pela minha fraqueza. Sei isto sem poder prová-lo ou saber dizê-lo, sei apenas como se sabem as coisas de dentro e do alto quando são a mesma.
Afinal tudo é o mesmo movimento em dois compassos talvez, dois compassos inseparáveis. Descer para subir e na subida arrastar todo o espaço onde desceste. Vejo-o com clareza. Semeaste essa luz e fazes então que germine e cresça e suba frondosa a nossa obscuridade, a nossa obscuridade aclarada desde dentro. E é tudo o mesmo, tu abaixares-te e eu elevar-me na tua pequenez. E há uma troca ou uma partilha, a altura é minha e a ordem do chão é tua, e ambas rodam velozes num só eixo e não sei o que é do chão ou o que é do céu, e não sei para que lado fica a profundidade ou talvez se descer eu suba. Há uma nova estatura e sobre ela uma fenda que se abre, uma porta estreita deixa ver a luz que há agora enxertada na escuridão. Uma porta que se agiganta quanto mais subir para pequeno, quanto mais crescer na direção justa de quem se apequena como tu.
E posso reparar como toda a minha grandeza, e dizer “minha” custa à própria posse, como toda a minha grandeza está já contida na tua humildade, e como toda a tua glória está dentro e à volta de tudo o que sou, e eu dentro de tudo o que és. E de modo óbvio o mundo cabe em ti, e de algum modo novo tu cabes no mundo e abrigas-te no mundo e em mim, ainda que sejas sempre maior. Ainda que sejas sempre maior tu cabes no íntimo e vens do íntimo e és gerado do íntimo sem que se rompam as costuras. Ou pode ser que seja assim, que o teu modo de romper costuras é esse de me fazeres transparente a partir de dentro, o teu modo de ser maior que tudo e mais claro que tudo é vencer a escuridão pela escuridão, queimar o opaco, vencer a carne, fazer que a minha obscuridade se ilumine e queime e irradie uma luz ainda confusa, luz misturada e impura mas luz.
E acendo e ascendo e subo e brilho uma luz que não é minha, mas é tão íntima que se torna minha, e sempre cá esteve, afinal, por isso em boa verdade talvez possa dizer que é minha. E há uma nova grandeza, nova e tão antiga e eterna, como tudo o que é eterno é tão novo e antigo. E agora onde estou nada pesa, há como que um abraço vazio que preenche toda a falta, e estou leve, sou apenas um sopro, isso mesmo, um homem todo em sopro.
E há um anjo que me anuncia, que me sopra ao ouvido de Deus e Deus acena e diz que sim.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
