A pobreza é próxima. Está aqui, onde andamos, onde trabalhamos, na nossa família, nos nossos amigos, colegas e conhecidos. Não a podemos ignorar. Mas podemos combatê-la na relação, também com um abraço. Podemos atenuá-la ligando-nos.
A pobreza pode ser experimentada ao longo da vida por diferentes causas e fatores que em conjunto e ao longo do tempo podem levá-la a tornar-se estrutural. Nascer em situação de pobreza ou cair nessa situação acontece a cerca de 20% das pessoas que vivem em Portugal, segundo o Relatório Anual da Cáritas sobre a Pobreza e Exclusão Social[1].
Quanto observo as minhas relações, quer sejam mais ou menos próximas, verifico que a pobreza tem o efeito de provocar a solidão – no outro e em mim – pois se, por um lado, verifico um afastamento provocado pela vergonha em expor a minha situação, encontro também uma grande dificuldade em me projetar nesse contexto e afasto-me quando não sou eu que me encontro nesta condição. A pobreza, por isso, separa aumentando até ao ponto de poder quebrar uma relação.
Na Introdução do Compêndio da Doutrina Social da Igreja[2], o ponto 5 fala da pobreza a partir do amor e diz que “O amor tem diante de si um vasto campo de trabalho e a Igreja, nesse campo, quer estar presente.” O vasto campo de trabalho mencionado no Compêndio fala de privação material, mas também de analfabetismo, da falta de saúde básica, da falta de sentido para a vida, do desequilíbrio ecológico, da falta de paz, da falta de direitos humanos. Tentar compreender a pobreza parece um desafio impossível e procurar erradicar a pobreza uma utopia, sobretudo se não tivermos em conta o amor. A Igreja quer estar presente neste campo de trabalho a partir do amor. Talvez possamos até dizer que a Igreja quer erradicar a pobreza tendo o amor como critério para a ação.
Idealmente a pobreza é uma condição transitória, não esperamos nem desejamos que seja uma forma de vida. Acontece porque nascemos nesta condição ou porque quando a vida acontece nos encontramos numa situação complexa da qual temos dificuldade em sair. Ninguém deseja a pobreza sem sentido, seja para si ou para o seu próximo. Podemos por isso combatê-la e ter como missão erradicá-la, com empenho e generosidade, e em múltiplas dimensões – quer seja no plano pessoal, quer seja no plano comunitário. Há políticas a serem desenhadas e melhoradas, ações coletivas da sociedade civil e a nossa iniciativa individual.
Podemos por isso combatê-la e ter como missão erradicá-la, com empenho e generosidade, e em múltiplas dimensões – quer seja no plano pessoal, quer seja no plano comunitário. Há políticas a serem desenhadas e melhoradas, ações coletivas da sociedade civil e a nossa iniciativa individual.
A pobreza, sendo predominantemente estrutural, assume-se como um problema complexo, com várias “camadas” de vulnerabilidade que são causa e consequência umas das outras, num emaranhar de situações difíceis que, à primeira vista, parecem ser impossíveis de resolver. O apelo individual é o de amparar, escutar, num abraço amplo que se dá a quem estamos ligados ou nos queremos ligar. O apelo individual é o de cada um tentar, à medida da possibilidade de quem apoia e de quem é apoiado, desenrolar os nós que impossibilitam uma vida mais plena. Posso ajudar na procura de emprego ou emprestar um fato novo para uma entrevista. Posso acompanhar numa consulta médica ou ajudar na compreensão de um documento complicado. Posso escutar, posso atrever-me a abraçar.
A educação tem, por isso, um papel crucial. Podemos, através dela, melhorar e fazer crescer a iniciativa individual. A educação é também ajudar a crescer para a ação, para a escuta e para a partilha; para a responsabilidade e sentido de curiosidade e interesse por aquele que nos é próximo.
Em 2021 foi publicado o Dicionário do Pacto Educativo Global[3] como desafio ao convite do Papa Francisco em 2019 de “promover em conjunto e ativar, através dum pacto educativo comum, as dinâmicas que conferem um sentido à história e a transformam de maneira positiva.” Este dicionário define a Pobreza como “multifacetada e multidimensional.” e “convida a olhar a pobreza na dimensão da interioridade, que está ligada à crise relacional resultante, principalmente, da globalização tecnológica e do desequilíbrio ambiental.”. Aponta ainda a educação – incluindo cabeça, coração e mãos – como espaço de escuta e acolhimento das situações reais de pobreza e de exclusão em que os jovens se encontram atualmente, referindo que “Os processos educativos precisam estar comprometidos com a rutura entre as gerações, entre os povos e as culturas, entre o enriquecimento e o empobrecimento, entre masculino e feminino, entre Economia e Ética, entre humanidade e Planeta Terra. Processos pedagógicos recíprocos, interculturais e ecológicos integrais são necessários para garantir aos empobrecidos condições justas para seu desenvolvimento e formação, e, de alguma forma, para os ricos, a oportunidade de conversão ética e de cidadania ecológica.” A educação desempenha por isso um papel determinante na forma como olhamos e combatemos a pobreza, promovendo a relação entre as pessoas em situação de pobreza e os irmãos que se fazem presentes nestes momentos de maior aflição. A educação tem a possibilidade de provocar a relação, através da escuta e da ação em comunidade. A educação pode ajudar-nos a olhar para o outro como pessoa e não como um número.
A educação é também ajudar a crescer para a ação, para a escuta e para a partilha; para a responsabilidade e sentido de curiosidade e interesse por aquele que nos é próximo.
O Papa Leão XIV, na sua mensagem para o Dia Mundial dos Pobres de 2025[4], que se celebra a 16 de novembro, diz-nos que os pobres são os irmãos mais amados da Igreja, portadores de esperança, que se encontram no centro de toda a ação pastoral das comunidades. E acrescenta que ajudar os pobres é uma questão de justiça muito antes de ser uma questão de caridade, desejando que se possam desenvolver políticas de combate às antigas e novas formas de pobreza nas áreas do trabalho, da educação da habitação e da saúde. O Papa fala de duas dimensões: o desenvolvimento de políticas e o envolvimento das comunidades. Para cada um de nós, na nossa comunidade, somos chamados a esta relação de proximidade com os mais amados de Deus. Podemos fazer a diferença na vida de uma pessoa, uma a uma, cada um de nós. E seremos muitos.
Num projeto que visitei recentemente de acompanhamento social a mulheres em situação de pobreza, para além da preocupação com a habitação, o emprego e a saúde o que mais me impactou foi a tristeza das mulheres que dizem chegar ao fim do dia sem ter quem abraçar. Combater a pobreza envolve a partilha generosa do coração. Isso julgo que podemos fazer: escutar, acompanhar, tomar todas as diligências para melhorar a vida da pessoa e, no fim do dia, dar generosamente um abraço. Assim também combato a pobreza.
Notas:
[1] https://caritas.pt/wp-content/uploads/2025/03/Estudo-da-Pobreza_2.pdf
[2]https://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/justpeace/documents/rc_pc_justpeace_doc_20060526_compendio-dott-soc_po.html#
[3] https://anec.org.br/wp-content/uploads/2020/12/Dicionario-Pacto-Educativo-Global-2021.pdf
[4] https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/messages/poor/documents/20250613-messaggio-giornata-poveri.html
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
