Ser católica e de esquerda

Aquilo que move tanta gente de esquerda é o anseio por um modelo social justo, em que o Bem Comum seja preocupação de todos. Pode parecer uma utopia, mas não é mais utópico do que o sonho do Reino de Deus que mobiliza tantos cristãos.

Quando eu tinha 12 anos, saí de um colégio interno, que adorava, e fui para Macau, para um ambiente que se revelou hostil, muito materialista e pouco tolerante para com a diferença. Começou nessa altura a experiência que tem atravessado toda a minha vida, de me sentir frequentemente uma “outsider” ou, no melhor dos casos, só parcialmente integrada no ambiente onde estou. Tenho traços do mundo X quando estou no mundo Y, e traços no mundo Y quando estou no mundo X.

No colégio interno, era a sindicalista de serviço, sempre a refilar e metida em sarilhos devido ao meu sentido de justiça, a ponto de pedir uma audiência com a diretora no 7º ano, em representação das minhas colegas de turma, levando um gravador escondido na lapela com intenção de depois enviar para os jornais a conversa, que eu previa pejada de elementos repressivos. Já em Macau era a menina certinha e gozada pelos outros, que acreditava na castidade e dava catequese às escondidas para evitar ainda maior ostracização. Em adulta, tornei-me uma pessoa tendencialmente de esquerda, o que é desconfortável entre os mais conservadores, no meio dos quais me encontro frequentemente. Mas continuo a ser cristã, o que me torna um bicho raro entre os meus amigos maioritariamente ateus e de esquerda. Sou radicalmente contra o aborto e contra a sua despenalização, posição que é praticamente tabu entre os não-católicos e me impede de tocar sequer o assunto com a quase totalidade dos meus amigos e conhecidos. Mas sou a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo e solidária com a luta que têm travado para conquistar os seus direitos, o que é um tema ridicularizado e ainda alvo de escândalo entre grande parte dos católicos e no ambiente onde trabalho. Desço a Avenida no 25 de Abril, o que é visto pelos conservadores como sinal de uma atávica simpatia por mitos socialistas ultrapassados. Mas rezo com os meus filhos à noite e ensino-os a fazer um exame de consciência que a sociedade atual em que me movo com desenvoltura considera um retrógrado elogio da culpa.

Custa-me muito ver estes ambientes tão afastados e desconfiados em relação uns aos outros, quando, a meu ver, haveria tanto a partilhar. Vivi em Itália, onde uma certa fação dos católicos se identificam, em tom de piada, como “cato-comunistas” e são motor de muitas iniciativas de construção de um modelo social alternativo, como o Comércio Justo (que começou com feiras paroquiais e hoje conta com mais de 400 lojas no país) e os GAS (grupos de compras solidárias), que unem famílias, cristãs ou não, comprometidas com a justiça e sustentabilidade dos seus hábitos diários de consumo. Na América Latina, vi grande parte da Igreja envolvida, como o fermento, nos processos de transformação social, como o Movimento dos Sem Terra, no Brasil, e os zapatistas no Chiapas, México. Também em Portugal, há certamente alguns meios específicos onde se movem os herdeiros dos católicos progressistas de que fala João Bénard da Costa no seu caderno de memórias “Nós, os vencidos do catolicismo”. Penso, por exemplo, no Graal, onde ainda hoje se vive o fervor pela transformação social que caracterizou Maria de Lourdes Pintasilgo, provavelmente a mais reconhecida representante deste movimento internacional em Portugal; no Metanoia, movimento católico de profissionais, cujas reuniões mensais agregam pessoas das mais variadas simpatias políticas, acomunadas pela vontade de pensar fora de fronteiras impostas; a Comissão Nacional Justiça e Paz, que de forma pendular tem estado reunida em torno de presidentes mais ligados à esquerda (como Manuela Silva ou Alfredo Bruto da Costa) ou à direita (como o atual presidente Pedro Vaz Patto), mantendo uma invariável preocupação com a Justiça Social, independentemente das cores políticas dos seus membros. E mais exemplos há, certamente.

Mas infelizmente, não são a norma em Portugal. A norma que tenho encontrado é uma denigração recíproca ou, no melhor dos casos, uma intolerância latente. Não há vontade, de parte a parte, em conhecer o ponto de vista do outro, escutá-lo, compreender o que o mobiliza. Isto é muito triste quando se defende, como a esquerda, a abertura à diversidade, ou quando se tem por modelo alguém que pregou a lei do Amor e o acolhimento incondicional dos nossos irmãos.

A clivagem esquerda/direita já vem de longe, mas sinto que tem aumentado de tom nos últimos anos. Isso tornou-se-me especialmente notório quando surgiu a hipótese da formação da “geringonça”. Metade do meu Facebook pintou-se de preto: os amigos e conhecidos mais conservadores adotaram um perfil totalmente negro em sinal de luto pelo futuro de Portugal e assumindo que um ataque à democracia, se não um verdadeiro golpe de Estado, estava em curso. A outra metade ficou ao rubro, com uma confiança sem reservas na solução que se tinha encontrado para o país, com cartoons que representavam Pedro Passos Coelho a levar uma estalada ou comentários furiosos sobre quem estava de saída. Uns e outros eram incapazes de reconhecer valor no “grupo rival”, de imaginar que houvesse pessoas boas e capazes e desejosas de fazer o bem, quer entre os que deixavam o governo quer entre os que se preparavam para governar.

Confesso que sempre achei os clubismos futebolísticos uma tontice. Ora, mais absurda ainda se torna esta atitude de seguimento cego de uma ideologia quando se fala de questões complexas como a gestão das finanças do Estado, a justiça distributiva e a necessária transformação social. Não teremos mesmo nada a aprender com os que veem a realidade de uma outra perspetiva?

Pior ainda é, a meu ver, a persistência de uma atitude clubística entre pessoas que aspiram, com idealismo e desinteressadamente, a um mundo perfeitamente justo. Não será que aquilo que os ateus não compreendem em nós – esta fé num Deus que não se vê, a esperança num Reino que temos de construir pessoa a pessoa, e o seguimento de princípios difíceis de implementar, que desafiam o pragmatismo capitalista atual em que impera a lei do mais forte – é o espelho daquilo que também os cristãos mais conservadores não compreendem na esquerda que desfila na Avenida da Liberdade? Aquilo que move tanta gente ligada aos partidos comunista, socialista e Bloco de Esquerda é, sim, o anseio por um modelo social justo, em que o Bem Comum seja preocupação de todos, em que quem se encontra em dificuldades não tenha de atravessar o deserto sozinho. A alguns pode parecer uma utopia, mas não é mais utópico do que o sonho do Reino de Deus e o chamamento à santidade que mobiliza tantos cristãos.

Dorothy Day, a carismática fundadora do Catholic Worker (movimento do trabalhador católico, fundado nos Estados Unidos e espalhado um pouco por todo o mundo), é um exemplo de alguém que fez confluir em si o idealismo que acomuna cristãos e socialistas. A sede de justiça, que na época da grande depressão ela encontrava só no ambiente subversivo da esquerda radical, cedo foi nela beber às fontes do Evangelho e criou raízes que deram novo sentido à sua radicalidade. Abriu centenas de Casas de Hospitalidade onde qualquer indigente poderia chegar e encontrar o conforto de uma refeição quente e de um lugar para dormir – às vezes a própria cama de Dorothy ou da sua filha, às vezes em dois metros quadrados de chão, quando não havia mais camas. Para além disso, foi uma ativista imparável das causas que considerava imperiosas, desde os direitos civis dos negros americanos, ao aumento dos salários dos trabalhadores rurais, às manifestações contra a guerra no Vietnam (em que foi pioneira). Hoje em processo de beatificação, Dorothy Day é o modelo do cristão comprometido com a transformação social aqui e agora, que não tem medo de se juntar a quem quer pôr em causa o status quo, com a consequência até de passar temporadas na prisão como um comum delinquente, mas que alimenta essa rebeldia com as exigências que lhe vêm de Jesus, das obras de misericórdia, da Doutrina Social da Igreja.

No nosso tempo e na nossa sociedade, figuras como Dorothy Day são cruciais. Alguém que tem a liberdade interior suficiente para seguir os caminhos que reconhece como justos, sem cegueira nem passividade. Estou a anos-luz de um compromisso como o dela, mas dou graças a Deus pelo seu exemplo. Tal como o de tantos outros cristãos corajosos e comprometidos, como o agora Santo Oscar Romero em El Salvador, Dom Samuel Ruiz no México ou Dom Hélder Câmara no Brasil. Se estes exemplos fossem mais conhecidos na nossa Igreja europeia, certamente que eu não me sentiria um bicho raro mas simplesmente alguém com uma dupla filiação.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.