O direito à demora: o primado da pedagogia - Ponto SJ

O direito à demora: o primado da pedagogia

Num tempo em que as respostas chegam cada vez mais depressa, o primado da pedagogia talvez exija que saibamos escolher aquilo que, na educação, não queremos acelerar.

Nos dias 2 e 3 de outubro participei, em Fátima, no Simpósio sobre a Educação e Escola em Portugal. Sob o mote «Traçar mapas educativos para uma Magnífica Humanização», o encontro reuniu diferentes perspetivas sobre as transformações que atravessam a educação e os caminhos que se abrem diante da escola.

A inteligência artificial (IA) ocupou, naturalmente, um lugar relevante na reflexão. No entanto, a questão que me parece mais decisiva é anterior à própria tecnologia. Perante a possibilidade de obter respostas de forma quase instantânea, somos novamente obrigados a perguntar o que significa aprender.

Na sua intervenção, João Couvaneiro, professor universitário e membro do Conselho Nacional de Educação, defendeu o «primado da pedagogia sobre a tecnologia». A expressão oferece um critério fundamental. A tecnologia disponibiliza possibilidades; cabe à pedagogia interrogá-las a partir das finalidades da educação.

A IA tornou particularmente evidente uma distinção que nem sempre fazemos: obter uma resposta não é o mesmo que conhecer; conhecer não é necessariamente compreender; e compreender não esgota aquilo que significa aprender.

A IA tornou particularmente evidente uma distinção que nem sempre fazemos: obter uma resposta não é o mesmo que conhecer; conhecer não é necessariamente compreender; e compreender não esgota aquilo que significa aprender.

É hoje possível resumir um texto sem o ter lido, construir um argumento sem ter percorrido o raciocínio que o sustenta ou chegar a uma solução sem experimentar as dificuldades do caminho. Esta possibilidade obriga-nos a olhar de novo para a aprendizagem, não apenas como aquisição de resultados, mas como processo de transformação da pessoa.

Na conferência de abertura, D. José Tolentino de Mendonça sublinhou uma dimensão aparentemente paradoxal: num mundo em que a tecnologia promete poupar tempo, a escola deve continuar a oferecer tempo. O tempo partilhado da relação pedagógica é condição para a confiança e para o crescimento. A questão deixa, então, de ser apenas quanto tempo a IA nos permite poupar. Importa perguntar: ao serviço de quê colocaremos o tempo que ganhámos?

A aprendizagem possui uma temporalidade própria. Compreender exige demora. Ler exige permanência. Pensar implica regressar, estabelecer relações, formular hipóteses e rever convicções. Eduardo Marçal Grilo, antigo ministro da Educação, recordou no Simpósio esta necessidade de tempo para que o conhecimento possa ser verdadeiramente apropriado.

A encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, situa esta questão no contexto de uma cultura digital marcada pelo imediato e pela hiperestimulação (Magnifica Humanitas, 139). Os processos educativos obedecem a uma lógica diferente. Exigem tempo de maturação e paciência (MH, 140).

Nem tudo aquilo que pode ser acelerado deve ser acelerado.

Talvez resida aqui um dos equívocos da inovação educativa. Inovar não significa necessariamente fazer mais depressa. Uma pedagogia verdadeiramente inovadora poderá ter de reconhecer precisamente os processos que importa proteger da aceleração.

Esta questão torna-se particularmente evidente quando pensamos no erro. D. José Tolentino de Mendonça alertou para o risco de o retirarmos do processo de aprendizagem. Ao fazê-lo, podemos retirar também alguma coisa à autonomia humana.

Há conhecimento que nasce da hipótese que não se confirmou, da solução que teve de ser abandonada ou da convicção que precisou de ser revista. O resultado importa, mas o percurso possui também valor educativo. A IA tende a tornar invisível esse percurso. Apresenta-nos, frequentemente, o produto acabado. A educação interessa-se também pelo caminho.

Por isso, uma escola comprometida com a aprendizagem terá de continuar a ser um lugar onde uma pergunta possa permanecer aberta. Onde o «não sei» não represente apenas uma insuficiência, mas possa constituir o início do conhecimento.

Há um tempo necessário para aprender. Para ler e pensar. Para errar e recomeçar. Para escutar e discernir. Para estabelecer relações. Para formular as perguntas que verdadeiramente importam. Para procurar sentido

Ao longo do Simpósio, a necessidade de abrandamento surgiu sob diferentes formulações. Adriano Batista, professor de Educação Moral e Religiosa Católica, falou da urgência da interioridade. Susana Sousa, diretora do Colégio de Nossa Senhora do Rosário, no Porto, apresentou-a como a necessidade de «abrandar num tempo de aceleração».

Na sessão final, Pedro Valinho Gomes, teólogo e decano da Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lille, recuperou a reflexão de Hartmut Rosa sobre a aceleração social e propôs a criação, nas escolas, de tempos e lugares de «demora e ressonância».

Talvez seja necessário reconhecer à pausa uma verdadeira dignidade pedagógica. A pausa permite que a pergunta não seja imediatamente substituída pela resposta. Cria espaço para escutar antes de reagir e compreender antes de formular um juízo. Introduz uma distância necessária entre o estímulo e a resposta.

A Magnifica Humanitas propõe, neste contexto, uma «higiene da atenção», através de ritmos que integrem silêncio, estudo aprofundado, leitura e debate ponderado (MH, 146). A questão ultrapassa o domínio metodológico. O que está em causa é a própria liberdade interior.

É neste ponto que o título Magnifica Humanitas adquire particular densidade educativa. A pergunta colocada pela IA não se limita ao que as máquinas conseguem fazer. Obriga-nos a explicitar aquilo que consideramos irrenunciável na formação do humano.

A escola deve ser lugar onde as novas gerações aprendem a procurar a verdade, a interrogar-se sobre o sentido da existência e a reconhecer a dignidade de cada pessoa (MH, 143). O desafio colocado pela tecnologia é, por isso, pedagógico, intelectual e sapiencial (MH, 145-146).

Não basta formar utilizadores competentes de IA. É necessário formar pessoas capazes de discernir quando a devem utilizar e quando devem escolher não o fazer (MH, 140). Pessoas capazes de formular perguntas, estabelecer relações, exercer pensamento crítico, assumir responsabilidades e orientar a liberdade.

É neste sentido que a aprendizagem pode ser entendida como processo de humanização. Aprender não consiste apenas em acrescentar informação. A verdadeira aprendizagem modifica o modo como compreendemos o mundo, os outros e a nós próprios. Forma critérios, alarga o olhar, confronta certezas e torna possível uma liberdade mais consciente.

O primado da pedagogia sobre a tecnologia não traduz, por isso, uma posição defensiva perante a IA. Pelo contrário, permite integrá-la sem perder de vista a finalidade.

Se a tecnologia libertar o professor de tarefas que pouco acrescentam à relação educativa, pode devolver-lhe tempo. Mas importa decidir o destino desse tempo. Podemos preenchê-lo com novas exigências de produtividade. Ou podemos devolvê-lo à educação: à relação, à leitura, ao silêncio, à reflexão e ao acompanhamento paciente de cada pessoa.

A Magnifica Humanitas fala da necessidade de «artesãos em educar», disponíveis para um trabalho quotidiano e paciente (MH, 238). A imagem é particularmente expressiva. O artesão conhece aquilo que tem diante de si. Respeita a matéria e os seus tempos. Sabe esperar e corrigir. Acompanha uma transformação que não pode ser simplesmente produzida em série.

Também a educação possui algo de artesanal.

A questão fundamental é anterior: que escola queremos ser quando uma máquina consegue produzir, em segundos, muitas das respostas que até agora demorávamos tempo a encontrar?

Há um tempo necessário para aprender. Para ler e pensar. Para errar e recomeçar. Para escutar e discernir. Para estabelecer relações. Para formular as perguntas que verdadeiramente importam. Para procurar sentido.

A inovação educativa não consistirá apenas em descobrir onde podemos ser mais rápidos. Terá também de nos ajudar a discernir onde queremos continuar a ser lentos. É esse, talvez, o direito à demora que importa preservar. Não por nostalgia de uma escola anterior à tecnologia, mas porque há transformações que só acontecem no tempo.

Entre elas está aquela que constitui a razão última da educação: o lento e sempre inacabado processo de nos tornarmos mais plenamente humanos.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.