Ao aterrar em Lisboa no passado dia 10 de outubro, de regresso de um retiro andante de dez dias à América Latina – “Das Reduções a Francisco” – regressamos entusiasmados e felizes, de alma e de coração cheios, mais ricos de Amigos, de História e de Estórias, de Energia positiva e de Fé renovada, e ao mesmo tempo tomados por uma vontade determinada de fazer algo de novo pelo bem comum. Mas afinal o que nos impactou, de forma tão forte, nesta visita improvável a lugares inacianos do Paraguai e da Argentina, às cataratas de Iguaçu e à Buenos Aires de Francisco?
A primeira impressão, à chegada a Assunção, Paraguai, é a de um povo simples, humilde, acolhedor e simpático, sentimento confirmado no decurso da estadia. É gente muito orgulhosa da sua história, com um percurso de coragem, de resistência e de resiliência, de luta pela independência num contexto de fronteiras cobiçadas por vizinhos “mais fortes”. O papel da mulher na história do Paraguai é enfaticamente salientado, pela sua valentia, física e moral, e pelo seu autocontrole, sobretudo depois do maior conflito armado da América Latina, a guerra da Tríplice Aliança no século XIX (1864-1870), que terá dizimado cerca de 80 a 90% dos homens paraguaios. Já no século XX seguiram-se as guerras do Chaco (1932-1935) e a guerra civil de 1947.
Num retrato sintético e impressivo dos nossos guias eu diria: o Mariano, nosso guia até Posadas, um homem tranquilo, bonacheirão, atencioso, cuidadoso, risonho, bom conhecedor da história e dos locais; o Caio, o guia assistente, reservado e respeitador na presença do Mariano, mas igualmente atento, solícito e prestável; a Rosário, do Aristócrata, uma explosão de vigor e de empatia, teatral, exímia comunicadora, um orgulho imenso na história do seu povo, no papel da mulher guerreira e na importância da aguardente de cana na economia do País. Muito poucos terão ficados indiferentes, no final da visita, à compra da sua “aguardente de cana”, naturalmente a melhor da América Latina. E os guias locais das missões jesuíticas guaranis, todos gentis e competentes, cada um no seu estilo. Destaco o mais jovem, Óscar (“pequeno brilhante” em guarani), guia da Missão da Santíssima Trindade do Paraná, cara lavada e olho vivo, sorriso resplandecente, dentes brancos, atento e ciente da sua responsabilidade de guia. À pergunta – onde moras? – respondeu-me não “onde”, mas “como”. Em comunidade, disse-me ele. Tendo-lhe enviado o retrato que lhe tirei, respondeu-me prontamente, feliz e reconhecido, tendo-me retribuído a foto do nosso grupo.
As cinco “reduções” jesuíticas que visitámos, de 30 distribuídas pelo Paraguai (8), pela Argentina (15) e pelo Brasil (7) foram: Santo Ignacio Guazu (associada a um museu de arte guarani), Santíssima Trindade do Paraguai, Jesus de Tavarangue, São Cosme e São Damião, Santo Ignacio Mini (esta última na Argentina). Para mim, que viajei mais de 40 anos em atividade profissional pelos cinco continentes, a história das missões jesuíticas na América Latina, que desconhecia, foi um “mundo novo” que se me abriu, apesar dos seus quatro séculos de existência… um mundo feito de espanto, de visionarismo, de coragem e de determinação, de resiliência, de martírio, de persistência, de fé e de iluminação divina. Como é possível que à data se dominassem conceitos de ordenamento territorial, de arquitetura, de engenharia, de outras ciências como a física, a matemática, a astronomia e as artes como a pintura e a escultura? Numa lógica de princípios de harmonia e de equilíbrio, de sustentabilidade económica, social e ambiental e de economia circular que hoje tanto se proclamam e aspiram, com metas reconhecidamente difíceis de atingir. E com que discernimento, sabedoria e valentia souberam os jesuítas inculturar os índios e criar verdadeiras comunidades (as missões ou reduções) em que tudo parecia estar pensado, estruturado e funcional: do ensino à evangelização, do trabalho à saúde e à “segurança social”, da vida familiar às oficinas, às artes e à música. Pergunto-me, quanto tempo à frente do seu tempo?
As cataratas da Foz do Iguaçu, no Brasil, e que também visitámos, são um deslumbramento, a natureza no seu máximo esplendor, prodígio da criação. São ordem (sobre)natural que contemplamos sem palavras e sem respiração. São espiritualidade. Conhecia-as pela primeira vez, em 1983, na sequência do 1º Congresso Luso-Brasileiro de Hidráulica e Recursos Hídricos, em Blumenau, no Brasil. Nessa altura viajámos uma noite inteira de ónibus para aí chegar. Creio que desta vez fiquei ainda mais tocada, certamente pela idade, pela conjuntura e pelas circunstâncias.
Em Buenos Aires acompanhar os passos do Papa Francisco foi emocionante: da casa onde nasceu, à Igreja de São José em que viu confirmada a sua vocação, até à missa no altar principal da catedral de Buenos Aires, rezada pelos quatro sacerdotes que acompanharam este grupo: Francisco, Miguel, Domingos e Abílio.
Regresso de mala cheia, com excesso de peso… aqui tolerado. Entre tantas outras coisas que poderia enumerar trago 40 novos Amigos divertidos e brincalhões, ótima companhia para a vida, o registo de uma dezena de homilias superiormente inspiradas com apontamentos e imagens que fizeram e continuam a fazer refletir, contemplar e permanecer, pedaços relevantes da história jesuítica que aprendi, gratidão por ter tido esta oportunidade, reconhecimento à organização por tão competente trabalho, e a vontade de continuar a crescer na espiritualidade e na Fé, contagiando elementos do meu círculo familiar.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.